Qual a graça de sempre querermos satisfazer nossos desejos e vontades? Essa se trata de uma pergunta que não damos muito atenção, porque sua resposta parece ser um tanto óbvia: para ficarmos de bem com a vida. Mas, será que necessitamos tanto assim, em certas ocasiões, fazermos somente aquilo que nos interessa para ficarmos de bem com vida, mesmo que esse algo a ser feito seja muito difícil de se alcançar? A verdade é que aprendemos desde cedo a enxergar apenas na satisfação de nossas vontades o propósito mesmo de se viver, a despeito de como isso possa ser feito, ignorando, e às vezes se possível até passando por cima, os desejos alheios com o único intuito de fazermos aquilo que nos satisfaz. Onde o outro fica nessa história? Completamente à margem, como se ele não nos interessasse nem um pouco. E, em certo sentido, talvez não nos interesse mesmo, porque é-nos estranho. Porém, só quando paramos para pensar percebemos o quanto esse outro pode ser importante em nossa vida, não só no sentido de que ele tenha que participar diretamente dela, mas que pelo menos possa se inserir aleatoriamente em nosso cotidiano uma vez ou outra de forma muito útil e agradável. Pensar na realização de nossos desejos nos dá a possibilidade de ir ao céu num piscar de olhos, quase que como um sonho que nos envolve em sua magia, tão belo e agradável é a experiência de vivê-lo quanto ter a consciência de sua transitoriedade: é isso que nos dá ânimo para querermos mais e mais realizá-lo – a ideia de que irá mas sempre poderá voltar. E diante disso parece que pensar na possibilidade de não concretizá-lo levaria-nos à completa ruína. Há verdade nisso. No entanto, creio ser possível atingir esse estado de prazer, de “ficar bem”, não somente pensando na possibilidade de realização de nossos próprios desejos, pois se constatamos o quão bem faz realizar desejos por que tais desejos precisam ser o tempo todo os nossos? Por que não podemos permitir que os outros também os realizem? Eles irão gostar também, assim como gostamos. Mas não se trata apenas de permitir que outros possam realizá-los, indiretamente falando. É muito mais belo e agradável quando estamos por trás disso, quando estamos conscientes de que fomos importantes para que isso se realizasse. É tão reconfortante saber que o outro poderia estar neste momento em uma situação completamente inaceitável para nossos padrões de aceitabilidade, mas que não está, justamente porque não permitimos que isso se acontecesse.
É verdade que a ajuda se trata de um reflexo no espelho: quando ajudamos alguém, vemos que acabamos por ajudar a nós mesmos. Mas será que sabemos reconhecer quando precisamos, nós, de ajuda? Ou, melhor: será que aceitamos que outros venham nos ajudar, em certos momentos? É difícil reconhecer que nós erramos constantemente, o tempo todo. Porque é mais conveniente saber, ou querer saber, que o outro é o exemplo a não ser seguido, é mais fácil apontar o erro no universo alheio, porque quase não olhamos para nosso próprio umbigo. Quase sempre fazemos isso porque temos a consciência de que nosso ego será ferido, estará debilitado enquanto o daquele que quer ajudar estará em plena ascensão. Mas talvez não se trate mesmo de ego, e sim de uma questão de querer “ficar bem”: ora, o outro não pode ter a realização desse desejo?! A ajuda, nesse caso, pode ser uma forma de redenção do outro, uma forma de expor o reconhecimento de que ele errou mas está prestes a se redimir conosco. Tem-se um motivo a mais para se aceitar: o reconhecimento de que estaremos errando ao não reconhecer que o outro soube reconhecer, afinal não há um erro mais tosco do que simplesmente ignorar.
“Para toda ação, há sempre uma reação contrária e de igual valor” é o que de básico se aprende em Física. O “contrário”, neste caso, diz respeito a uma questão de sentido e de origem, não de intensidade, porque é sempre “de igual valor”. Passando para o mundo cotidiano, vemos que essa premissa se concretiza fielmente, com a única ressalva de que ao invés de “contrária”, deveríamos mudar (por uma questão de clareza), em certas ocasiões porque nem sempre isso se realizará, para “do contrário”, ou “do outro”. Pois o que nos faz querer ajudar alguém é aquele estado de bem-estar muitíssimo agradável. E isso parece vir quando constatamos o quão bem também foi receber a ajuda de um outro que fez parte, mesmo que momentaneamente, de nossa vida. Mas às vezes esses momentos parecem durar verdadeiras eternidades, como uma espécie de aprendizado que nunca se esquece. “Ficar bem” pode ser uma simples questão de fazer o bem, de passar adiante o ônus da ajuda. Por isso, passemos o bem adiante... É um exercício multiplicador!