domingo, 29 de março de 2015

Hosana II

Das janelas abertas
Iluminadas pelos raios da manhã
Ouvia-se
E era como a luz nas janelas
Resplandecia em ecos
No interior do teu vivo templo
Como o luzeiro nas janelas
O som reluzia
Solo de candeia na escuridão
Facho a riscar na mudez do breu
O som do deserto
Solitário clamor de intimidade
Enquanto o tempo dos surdos
Reinava sobre aquela manhã
O luzeiro tocou a retina do teu vivo templo
Solitário, ele se firmou
Ouvia-se
Cântico solitário
Solo de plateia de surdos
Solo de um só ouvinte
Tuas janelas, espelhos
Iluminadas pelo som do deserto
Do teu para o teu
Vivo e solitário templo

Meu amor

Não me importa o que há de mim; não me importam os limbos, os reinos do esquecimento; não me importa para onde eu vou. Não são fardos que me mantêm em ti. Quando me aproximo, a tua luz me acende apenas um desejo: o de te amar no sempre. E é só o que me importa. É apenas isso que me mantém em ti. Eu só vivo para isso: te amar, te amar, te amar. O gérmen do teu afeto dá-me vida. O meu amor é te amar.

sábado, 21 de março de 2015

Humilde rei

Por gerações, o teu anúncio
Até João, não se ouviu tua voz
E tudo passou
Menos o que se falou
E eu ouvi tua voz
E tua majestade me fez chorar
Em teu berço, o teu ouro
Na palhoça de Belém, majestosa origem
Revestida da vida nua
Pelas vestes cruas
És o Éden depurado da primeira criação
Esvaziado da glória dos homens
Teu reino se elevou
E eu ouvi tua voz
E tua majestade me fez chorar
Em teu martírio, o teu poder
Renúncia, servidão
Humilde servo do teu pai
Humilde rei dos homens
Esvaziaste a ti da tua própria glória
Eis tua majestade
Teu reino dourado
Está consumado

terça-feira, 17 de março de 2015

Grande

Lembra-se do meu primeiro amor?
Daquele tempo de intimidade
Eu penso nele
Não precisei contar as estrelas
Nem os palmos do mundo
Tão somente o ver de perto
Já bastou o si
De tão pequeno, imenso
E, em mim, achei a ti
E amei-te em silêncio
E amei-te no íntimo
Pequeno, ainda te sinto no costume
Bastante, necessário
Aquele primeiro amor ainda me lembra
Quão grande és tu
Tempo de um só tempo
Presente perpétuo
Pois que não posso te abandonar
Nem que eu quisesse
Teu tempo, tempo de intimidade
Já se basta no si
Quiçá nas estrelas, nos palmos do mundo
De primeiro a último, de alfa a ômega
Foste e és meu amor
Amor de um só tempo
Temporalidade do teu tamanho
No pequeno és grande

domingo, 15 de março de 2015

Tu

Mesmo o mais o rico
Ainda que abertas as comportas do Firmamento
Faz-me morrer
Viver o desfalecimento de criação
Daí, a vida
Lá, teus louvores mais dolorosos
Arrebentam o coração
E rompem a distância de ti
Lavado em prantos
E enxugado de mim por ti
Eu posso viver
A minha morte faz-me viver
Não pelas águas vivas de fortuna
Antes, teus raios de Sol
O calor do teu amor
Tua fonte de criação
E abatido em tua adoração
Quebrantado ao som dos teus louvores
Meus joelhos procuram o chão
Terra em madrugadas frias
Amores
Água e sal, sede e água pura
Néctar das flores
Meu tudo, tudo o que preciso
Necessidade de ti que esvazia
O mundo que te busca
Tua química faz-me morrer
E faz-me viver
Para um outro
Segunda pessoa

sexta-feira, 13 de março de 2015

Teu reino

Rei deste mundo
Tua glória eu vejo
Tão límpida, tão certa
Mas de tão fugidia de teus passos
Não é mais que miragem
Eu vejo
A visão está em meus olhos
Mesmo distante, seu brilho ilumina
Fagulha de um incêndio
Ponto de um areal
As pedras rolam, porque soltas no caminho
Calços, sandálias de fé
Protegem os pés
Minha visão é teu amanhã
Minha visão são planos de aliança
Tua aliança, teu reino
Em teu berço dourado
Teu amanhã
Tão próximo, tão distante
A visão é minha
A conquista é tua
O reino há de ser teu

quinta-feira, 12 de março de 2015

Reino dos balões

Ansiosamente aguardo o dia
Continuamente eu falo, ouço e escrevo
Se corro na tua direção
Os terceiros não importam
Este mundo do entorno não importa
Lugar abandonado
Tudo existe e se realiza como de hábito
Mas nada disso faz sentido
Nada disso é meu fim
Essas pessoas
A companhia delas
O mundo que há em meio a elas
Nada disso é meu fim
Nem mesmo os líderes, seus pares e seus próximos
Eles não me conquistam
Se me seduzem
A sua estética não está em si mesmos
Está para lá do que são por si mesmos
Na transversal de um comum
De uma afetação comum
Eis meu fim
Ele me afasta do mundo e suas pessoas
Ele me alija de mim mesmo
A vida flutua
Como balão que se move na direção do sopro
Soprado, não conheço lugar de repouso
Mas o mundo-destino
Por sem chão, é éter
Nele só há balanço
Vida pulsante, balanço
O flutuar como lugar de repouso
O reino de ar, de atmosfera, de sopro
Eis meu fim

sábado, 7 de março de 2015

Juízos

Numa daquelas quarenta noites
Tu sonhaste comigo
O teu tempo
De longa duração, de espaços infinitos
Mostraste o meu mundo
E o que nele foi feito
Por ti, clamamos
Em teu nome, escolhemos
Em teu nome, afastamo-nos de ti
Palavras que escreveram
Por teu amor, por nossos amores
São a aproximação do divino
Por rastros, formas, a língua dos homens
Mas essa tua presença
Em intimidade
Dá-me a dimensão da tua grandeza
Que é muito maior do que os trabalhos da mente
Que é muito maior do que meu entendimento
Entendimento
A pureza do teu verbo
Não está na forma das palavras
Na língua, nos ouvidos, no texto
No silêncio do teu sopro
Sinto, conheço
E entendo o teu amor
O teu choro de dor
Que se estendeu ao passado e ao futuro
Que se fez num tempo só
Num tempo mesmo
Num tempo além dos tempos
Num tempo do sempre
Pelos juízos, tu choraste no sempre
E o meu choro
Choro de Heráclito
Não dura mais que uma noite
Pelo imenso amor
Tu sustentas os limites do físico
Pelo imenso amor
Tua pureza me alcança
Pelo imenso amor
Vivemos a criação
Sem nela restar a direção
Entendendo o teu choro
Entendo os teus planos de paz
Planos de nova aliança
Aliança de preenchimento
Soma, aderência, completude
Entendendo o teu choro
Entendo o juízo do teu verbo
Do homem, rico ou pobre, santo ou ímpio
Não veio, não vem, nem virá
Teu verbo verdadeiro, puro 
Está no silêncio do teu sopro

domingo, 1 de março de 2015

Hosana I

Com as ondas do ar, me levaste
Ao lugar sem nome, do silêncio
Sem norte, a teu esconderijo
Da angústia
Ouvi tua voz inaudível
Cujo caminho
De invisível, visível se fez
Ao interior
Meu corpo lavaste
Com toda sorte de amores
De invisível, visível se fez
Com tua presença
Ungiu-me
E eu te conheci
E eu conheci
Teus planos de paz
De tão elevado que fui
A ti elevo os meus pensamentos e minha voz
Grandioso és tu, fiel és tu
Aos teus pés entrego os meus amores
Deus do silêncio
Invisível Deus do visível