terça-feira, 1 de outubro de 2013
Rabisco
Tão rápido, tão incerto, tão precipitante. Num instante, que não dá um segundo, tudo deixa de ser como antes. A vida muda, o destino muda. Decisão grande, com rabiscos tão pequenos. A vida começa e termina, e começa de novo, com esses rabiscos. Eles testemunham. Indagando-os, eles falam muito. E contam sobre uma história que já se conhece, que se repete a cada novo rabisco, aqui e acolá.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Ensaio sobre a ontologia das formas de viver e das profissões no mundo pós-moderno
"Eu vivo pra isso!" - M. Bethânia
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Rio Bonito
Não tenho palavras. Os livros não me dão palavras. Leio-os e tudo se vai. Nada vem. O tempo escorre na tela de tintas de cores vivas e coloridas. Aí se dissipa a cinzura do cérebro sem ideia do que fazer. Eis a oração de Maria, potente socorro em meio às agruras da quietude incomodante. Reza a canção que no coração está o segredo da vida. De onde ela é? É do rio Bonito, do feliz, do paraíso. O calor dos seus lábios coloridos aquece a frieza do vazio.
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Lugar-comum
Permaneço aqui, no meu canto, só e quieto. Não se trata duma escolha conveniente por fito, e sim imersa num vislumbre certeiro de sua fecundidade. Não é paz, mas reação. O ímpeto, o foco, o norte: elementos do deslocamento estratégico, da vida latente. No interior da floresta densa e silenciosa se desenvolve o verde dos cloroplastos. E o seu entorno é transformado e bastante vivido. Tudo o que permanece ao alcance previsível é experiência simples e profundamente sensível em contato. A diferença das coisas está apenas no contorno e não no que se passa no interior da floresta. Eis o cerne da filosofia monástica.
sábado, 22 de junho de 2013
Ciclo
(Nestor Oliveira)
Passa o tempo e a vida passa
E eu, de alma ingênua, acredito
No sonho doce infinito
Plenitude, enlevo e graça
Que sem tortura ou revolta
Estou cantando ao luar
Vamos dar a meia-volta
Volta e meia vamos dar
Depois a estrada poeirenta
Os pés sangrando em pedrouços
E apaziguando alvoroços
A alma intranquila e sedenta
Murchessem todas as flores
A correnteza das horas
As trevas sobre as auroras
Os derradeiros amores
Recordo o passado inteiro
E as voltas que o mundo dá
Meu limão, meu limoeiro
Meu pé de jacarandá
E aquele ao léu do destino
Que inspirou tanto louvor
Cajueiro pequenino
Carregadinho de flor
Passa o tempo e eu fico mudo
Ontem ainda a ciranda
Vida à toa, a trova branda
Agora envolvendo tudo
O vale nativo, os combros
Várzea, montanha, deveza
Essa poeira de escombros
De que se nutre a tristeza
Velho, recordo o menino
Que resta de mim, sei lá
Cajueiro pequenino
Meu pé de jacarandá
Passa o tempo e a vida passa
E eu, de alma ingênua, acredito
No sonho doce infinito
Plenitude, enlevo e graça
Que sem tortura ou revolta
Estou cantando ao luar
Vamos dar a meia-volta
Volta e meia vamos dar
Depois a estrada poeirenta
Os pés sangrando em pedrouços
E apaziguando alvoroços
A alma intranquila e sedenta
Murchessem todas as flores
A correnteza das horas
As trevas sobre as auroras
Os derradeiros amores
Recordo o passado inteiro
E as voltas que o mundo dá
Meu limão, meu limoeiro
Meu pé de jacarandá
E aquele ao léu do destino
Que inspirou tanto louvor
Cajueiro pequenino
Carregadinho de flor
Passa o tempo e eu fico mudo
Ontem ainda a ciranda
Vida à toa, a trova branda
Agora envolvendo tudo
O vale nativo, os combros
Várzea, montanha, deveza
Essa poeira de escombros
De que se nutre a tristeza
Velho, recordo o menino
Que resta de mim, sei lá
Cajueiro pequenino
Meu pé de jacarandá
Nós
Eu não acredito no seu anjo, mas eu acredito em você. Sujada
pela distância do desconhecido, a contemplação dos meus olhos de Pinóquio
enxerga a beleza do possível e luta pela crença de sua possibilidade. Meu ceticismo
é como sua crença, embora os objetos não se acompanhem. Eu sou como você e é
por isso que eu continuo acreditando que você crê. Por causa de nós, nunca nada
é a mesma coisa. Por causa de nós, a gente se conhece. Por causa de nós, e não
do seu anjo, eu continuo acreditando em você.
sábado, 15 de junho de 2013
No particular
Eis que surge o que não vejo, o que não pego, o que não
sinto. E surge de tal modo que não há como resistir. A eternidade do seu
instante me envolve e nada é como antes. Tudo se transforma e se eleva ao monte
de luz. É tão brilhante, é tão bonito, que faz do dia o seu espetáculo de arte.
Eis que surge, dali, onde sempre esteve, quieto, cômodo, em companhia. E,
definitivamente, nada é como antes.
sábado, 23 de fevereiro de 2013
Mais quatro anos
Outro dia. Pardais de fim de tarde que cantam nas árvores. O
breu começa a invadir tudo. Mais um aprisionamento filosófico da perda do
tempo, da inutilidade do gosto, da solidão necessária de escolhas certas e, por
isso, difíceis. Eis-me aqui. O passado próximo está se projetando no futuro
como um carma insanável, crônico e tão perturbador quanto antes. Não quero adentrar
nesse mar novamente, mas eu já estou partindo do cais. Perguntas tolas, cuja
resposta eu já sei, mas que teimam a incendiar com dúvidas e arrependimentos. Não
quero isso. Preciso de ares leves, e de menos preocupações e vaidades inúteis. Quero
aquilo de outro jeito, sem tormentos.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Gêmeos
Tão frágil, mas veloz e ágil como um ladrão. Olhares rápidos,
pensamentos rápidos, pontas dos dedos tocando a superfície. O perigo é sua
velocidade, seus sentidos tão sensíveis. Nada escapa à sua perigosa visão. Tudo
sobre a altura de sua fronte é de seu conhecimento. Nada que está abaixo tem
importância. Sua curiosidade satura-se no contato com o que se pode ver. É o
suficiente. Suficiente para sua mente inquieta. Suficiente para o peso leve que
pode suportar. Têm olhos de íris negra que brilham como estrelas negras,
movendo-se com vida própria. Sua palavra-chave é o perigo iminente, a fuga triunfante,
o ímpeto ao atalho. Seu ouro é sua charla, palavras que conquistam com
facilidade o ouvinte desatento. Jamais se encontrará a fixidez da honra dos
reis. Quando encontra um chão forasteiro, nele faz sua morada, se senta e esparrama-se
pelo aconchego instantâneo. É tão lógico e reativo que nunca é nada a não ser um quando.
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Clichê
Sujeiras me inquietam
profundamente. Tento me controlar, mas não consigo, é mais forte do que eu. O
pior é que estou lançado no meio do lamaçal e só há vermes no chão em volta. O
silêncio me incomoda muito. Ouço e sou forçado, como tantos outros, a
permanecer mudo, fazendo de conta que estou alienado. Parafraseando “Cálice”,
esse silêncio todo me atordoa, e, atordoado, eu permaneço atento. Nada é pior
do que o silêncio do medo. O medo, a força, a chantagem, a mentira, o
desorgulho. Acho que estou virando, sem a menor iniciativa própria, o mais exaltado
da Revolução. O sofrimento de outros tem me incomodado muito, justamente pela
minha impotência. As coisas melhoraram para mim: um motivo, acho, de inevitável
festejo. Mas isso não aconteceu. Até os cães na rua têm mexido com os meus
nervos. Talvez o meu cérebro esteja atrofiando, mas é certo que me parece que
as coisas estão voltando para trás. A experiência, o contato, não está me
dobrando às suas vontades. Eu não consigo pensar (in)diferente.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Só
Silêncio, olhos, atenção, plenitude. Parem tudo! Cada ar que
entra e sai das narinas tem textura. Cada pixel é tão vivo como uma explosão de
cores nos céus do novo ano. Os nervos estão sensíveis, e ao menor toque eles
reagem, provocando uma revolta sobre a superfície. Não tenho palavras. Elas
estão reclusas nos pensamentos, e brigam por um pedaço do seu universo. Coisas
pequenas são grandes demais quando têm vida. O tempo está preso num agora que
não passa. Tudo está muito claro, claro demais para não ser visto, pego e
digerido.
Assinar:
Postagens (Atom)