Poucos espaços públicos dão a possibilidade aos “humanistas” de porem em prática o seu perspicaz olhar analítico sobre o comportamento humano do que aquele que convencionalmente identificamos como “meios de transporte” públicos. Os ônibus são o exemplo mais clássico disso. Neles encontramos os mais variados tipos de indivíduos, com suas “esquisitices”, que parecem, em alguns casos, revelar-se de forma perturbadoramente sem pudor algum. Mas creio que o lugar onde isso consegue se precisar melhor é o trem. Os trens são um incrível ambiente de contrastes: há neles desde os “hippies do subúrbio” até aos pseudoburgueses. É necessário, sem dúvida, ao se encarar um transporte desses ter tomado antes superdoses de um possante “energético relativista”, a níveis necessários para quase causar uma overdose de anti-etnocentrismo. Porque é muito curioso o fato de que nos trens circulam uma quantidade incontável e indefinível de seres estranhos à “normalidade”, incrivelmente "ex-óticos". Há nos trens desde aqueles que os usam para ir ao trabalho até àqueles que fazem do trem o seu ambiente de trabalho. Estes são os mais chatos que há. Quase sempre falam um dialeto muito distante daquele ao qual nos habituamos e alguns falam tão alto que parece que engoliram um megafone; além disso, alguns destes formam uma categoria muito peculiar de comerciante, a que vende de tudo, de livretos instrutivos para se criar um circo de pulgas até medicina artesanal, do tipo “anti-chulé”, “anti-caspa”, e (pasmem!) “anti-sovaqueira” –derivado do simpático termo “sovaco”. Tudo isso é meio chocante para corações frágeis, é por isso que o “energético relativista” torna-se eminentemente necessário. Não há um objeto de estudo mais rico para um cientista social do que o social e o cultural que se manifestam nos vagões, entre aquelas pessoas amontoadas só querendo chegar a seu destino. As mulheres formam um tipo bastante heterogêneo de sujeito, há de várias “espécies” e para os mais variados gostos: há a vovó arrumadinha, a secretária com voz daquelas mulheres de call center, a perua esnobe com ar de feminista, as gordinhas mal-amadas que fazem enfermagem, as jovens piriguetes com suas roupas apertadas ao corpo, as pseudo-recatadas que só sabem falar em Jesus, as executivas que trazem, ao menos, duas bolsas em cada braço e que só sabem ficar falando ao celular, as aspirantes à estilistas que demonstram freqüentar pouco as aulas de Design Têxtil, etc., etc. Quanto aos homens, não são menos heterogêneos: há os galãs (pelo menos de auto-estima) com seus cabelos espinhosos e/ou de roupas e sapatos coloridos e “na onda”, os que não estão nem aí para aparência, os titios bem arrumados com o celular fixado à cintura, o rapper de calças com fundo frouxo, o burocrata míope com lentes de 10 graus, os retoricamente elegantes que posam de terno e gravata, etc., etc. Mas não pára por aí. Há coisas mais "ex-óticas" como o próprio comportamento dessas pessoas que freqüentam o trem: há dos sujeitos aspirantes à fora-da-lei, como os que gostam de travar as portas dos vagões, aos modernos cavalheiros que se apressam em segurar a bolsa da madame que se aproxima. O comportamento, sem dúvida, é o que pode chocar mais os corações frágeis, sem o "energético relativista". Isso, porque dentro dos vagões parece já ter havido uma consolidação de uma forma específica de socialização, em que muito do que se considera absurdo no cotidiano exterior a este espaço lá encontra um sentido de "normalidade". Veja o caso dos vendedores ambulantes: praticamente já fazem parte do ethos dos vagões. É um ethos imposto que, em função de sua recorrência, torna-se parte do "sistema". Grande parte das pessoas acham "normal", por exemplo, o fato de haver cultos religiosos no interior dos vagões. Eu, particularmente, já presenciei isso, e achei uma verdadeira ladainha exorbitante, de se arrebentar os tímpanos -acho que preciso tomar uma dose a mais do "energético relativista" (rsrs). O pior de tudo é quando tenta-se justificar aquilo, com base numa "legitimidade teológica" pouco convincente, na qual Jesus é sempre o carro-chefe, pressupondo-se que todos ali devam acreditar nele. Acho que há uma problemática séria presente nos vagões: o sentido do público se esvazia muito de sua constância inicial. A riqueza cultural que lá se manifesta é, em certo sentido, o indicativo disso. Muitas agem de modo bastante conveniente a sua própria satisfação -é a prática excessiva do individual que deturpa o sentido de "normalidade", é ela que parece ser a raíz de um novo ethos lá dentro.
Encarar os vagões de um trem é um poderoso e útil exercício de estranhamento. É uma verdadeira aventura antropológica. Ali tudo é muito curioso. Ali vêem-se os homens em suas relações, com seus hábitos intrínsecos, quase como se pertencessem a culturas diferentes. Ora, os historiadores estão sempre tão obcecados em tentar observar isso em tempos já longíquos que, de fato, negligenciam que tudo isso está estarrecedoramente muito próximo de nós. Aquilo que buscamos no passado também está entre nós; não negligenciemos! Não há nada mais curioso a um "humanista" do que o humano que lá nos vagões, em relativa naturalidade, tem se reproduzido. Sem dúvida, em minhas próximas viagens, meus olhos estarão mais que atentos.