quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Sobre os deuses


Tanta sujeira, tantos sorrisos planejados, tanto imérito, tanto compadrio, tanta desigualdade, tantos números no lugar errado. Quanto mais se cava, mais a lama abunda e suga os nossos pés para a profundidade. Estou farto dessa justiça partidária, dessa horda de sanguessugas do público, que não tem absolutamente nada de bom a legar. Estou farto disso que chamam de administração pública. Ponham-me uma venda nisso tudo, tapem as vergonhas desse poder absolutista pós-moderno, escondam os crimes legais, revoguem a lei do Vicente, da Clara, do guarda aposentado que ganha como a Presidenta! Tanta imundície por números! O resultado é que se precisa fazer Criança Esperança todo ano. Porque todo o interesse primário sorrateiramente se inclina para as contas da Caixa. É preciso enchê-las com as sobras do Orçamento, com o que se economizou das dotações. É preciso, antes de qualquer coisa, garantir que elas permaneçam cheias doravante. Só do que se precisa é do direito adquirido, e se a coisa julgada for necessária o filho do desembargador, nosso conhecido companheiro imérito de trabalho, nos ajuda. Tudo se pode aos poucos que podem. Só umas palavras, numas folhas de papel pintadas que chamam com o nome pomposo de Boletim Oficial, e a lei nasce, o camarada se abasta, a ex-sogra dona de casa vira chefe de setor, a política é enterrada. Só com umas palavras se cria e se destrói o futuro das pessoas, se brinca de Deus. O nojo me consome por dentro, ainda mais que a cólera pela impotência. Ponham-me um tampo nisso tudo! Estado bastardo, espelho das Europas decadentes, fruto do partidarismo vulgar. Estou cansado de adjetivos, cansei de dizer o que todos veem e sobre nada falam. Estou farto do silêncio, onde os de coração quente e limpo são oferecidos em sacrifício. Aos deuses do público, a minha renúncia, tímida, mas continuamente potente. Água mole, pedra dura, tanto bate até que fura.

sábado, 3 de novembro de 2012

Joguem fora as metáforas



Joguem fora os arranha-céus do luxo inútil, o paraíso artificial da burocracia burra. Joguem fora a retórica dos paletós pretos, nesse deserto de neurônios que queimam como as areias amarelas do Saara. Nada disso aquece os corações. Só traz a ilusão da perfeição estética tão inatingível como as nebulosas da Via Láctea. Chega de metáforas, e eu mesmo aqui agora me censuro. Só o que quero é o luxo das flores. Nada mais.