domingo, 27 de setembro de 2009

Uma aventura antropológica

Poucos espaços públicos dão a possibilidade aos “humanistas” de porem em prática o seu perspicaz olhar analítico sobre o comportamento humano do que aquele que convencionalmente identificamos como “meios de transporte” públicos. Os ônibus são o exemplo mais clássico disso. Neles encontramos os mais variados tipos de indivíduos, com suas “esquisitices”, que parecem, em alguns casos, revelar-se de forma perturbadoramente sem pudor algum. Mas creio que o lugar onde isso consegue se precisar melhor é o trem. Os trens são um incrível ambiente de contrastes: há neles desde os “hippies do subúrbio” até aos pseudoburgueses. É necessário, sem dúvida, ao se encarar um transporte desses ter tomado antes superdoses de um possante “energético relativista”, a níveis necessários para quase causar uma overdose de anti-etnocentrismo. Porque é muito curioso o fato de que nos trens circulam uma quantidade incontável e indefinível de seres estranhos à “normalidade”, incrivelmente "ex-óticos". Há nos trens desde aqueles que os usam para ir ao trabalho até àqueles que fazem do trem o seu ambiente de trabalho. Estes são os mais chatos que há. Quase sempre falam um dialeto muito distante daquele ao qual nos habituamos e alguns falam tão alto que parece que engoliram um megafone; além disso, alguns destes formam uma categoria muito peculiar de comerciante, a que vende de tudo, de livretos instrutivos para se criar um circo de pulgas até medicina artesanal, do tipo “anti-chulé”, “anti-caspa”, e (pasmem!) “anti-sovaqueira” –derivado do simpático termo “sovaco”. Tudo isso é meio chocante para corações frágeis, é por isso que o “energético relativista” torna-se eminentemente necessário. Não há um objeto de estudo mais rico para um cientista social do que o social e o cultural que se manifestam nos vagões, entre aquelas pessoas amontoadas só querendo chegar a seu destino. As mulheres formam um tipo bastante heterogêneo de sujeito, há de várias “espécies” e para os mais variados gostos: há a vovó arrumadinha, a secretária com voz daquelas mulheres de call center, a perua esnobe com ar de feminista, as gordinhas mal-amadas que fazem enfermagem, as jovens piriguetes com suas roupas apertadas ao corpo, as pseudo-recatadas que só sabem falar em Jesus, as executivas que trazem, ao menos, duas bolsas em cada braço e que só sabem ficar falando ao celular, as aspirantes à estilistas que demonstram freqüentar pouco as aulas de Design Têxtil, etc., etc. Quanto aos homens, não são menos heterogêneos: há os galãs (pelo menos de auto-estima) com seus cabelos espinhosos e/ou de roupas e sapatos coloridos e “na onda”, os que não estão nem aí para aparência, os titios bem arrumados com o celular fixado à cintura, o rapper de calças com fundo frouxo, o burocrata míope com lentes de 10 graus, os retoricamente elegantes que posam de terno e gravata, etc., etc. Mas não pára por aí. Há coisas mais "ex-óticas" como o próprio comportamento dessas pessoas que freqüentam o trem: há dos sujeitos aspirantes à fora-da-lei, como os que gostam de travar as portas dos vagões, aos modernos cavalheiros que se apressam em segurar a bolsa da madame que se aproxima. O comportamento, sem dúvida, é o que pode chocar mais os corações frágeis, sem o "energético relativista". Isso, porque dentro dos vagões parece já ter havido uma consolidação de uma forma específica de socialização, em que muito do que se considera absurdo no cotidiano exterior a este espaço lá encontra um sentido de "normalidade". Veja o caso dos vendedores ambulantes: praticamente já fazem parte do ethos dos vagões. É um ethos imposto que, em função de sua recorrência, torna-se parte do "sistema". Grande parte das pessoas acham "normal", por exemplo, o fato de haver cultos religiosos no interior dos vagões. Eu, particularmente, já presenciei isso, e achei uma verdadeira ladainha exorbitante, de se arrebentar os tímpanos -acho que preciso tomar uma dose a mais do "energético relativista" (rsrs). O pior de tudo é quando tenta-se justificar aquilo, com base numa "legitimidade teológica" pouco convincente, na qual Jesus é sempre o carro-chefe, pressupondo-se que todos ali devam acreditar nele. Acho que há uma problemática séria presente nos vagões: o sentido do público se esvazia muito de sua constância inicial. A riqueza cultural que lá se manifesta é, em certo sentido, o indicativo disso. Muitas agem de modo bastante conveniente a sua própria satisfação -é a prática excessiva do individual que deturpa o sentido de "normalidade", é ela que parece ser a raíz de um novo ethos lá dentro.

Encarar os vagões de um trem é um poderoso e útil exercício de estranhamento. É uma verdadeira aventura antropológica. Ali tudo é muito curioso. Ali vêem-se os homens em suas relações, com seus hábitos intrínsecos, quase como se pertencessem a culturas diferentes. Ora, os historiadores estão sempre tão obcecados em tentar observar isso em tempos já longíquos que, de fato, negligenciam que tudo isso está estarrecedoramente muito próximo de nós. Aquilo que buscamos no passado também está entre nós; não negligenciemos! Não há nada mais curioso a um "humanista" do que o humano que lá nos vagões, em relativa naturalidade, tem se reproduzido. Sem dúvida, em minhas próximas viagens, meus olhos estarão mais que atentos.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Sobre minha estranheza II

Eu não consigo entender direito porque algumas pessoas demonstram, em certas ocasiões, uma curiosidade tremenda em me ver ou ouvir falar. Tenho plena consciência de que sou estranho: isso é um fato acertado para mim. Só que essa curiosidade às vezes me deixa constrangido e confuso comigo mesmo. É provável que essas pessoas vêem algo em mim que eu mesmo talvez não veja, mas o que será isso? Creio que seja um pouco difícil falarmos de beleza, já que não sou tão belo assim a ponto de ser o centro das atenções. Talvez tenha alguma coisa a ver com uma certa exteriorização de minhas concepções, através de meu comportamento, de minhas palavras ditas, de minhas ações propriamente. Enfim deixe-me contar uma experiência que vivenciei há dias atrás, talvez fique um pouco claro do que estou tratando.

Certa vez, na faculdade, tive a tarefa de apresentar um texto para a turma, numa disciplina que curso pela manhã. Essa tarefa não foi muito difícil para mim. Pelo contrário, foi algo sem nenhum problema, afinal cada vez mais estou sabendo controlar meu nervosismo, que vem em função sobretudo de minha timidez -que, por sinal, está quase por completo controlada. A turma também é composta por poucos alunos, e mesmo a professora é bastante light, até simpática. A “coisa” não esteve na apresentação em si do texto, no que se refere à exposição de seu conteúdo e na sua prática que consiste em falar para outras pessoas, e sim como os indivíduos ali reagiram ao me verem apresentá-lo. Foi algo bastante peculiar. Antes de eu começar a falar, isto é, quando a professora ainda fazia uma introdução, todos estavam de cabeça baixa, meio entorpecidos. Só bastou que eu dissesse uma só palavra para que todos ali levantassem sua cabeça e apontassem seus olhos curiosos em minha direção. É uma experiência, de fato, intrigante, porque sinto que essas mesmas pessoas -as quais não conheço, pois nenhuma é de História- em outras ocasiões forçam um desvio de olhar quando vêem que me aproximo. É uma espécie de curiosidade oportunista, que se revela justamente quando eles têm ou sentem um momento mais “propício” a “descobrir mais sobre mim”, o sujeito estranho. Na verdade, parece ser isso a chave dessa estranheza que vêem em mim: não me conhecem e, por isso, nutrem alguma curiosidade em fazê-lo. Mas a questão também está aí: por que essa curiosidade? Não creio que seja apenas uma questão de interação com o “novo”. Porque esse mesmo “novo” pressupõe uma “diferença” em relação àquilo a que estamos familiarizados, que por sua vez provoca em nossa consciência uma predisposição em buscar conhecê-la. Parece ser essa “diferença” a “coisa”. Por que sou diferente? Em que consiste essa “diferença”?

Acho que isso tem muito a ver, embora talvez não só, com minha forma de se portar. Eu sou um sujeito muito formal. Formal na forma como me comunico. Formal na forma como me visto ou penteio meu cabelo. Sou muito “certinho”. Isso conta bastante num lugar onde parte das pessoas se vestem feito hippies ou pseudo-surfistas. Além do mais, eu sou um indivíduo completamente zen: falo bastante devagar e corretamente, usando às vezes até palavras bonitinhas. A calma é a minha principal característica, e é justamente isso que tem controlado muito minha timidez e nervosismo. Valorizo muito a placidez, pois ela me fornece mais segurança às minhas decisões pensadas e/ou praticadas. Torna-me um sujeito mais lúcido, não impulsivo. Essa minha forma “certinha” de agir atrai e ao mesmo tempo afasta as pessoas. Atrai justamente em função da “diferença” que falei acima, e afasta porque, em algumas ocasiões, as pessoas interpretam erroneamente isso como uma atitude esnobe ou arrogante de minha parte. Mas isso apenas são características naturais minhas, não algo forçado ou exibicionista. Porque se há algo que detesto é exibicionismo -isso revela fraqueza, imaturidade e falta de confiança em si mesmo, já que busca-se apelar à retórica. De fato, as pessoas se assustam quando vêem um indivíduo de feições como as minhas falar tão bonitinho ou certinho, ou com uma relativa naturalidade e desenvoltura. Isso, mesmo porque sempre me privo de falar em muitos momentos, isto é, falo pouco. Por isso devem se intrigar com o seguinte: esse indivíduo sempre quieto, na sua, que quase não dá nenhum palpite, quando diz alguma coisa fala de uma forma tão erudita e com tanta certeza em suas palavras... Na linguagem do senso comum, a verdade é que eu "como quieto", no sentido mais positivo do termo. Eu apenas busco ter discrição e elegância naquilo que faço, nada mais, nada menos.

Pois é, a questão é que sinto que as pessoas sentem uma estranheza significativa em relação a minha forma de se portar. E, em certo sentido, é natural que aconteça. O caso da apresentação do texto foi apenas uma dentre as várias situações em que esse "estranhamento" me foi direcionado. O fato de todos lá na sala terem levantado a sua cabeça e olhado imediatamente para mim mostra que eles queriam saber "algo mais" sobre mim, ou que houve algo em meu comportamento que lhes chamou a atenção. O fato de meu comportamento, às vezes, chamar a atenção tem a ver com uma pressuposição das pessoas a meu respeito que é conferida pela minha aparência em si -o que inclui não só feições físicas mas também formas de agir prévias, que identificam visualmente um sujeito. À primeira vista, não vejo problemas quanto a isso. Mas isso também não significa que não haja. O problema está, por exemplo, nas possíveis interpretações a respeito de minha pessoa que derivam dessa "surpresa": como já disse, ser visto como esnobe torna-se quase um lugar-comum a partir disso. E aí criam-se distâncias iniciais que, dependendo das circunstâncias, podem tornar-se maiores com o tempo, podendo ser bastante prejudiciais à minha socialização em determinados "espaços". Mas essa é uma questão que foge muito a meu controle, no sentido de que não depende em si de mim a sua existência. Depende antes do julgamento alheio e da distância que esses "outros" "pretendem" inconscientemente ou não sustentar. Por dois motivos um tanto óbvios, não me preocupo com isso: (1) minhas ações resultam de minha própria natureza e (2) nada disso prejudica outras pessoas. Seria um verdadeiro contra-senso querer controlar minha natureza, não só porque é muito mais forte que eu, mas também porque não é esse meu desejo. Mas eu ainda confesso que gosto um pouco disso tudo, é meio hilário até: as pessoas arregalam os olhos, numa expressão de inconformismo e curiosidade gritante. O melhor de tudo são aqueles que relevam uma certa timidez, querendo controlar os seus olhos que tentam a todo custo olhar para mim -ficam apenas me espiando de "rabo de olho". (rsrs)

É verdade que essas situações me deixam um pouco constrangido, às vezes. Mas nada que uma boa reflexão psicológica ou existencialista não resolva. Afinal, o que seria de mim sem essas questões existenciais?!...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Vivendo e não aprendendo

Quanto mais eu vivo, mais aprendo que nada sei. É incrível isso! Eu, às vezes, fico estarrecido comigo mesmo. Como eu tomo certas atitudes, como eu pude agir dessa ou daquela forma... Isso talvez seja pelo fato de que eu não consiga controlar a mim mesmo, ou que talvez não saiba o que de fato sou ou até onde vão meus limites. Só sei que eu me surpreendo, às vezes, comigo mesmo, com meu próprio comportamento. É mais forte que eu... Esse meu comportamento, nessas vezes, parece revelar uma fraqueza minha incrível e bastante arrebatadora. Eles mostram o quanto sou frágil, o quanto a força que parece que eu tenho é pura superficialidade. É muito triste, porque tento mudar, mas às vezes é mais forte que eu. Quanto mais vivo, quanto mais experimento novas situações ou coisas, parece que mais vejo que não sei nada, que meu comportamento revela uma inexperiência constrangedora. Tenho plena consciência de meus problemas, de minhas limitações, de minhas fraquezas, mas não sei como controlar tudo isso, não sei como reverter a situação. É triste, muito triste. Além disso, isso me deixa profundamente angustiado, porque não encontro alguma saída. Tenho plena consciência de que meus problemas são sérios, mas eles parecem encontrar uma tangente, e sempre escapam a alguma solução que me vem momentaneamente. É isso que mais me aflige. Eu não consigo encontrar a puta de uma solução! Se bem que talvez aí é que esteja, de fato, a coisa: se eu, até hoje, não tenho solucionado isso, é porque eu talvez esteja buscando algo que não exista ou que está tão óbvio que não enxergo. Meus aprendizados até hoje parecem permanecer no mundo das idéias. Há algo em mim que não os faz se concretizarem. Na realidade, parece que não aprendi nada até hoje. Tudo o que tenho vivenciado não tem encontrado vida em minhas decisões e ações, parece ser tudo muito “estranho” à realidade prática. Quem sabe eu não esteja enlouquecendo? Isso deve ser efeito dessa crise existencial que ainda manifesta resquícios seus em mim. Essa minha confusão existencialista tem me tirado verdadeiramente do sério – ela consegue, de fato, perturbar minha mente. Talvez do que eu esteja precisando é mesmo refrescar minha mente com ares novos. Ela já está saturada com as várias e perturbadoras aporias que tenho vivenciado nos últimos anos. É um negócio de louco! Eu imagino que a maioria das pessoas que olham para mim acham que devo ser uma pessoa repleta de autocontrole, segura e consciente de suas decisões. Mas isso é a coisa mais inverossímil que há nesse mundo! Eu sou indivíduo extremamente problemático. A questão é que isso dificilmente se manifesta em minhas feições ou ações, porque está demasiadamente entranhado em mim. Meus problemas parecem se aglomerar asfixiosamente em meus pensamentos, e quase não encontro algum remédio para isso. Eles nascem, crescem, reproduzem-se e morrem em minha mente. Mas alguns são tão resistentes que são um mal crônico, quase incurável. Essas aporias me fazem aprender bastante sobre a vida, mas, ao mesmo tempo, eu não consigo, em várias circunstâncias, colocar seu aprendizado em prática. É um aprendizado do qual não estou sabendo usufruir. Por que será? Será isso a minha sina? Certamente não, porque não acredito em sorte, fortuna. Esse é um problema para o qual deve haver alguma solução. Eu apenas não estou sabendo encontrá-la. Mas, antes de tentar encontrar uma solução, preciso conhecer essas minhas dificuldades, esses meus problemas insanos. É só conhecendo o inimigo, que nós podemos, de fato, abatê-lo, caso contrário ele poderá até fortalecer-se com nossas ações ingênuas. Preciso conhecer os meus tormentos, as minhas dificuldades, os meus limites. O aprendizado vem justamente do conhecimento que temos sobre. Ter consciência de que sou problemático é um primeiro passo, mas não é, por si mesmo, a verdade por trás do que me aflige – preciso, de fato, ter a ciência do que é isso, ter ciência do seu conteúdo intrínseco.

sábado, 12 de setembro de 2009

Pra que existencialismo?!

Coisa mais chata ficar filosofando... Até porque não sou filósofo, pelo menos não de profissão. Como é que eu consigo ficar escrevendo um negócio desses?! Isso, além de broxante -veja o caso de Simone de Beauvoir e Sartre, a relação sexual deles era um pouco problemática, muito provavelmente porque o Sartre refletia sobre suas “ações” até na hora de decidir qual a posição “mais agradável”, e isso, sem dúvida, desestimularia qualquer tendência à lascívia-, é muito chato, eu confesso! Duvido que alguém se dará ao trabalho de ler uma coisa dessas, porque logicamente qualquer um tem um mínimo de bom senso. Esse existencialismo barato tem me tornado um sujeito muito sensaborão. Tudo isso tem um culpado ou culpados. São os hippies que me contaminaram com esse ar depressivo e cadenciado, cheio de idéias espalhafatosas e sem utilidade prática. Utilidade? Sejamos utilitaristas, sejamos liberais, sejamos capitalistas, sejamos os yuppies mais individualistas e anti-revolucionários que há nesse mundo! Contracultura, pra que serve isso? O importante é não perder-se a classe, a elegância. É preciso fazermos escolhas de bom gosto, não qualquer entulho que apareça à nossa frente. Se bem que as coisas trash são às vezes bastante necessárias, muito curiosas, e podem até ser educativas. Veja o caso de se assistir a Sílvio Santos na televisão: ensina-nos muito sobre o quão deleitoso é admirarmos grana, mufunfa, money. Ora, há algo mais interessante e “pós-moderno” do que sermos individualistas e apreciarmos uma boa grana?! Chega desse papo já brega de que dinheiro não traz felicidade. Quem pôde inventar uma barbaridade dessas?! Ora, eu nunca vi alguém sem dinheiro e feliz... Temos que nos integrar ao sistema! Tomar vinho e achar graça assistindo àquelas discussões nonsense do “Saia Justa”. Se bem que elas parecem muito com aquelas discussões “João Canabrava” do Senado Federal -às vezes, sem nenhum sentido e de um direitismo retoricamente esquerdista. Ética, pra que serve isso? Se os nossos próprios senadores, homens públicos que deveriam zelar pela responsabilidade, demonstram saber notoriamente que a carne é fraca, por que nós, humildes mortais consumidores de “Os Simpsons”, temos que estar alienados dos prazeres da vida mundana? Direitos iguais, pra que serve isso? A verdade é que as mulheres querem tomar o poder dos homens -uma ditadura feminina, quem sabe se não estamos caminhando pra isso? Mas as mulheres não vivem sem os homens, são seres incompletos, não têm o cromossomo Y.

Esse existencialismo “woodstockiano” só tem fechado meus olhos, só tem sensibilizado a níveis alienantes minha consciência, que é naturalmente prurida por pensamentos fluídos. Não há algo mais chato do que manter um blog com textos profundamente pensados, densos, repletos de uma aura meio trágica, quase que como se eu fosse um suicida autodenunciante. Essa tarefa de manter um blog é um negócio meio “Edward, Mãos de Tesoura”, no sentido de que é uma loucura misturada com tragicidade. É por isso que algumas pessoas me acham -pelo menos eu suponho- meio emo, sabe? Mas eu não sou emo, porque, em primeiro lugar, detesto rock, e, em segundo, apenas corto meu cabelo da forma certinha como sempre cortei desde que me entendo por gente. Se os emos cortam seus cabelos de forma semelhante como eu costumeiramente sempre cortei é um problema exclusivo deles, não meu -eles é que são parecidos comigo, não eu com eles. Além do mais, o meu existencialismo não é um sentimentalismo emotivo, característico dos emos; é mais -digamos...- matemático, meio logicista, que não abusa muito de liberdade poética -sem bem que há alguns textos que fogem à regra e são pura poesia.

Eu preciso experimentar coisas novas. Esse blog está precisando de textos mais simpáticos, com uma densidade menos mórbida. Talvez não seja um problema necessariamente relacionado ao fato de ser existencialista em si, mas sim em como esse existencialismo está sendo passado por meio de meus textos. Acho que os tenho escrito com um existencialismo carregadamente “contracultural” e “anti-sistêmico”. Eu tenho me posicionado em relação a um lado, de forma quase religiosa. E realmente não tenho mais certeza absoluta -pelo menos, nesse momento exato- de qual lado realmente devo estar. Porque, de fato, sou um indivíduo demasiadamente inconstante, as minhas idéias mudam o tempo todo de maneira contínua. Na verdade, essa é a única certeza de que tenho de mim mesmo, a de que sou vazio de certezas. Talvez seja por isso que sou bastante existencialista, porque essas incertezas de tudo, o tempo todo, devem ser fruto de um não-conhecimento de mim mesmo. Eu não sei o que sou, quando fui ou serei alguma coisa. O existencialismo me é benéfico, porque me dá meios para visualizar em mim mesmo algumas estabilidades que não são tão aparentes quanto em pessoas relativamente “normais”. Ser existencialista fornece algum trunfo para dar um xeque-mate sobre as constrangedoras aporias que me aparecem. É em meio a isso tudo que as crises existenciais tomam vida, afinal não se reproduz nem um tipo de estabilidade em meu “sistema”, só o seu imediato oposto, dúvidas e mais dúvidas. Eu estou me sentindo como um verdadeiro colegial na época de seu vestibular, com suas inúmeras e profundas questões sem resolução à vista.

Preciso repensar minhas idéias. Preciso repensar minhas próprias maneiras de encarar as coisas. Tudo tem se encaminhado de um modo muito estranho, insensato. Ser existencialista do modo como tenho sido tem me levado a um mar revolto, de águas bastante brutas e perigosas. Às vezes sinto que tenho fugido -não sei o porquê- de atalhos que de vez em quando aparecem, trilhando caminhos mais duros, com pedras pontudas. Esse é um mal que me atinge: é que geralmente sigo as minhas vontades próprias, num “entusiasmo” meio cego. Acho que também, quanto a isso, conta muito uma questão egocêntrica: estou sempre buscando o “melhor”, o “mais”, o “limite” a que poucos conseguem chegar. Parece meio maquiavélico, mas sinto que é uma busca por poder, que tem se naturalizado em minhas ações. O problema é que essa forma de escolha é penosa demais, cansa qualquer um. Ser ou não ser, eis a questão.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O sol na janela

Ali está, brilhando como nunca antes.

Podemos sentir o seu calor sobre nosso rosto.

A suave brisa vindo em nossa direção, com seu sopro se insinuando em nossos lábios.

O seu terno abraço nos envolve, tão vívidos são seus raios.

O sol na janela brilha, como nunca antes brilhou.

Ele parece nos convidar para sairmos, lá fora.

Lá, há uma bela paisagem.

Onde a vida cresce, onde a grama viceja sob seus raios, brilhantes raios.

Lá, há uma bela árvore.

Sob ela, a vida passa lentamente, a preguiça chama a todos para um breve descanso.

Sob ela, os doces frutos caem aos nossos pés... Estão ali, só basta apreciarmo-los.


O sol na janela brilha, como nunca antes brilhou.

É domingo, é dia de paz e sossego.

Ele brilha como se fosse os sóis de primavera.

Aqueles que trazem os insetos e as flores, e com elas os seus frutos.

Ele brilha como se trouxesse, como nunca antes trouxe, um mundo pleno de vida.

Que nos convida a participar do seu júbilo, do seu eterno aniversário.

É a ambrosia dos deuses que lá está... É a isso que ele nos chama.

É o eterno viver que brilha sob nosso rosto, a eterna inconstância que sinuosamente percorre, com carícias, o nosso rosto...

O sol na janela brilha, como nunca antes brilhou.

Não há nuvens escuras lá no céu, e quase não há brancas.

Um azul muito intenso está sob nós, lá fora, emudecido em seu tom constante.

Entre nós e ele, só há pássaros, retos em seu destino.

Eles voam juntos, em companhia, entoando sua canção pelo horizonte.

O sol que brilha os faz cantarem sua vida, convidando-nos a viver com eles, a voar pelo horizonte daquele maravilhoso céu azul.

A janela é a única fronteira dos nossos mundos.

Porque o seu mundo de vida penetra por ela e invade nosso corpo de desejo, fazendo-nos viver, aqui na janela, com eles, que estão indo ao longe.


O sol na janela brilha, como nunca antes brilhou.

Vejam as flores... Suas pétalas abrem-se em vida, chamativas com sua cor suave e acesa sob os raios do sol.

Os besouros vêm, atraídos pelo seu doce e inebriante perfume levado pela brisa.

Os beija-flores vêm também beijá-las. Vêm sentir o seu néctar de energia.

As flores enchem de cor a paisagem.

Elas são frutos do estímulo que vem do sol, dos seus raios, afáveis raios.

Que doce vida a janela nos traz!

Lá fora tudo vive, tudo viceja em paz e harmonia.

Aqui dentro, a vida repete-se incólume, sem a graça, sem o viço da paisagem lá fora.

O sol vem para aquecer nossos desejos, nosso corpo, que deseja nada mais que a vida lá fora.

O nosso coração palpita, se enche de vontade, vontade de viver a vida.