Vida mortal. Vida natural. As coisas passam, as coisas acontecem, e a gente nem nota. Ou nota só depois. Depois: é um locus de tempo que revela simplesmente vida, acontecimento, passagem, história, um antes que passou. As coisas acontecem, porque não temos controle sobre elas. Às vezes pensamos ter, mas o que temos é apenas o deslumbre daquilo que queremos ver ou ter ou ser. Além do querer ver ou do querer ser ou do querer ter, há um ser imutável, natural, que acontece independente, quieto, que silencioso toma forma. A natureza é ser, é acontecimento, é antes e depois, é silenciosa, mas não estática ou muda ou artificial. Na natureza está o ideal simples de como as coisas deveriam ser. Nela está toda a mortalidade de ser, de ver, de ter. Não é perfeita, pois a perfeição absoluta é inatingível: até os deuses têm imperfeições, traços de uma mortalidade necessária, necessária para se viver. É justamente em não ser perfeita que a natureza é bela, ou melhor: é justamente por isso que nela se encontram os sinais do belo, da graça, do viço, da felicidade. O belo é sinônimo de mortalidade, de acontecimento, passagem, vida. Quando nos aproximamos de um quadro, tudo torna-se próximo, humano, mortal, revelador de imperfeições. A curta distância revela a mortalidade por trás da inefável obra-de-arte. A curta distância traz à tona os riscos, as pinceladas, os pequenos erros e acertos, as curvas, os sinais necessários e reveladores, reveladores da natureza. A natureza que está em todas coisas, escondida, distanciada pela artificialidade do querer ver. De perto, tudo expõe o natural de si. De perto, as coisas acontecem, têm vida, são naturais, belas. A longa distância mitologiza, artificializa o mundo, as coisas. A longa distância torna o mundo oculto, divino, encantador, de tons e contornos perfeitos. A longa distância é poder, é o poder de se tornar perfeito, de se tornar superior ao mundo de coisas mortais, humanas, imperfeitas. Mas a graça, o viço, se perde. O que se perde são os sinais de vida, de acontecimento, de antes e depois. Se perde o conhecimento do mundo, das coisas, de que o mundo é feito de coisas, riscos, pinceladas, erros e acertos. Se perde justamente a imperfeição, a graça que há no feio. Não há belo sem que o feio exista, pois o belo é justamente a harmonia que se cria entre os corretos e errados tons e contornos. Quando há um só tom e contorno corretos não há belo. Há um artificial perfeito, estático, sem graça, mudo, sem vida por ser imortal. A artificialidade esconde a mortalidade, o natural, o humano, o ser. A artificialidade destrói ou oculta a beleza do mundo, das coisas. Ela é o falso belo. Falso: o fictício que se faz passar por verdadeiro. A natureza que torna-se oculta é a verdade, a realidade, escondida, pintada, maquiada, penteada, torneada, vestida.
Nosso mundo nunca foi tão artificial como é agora. Cabelos pintados, bochechas maquiadas, cabelos moldados como se argila fossem, pernas e braços e abdômenes torneados, corpos bem vestidos: tudo tem sido muito perfeito, muito correto, muito artificial. O comportamento não escapa: pés que tocam o chão com a ponta dos dedos, olhares que negligenciam, esnobam, pernas cruzadas com uma segurança infalível, sorriso recatado, voz robotizada de operadoras de telemarketing. Os pensamentos, muito menos: o júbilo de se viver está em carro novo, viagens, roupas de última moda, necessariamente casar e ter filhos, money. Não há outras palavras senão: o que o mundo faz, devo fazer. A artificialidade, ao esconder a natureza das coisas, esconde também o singular, o diferente, porque a imperfeição, que é o segredo do belo, está na diferença –a jóia mais rara da natureza. A artificialidade é fictio, fabricação, construção, o deslumbre daquilo que queremos ver ou ter ou ser, esconde a natureza inicial. A busca pela fonte da juventude: o refinamento da insensibilidade humana moderna. As pessoas temem envelhecer, temem o fim. Temem o ciclo natural das coisas, das rugas no rosto ou dos cabelos que teimam em enrolarem-se mesmo depois de sessões e mais sessões de chapinhas. Temer a natureza é fugir dela. E a fuga, quase sempre, é uma insensibilidade em se perceber a beleza natural das coisas. De como o belo está no feio aparente. Fugir da natureza: fugir do nosso próprio mundo, fugir de nós mesmos, fugir do belo. Fugir da natureza: abrigar-se no mundo de fictio, do falso que se faz de verdadeiro, do artificial.
Natal e Réveillon: época do fictício, do artificial? Certamente sim. Mas é época também de sensibilidade, de percepção de coisas antes despercebidas. É época de graciosidade: sinal da sensibilidade que aflora nos corações que ainda permanecem belos, naturais.