As coisas são assim, o mundo é assim, as pessoas são assim. São? Prefiro o estão –é mais literal. Estar é se submeter, é se adaptar, é cumprir exigências de fora, é renunciar a um eu sob um manto espesso de aparências. Estar é a mais pura constatação de inteligência, de saber usar as coisas à nossa preservação, à nossa manutenção. É a mais visível e oportuna escolha diante de nossos olhos. Por que, então, não estar?! Ele é necessário, mas não o suficiente. Essa é a questão: a insuficiência do estar leva-nos ou impõe-nos uma necessidade de ser, de reafirmar às vezes o que há de mais humano em nós. É que simplesmente cansamos... Estar é a retenção do ser em nós mesmos, um meio de colocar falsas amarras nos instintos que fluem em nossas veias, como se isso fosse necessário para a existência de certas ficções irrenunciáveis. Ora, há maior ficção do que a vida social?! E a vida social requer, antes de qualquer coisa, que controlemo-nos, que bloqueemos nossos impulsos em nome de um princípio de comunidade, de convivência múltipla. Para isso, criou-se o que chamam de educação, de regras e protocolos tácitos ou não sobre a interação entre indivíduos. E é isso. Assim deve ser. Aquilo que deve ser nem sempre é aquilo que é; ou melhor, aquilo que está. A ficção da vida social é clara quanto a seu intento: conviver –viver com. É isso que deve ser, deve existir. Mas o que é realmente isso?? A pergunta é retórica. Cadê o viver com?? Desapareceu, ou, ao menos, não há... As coisas estão assim, o mundo está assim, as pessoas estão assim. Assim está. Dito isso, o que importa se assim está? Nada importa se ao nosso mundo isso não faz sentido. E esse mundo, o nosso mundo, aquele que diz respeito somente a nós, é justamente aquele que temos todo o controle. Nesse mundo é que podemos intervir diretamente, transformá-lo ou não conforme aquilo que deve ser. E por que não fazê-lo? As exigências de fora estão num mundo de dimensões muito grandes, imensuravelmente fictícias. Não temos controle sobre esse mundo e qualquer tentativa direta sobre ele será falível de total descrédito. Por isso, o nosso mundo é aquele de maior segurança, de maior certeza, de maior chance de ser. Aqui, há uma dose de inteligência, de jogo, de sacação, mas ela é regada por sábias escolhas de um mundo possível. Um mundo possível e bom demais para nós e aqueles que estão em nossa volta. É desse mundo que temos controle e é ele, ao menos, que deve existir. Através dele, simplesmente podemos viver com. Amarras? Pra que isso? No fundo, nós somos as coisas, nós somos o mundo, nós somos as pessoas... Tudo isso está como está, porque renunciamos desde há muito a nós mesmos.
domingo, 27 de março de 2011
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