terça-feira, 28 de julho de 2009

Grande pequeno

Desde criança somos preparados e nossas mentes são condicionadas a buscar aquilo socialmente se entende como sucesso, vitória. Nestes termos, ser um vitorioso na vida supõe uma conformação individual com os padrões de conduta e/ou condição social difusos culturalmente no sistema social de que faz parte o indivíduo. O sentido de vitória a que nos acostumamos – e, pois, que se imprime em nossas concepções de “normalidade” – possui um estrito vínculo com uma espécie de “granderização” de nossos “feitos”, como se eles pudessem ser categorizados dentro de limites quase inatingíveis de excepcionalidade. E essa intuição de excepcionalidade denota o particularismo das pessoas vitoriosas, tornando-as indivíduos capazes de se isolar dos demais. Ser “grande” é uma qualificação restrita a poucos; às vezes, redutível a um só indivíduo. Haver pessoas “grandes” no mundo pressupõe a existência do seu imediato oposto, pessoas “pequenas”, cujos “feitos” são socialmente reconhecidos com pouca ou sem importância, se comparados com os dos “grandes”. O processo de “granderização” é, muitas vezes, justificado por fatos verdadeiramente reais, mas nem sempre isso acontece, por uma simples questão de oportunismo, já que ser “grande” reflete um desejo de consumo restrito e reconhecidamente pleno de prestígio. Tal processo também, quase sempre, implica numa lógica de personificação de “feitos” coletivos, como se fossem canalizados para um único indivíduo. Há um problema nisso, sobretudo no que se refere à memória de situações situadas num passado longínquo ou recente. É certo que essa personificação de “feitos” históricos facilita ou torna mais palpável a compreensão de certas realidades históricas, mas isso naturalmente rejeita um sentido social ou coletivo da mudança histórica. A verdade é que sempre estivemos acostumados a encarar a vida como um grande jogo, como se fosse um palco de disputas, ainda que a compreensão de tal não seja verdadeiramente intuída. No cotidiano, agimos como se estivéssemos participando de alguma competição, cujo objetivo é o alcance da vitória ou do sucesso, porém isso é-nos tão habitual que não nos damos conta dessa lógica de disputa que se reproduz a partir de nosso comportamento. Isso, porque a repetição é a chave para a consolidação do sentido de “normalidade” das estruturas que formam o sistema. Ser ou transformar-se em “grande” pode ser tarefa árdua para aqueles que tomam isso para si como necessário; e, de fato, é. Mas, há um problema nisso: a manutenção ou a tentativa de tornar-se “grande”, em muitas vezes, é essencialmente exterior ao indivíduo, como uma espécie de tendência involuntária suscitada pelo sistema. O caráter involuntário é que faz com que o indivíduo acabe por se perder, em função de uma busca sem qualquer sentido para si próprio. Isso se chama desilusão. O pior é quando se insiste em pisar na jaca, por uma busca desenfreada e irracional pelo reconhecimento de ser “grande”. Ora, por que gastar tanta energia nisso?!

Certamente, o fato de interagirmos, desde que somos gente, com idéias bitoladas do sistema de que fazemos parte dá-nos em si subsídios para contestá-las ou, ao menos, ignorá-las. Porém, é também certo que a percepção de “normalidade” torna-se, então, um contratempo, porque dificilmente poderemos enxergar anormalidade no que é “normal”. Pensar, pensar: esse é o segredo, afinal é por isso que temos cérebro. Ser ou transformar-se em “pequeno” parece ser o supra-sumo da degradação, do desprestígio. Mas, devemos refletir: o que é ser “pequeno” ou mesmo ser “grande”. Talvez essa seja uma questão de ponto de vista. Podemos ser “grandes” ou “pequenos” para muitas pessoas, mas não para nós mesmos e nossos pares. E, então, talvez o que nos permita inferir essas duas qualidades são os padrões admitidos e reproduzidos na esfera do público, como se houvesse uma força que é-nos exterior e, ainda assim, potente para determinar nossa conduta e nossa maneira de ver as coisas. Devemos pensar até que certo ponto seguir a orientação dessa força faz-nos bem. Os indivíduos que negligenciam isso estão, quase sempre, fadados a um eterno questionamento se atingiram ou não o sucesso, se são ou não “grandes” para si próprios. Às vezes, o sucesso pode estar diante de nossos olhos, ali, muito próximo de nós. Mas, a mórbida cegueira causada pela “normalidade” em se reproduzir as estruturas do sistema nos fazem trilhar caminhos muito mais compridos e repletos de obstáculos. Aqueles que são “pequenos” o são, em muitas vezes, por livre escolha; outros o são por terem fracassado em tentar ser ou manter-se “grandes”. Não é que essa livre escolha seja sinônimo de fraqueza, porque se pensarmos dessa forma estaremos explicando essa questão apenas a partir de um ponto de vista – o do sistema. As pessoas que escolhem ser “pequenas” o fazem por terem em mente que ser “pequeno” é apenas um estereótipo do sistema. Mas, essas mesmas pessoas querem ser “pequenas” justamente porque isso as torna, ironicamente, “grandes” para si próprias e/ou para seus pares. Nesse caso, a grandeza é muito mais uma questão interior ao indivíduo do que inerente ao sistema. A escolha em ser “pequeno” é uma escolha de ser “pequeno” em relação ao sistema, e não a nós próprios.

Alguns ainda poderiam se questionar sobre o seguinte: ora, será que não podemos conciliar as duas coisas ao mesmo tempo, isto é, tentar ser ou manter-se “grande” em relação ao sistema e a nós próprios? Responderia que sim. Isso é uma possibilidade que muitos indivíduos já vivenciaram e vivenciam. Mas, trata-se somente de uma possibilidade; isso quer dizer que muitos indivíduos não conseguem ser as duas coisas ao mesmo tempo. O problema está em como se chega a isso, porque ser ambas essas coisas pressupõe que num momento anterior éramos apenas uma delas e tornamo-nos depois as duas; ninguém nasce completo, é pura utopia dizer que somos completos desde que nascemos, porque “ser completo” trata-se de um processo de “tornar-se”. O caminho mais saudável para sermos “grandes”, em relação ao sistema e a nós próprios, se inicia, a meu ver, quando valorizamos a grandeza que há em nós; quando prestamos mais atenção ao sucesso que pulsa em nosso interior. É ao atingirmos a nossa vitória interior, que o tornar-se “grande” em relação ao sistema toma vida. A grandeza em ser “pequeno” nos leva, sem dúvida, a sermos “grandes”. Na verdade, o atalho para isso está bem próximo de nós, é só prestarmos mais atenção em nosso próprio umbigo.

sábado, 18 de julho de 2009

Sorriso

Lembro-me quando mandaram me calar

Não entendia direito o porquê

Só queria aprender

Só queria ser um deles

Sério, sem graça, mas um deles


As flores não me sorriam mais

O brilho não vinha mais, atrás

Só a paz inconstante e fugaz


Eu fugia atrás, sem saber do que

Buscava ser mais um deles

Estar entre eles

Mas fui e não fiquei

Fui, experimentei e vi que não gostei


Fugi...

Tudo voltou a me sorrir

E eu a retribuir

Reaprendi a sorrir


A sorrir como os cães

A sorrir como as flores

A sorrir doce e verdadeiro

Sem roteiro algum

Sem cobiçar dois ou um


Um sorriso, só isso

Rumo ao alto do céu

- Eu preciso sair daqui. Quero ir mais alto, mais além do que sempre estive.

- Por que isso, agora?

- Você não entende. Você nunca me entendeu.

- Você me culpa de nunca tê-lo entendido?! É porque eu te entendo que digo que não precisa ir.

- Não, você não me entende. Você não me entende e quer que eu seja contra meus próprios sonhos, meus desejos.

- Ícaro, é por te entender e te ansiar mais do que tudo que apenas estou tentando abrir teus olhos, que parecem fechar-se, mesmo querendo abrir-se. Se, então, desejas, vai.

- E irei. Irei contemplar a sorte que poucos tiveram. Força e coragem pulsam em meu corpo.

E assim foi Ícaro. A montanha era alta, alta demais para pessoas frágeis. Só durões teriam a coragem de encará-la. Os desafios eram muitos. Não havia qualquer trilha pré-definida, só um caminho natural cheio de pedras soltas e folhas secas. Os ventos sopravam forte quanto mais alto se subia. O ar tornava-se cada vez mais seco, pobre e frio; entrava com dificuldade rumo aos pulmões. A energia gasta era muita, tudo era muito difícil, intimidador, real demais. Ícaro só sabia subir, mais e mais alto. Tinha um objetivo em mente. Era chegar até seu cume e sentir o céu, vivê-lo e viver nele, mesmo que por um instante. Mas Ícaro ignorava conselhos, ignorava os seus próprios limites, aos seus olhos tudo parecia fácil e palpável somente pela vontade do desejo. Aos olhos em meio ao chão firme lá debaixo tudo parecia poético demais para não querer sentir a poesia ou cobrir das palavras do poeta. Mas o cume, que lá debaixo parecia estar cheio de campos floridos e verdejantes à luz do elevar-se do sol, parecia agora vazio, ameaçador, real demais para poesia.

Ícaro falava a si:

- Preciso chegar até lá. Ora, já caminhei muito, não posso desistir agora, por mais difícil que tenha sido até aqui. Preciso continuar, não posso voltar antes de chegar ao céu. Mas o que é isso? Tudo está muito diferente do que achei que fosse achar. O céu precisa ser diferente do que é aqui agora. Está perto, vou chegar até lá.

Não mais sentia o prazeroso ar dos campos lá embaixo entrar em suas narinas. Não mais podia sentir sob seus pés a macia grama dos prados, apenas sentia pedras duras e pontudas que só lhe davam calos e dores. Seu corpo pedia repouso, tamanho era seu esforço. Estava só com seus pensamentos, não havia seu amor para consolá-lo. A sede e a fome haviam cansado de vir, seu corpo já havia se acostumado. Pedras, pedras, pedras... o cume e o céu se aproximam.

- Oh, estou muito cansado. Preciso continuar, está próximo, muito próximo. Oh, ali está, preciso subir, só mais isso... Oh, Deus! Cheguei, cheguei ao céu! Não acredito, preciso gritar: eu cheguei, cheguei onde ninguém chegou antes, cheguei ao céu!

Ele chegou, cansado, mas chegou. Ícaro sentiu que o mais importante de seus desejos havia se realizado. Afinal, ninguém havia tido antes a proeza de encarar a mais alta de todas as montanhas com sucesso. O céu era o limite onde poucos conseguiam chegar, e Ícaro chegou... E por isso ficou muito feliz. Mas Ícaro precisava encarar a mais real realidade de seu sonho: aquele não era o mundo que esperava encontrar; era outro, muito diferente e pouco acolhedor.

- Então, esse é o céu?! O céu que sonhei até hoje e pelo qual acreditei, onde está? Mas o esforço que fiz foi grande demais, sofri demais, e para isso... – lamentou Ícaro – Onde estão as flores, onde estão os seres dos campos verdejantes? Todos não existem. A poesia só existia em meus sonhos e desejos... O mundo lá embaixo é muito mais poético e mais afável que aqui. E agora: ainda terei que refazer o caminho de volta?! Oh, o céu estava lá embaixo e não quis apreciar, nem ao menos vê-lo...

***

Buscar o céu. Todos têm esse direito. Quase todos têm essa obstinação. Por que buscá-lo? Será que não vem até nós, só? Talvez não venha, porque está lá, muito distante de nós. Mas para isso há os arco-íris. Eles são atalhos que nos conduzem até lá. Só basta pedirmos permissão aos duendes que guardam sua entrada, mas eles também são crianças como nós, e sempre estão sorrindo. Mas, além dos simpáticos duendes, por que ir até lá? Puxa, ainda assim é muito distante! Ah, fiquemos aqui! Aqui, na terra, no nosso chão, é mais firme, é mais acolhedor. Talvez um céu, maravilhoso céu azul, já esteja sob nós, só precisamos deitar sobre ele, e acariciar sua adorável e macia tez.

sábado, 11 de julho de 2009

Os reality shows e a retórica dos pseudo-intelectuais

Há um preconceito explícito manifestado por muitas pessoas a respeito de reality shows que passam na tv. Isso se deve ao fato de que criou-se uma concepção socialmente difundida de que tais programas sejam de uma inutilidade pública gritante, sobretudo por seu caráter alienante. Não vejo muita seriedade nesses argumentos, já que ele se origina freqüentemente no seio de grupos pseudo-intelectuais, como uma forma de assegurar sua “superioridade cognitiva” frente aos taxados de “ralé”. Talvez a origem deste preconceito esteja também no fato de que esses pseudo-intelectuais são avessos a programas de tv que atraem o “povão”, isto é, funciona como um mecanismo de definição de fronteiras identitárias estereotipadas do que seja o “intelectual” e o seu imediato oposto; portanto não “se espera” do “intelectual” o gosto por aquilo que é vernáculo – uma idéia que se origina de um desprezo, em certo sentido bem justificado, de que a “multidão” é ingênua.

O problema, a meu ver, se configura no fato de que muitos se acham “intelectuais” só porque estão inseridos cotidianamente em ambientes ditos “intelectuais” ou também pelo fato de que lêem – na maioria das vezes de forma ingênua – livros (que não passam freqüentemente de literatura barata). E acabam usando isso como argumento para se auto-reconhecerem como “intelectuais”. Ora, isso não passa de pura imaturidade. Creio que os verdadeiros “intelectuais” são aqueles que acima de tudo partilham de uma capacidade de apreensão da realidade a qual estão inseridos, direta ou indiretamente, interna ou externamente; são aqueles que sabem usar o que poucos usam: as células de seu cérebro. Reduzir, ou melhor dizendo, estereotipar, o intelectual como simplesmente aquele que devora livros é pura ingenuidade, porque a questão não está só no fato de que se faz algo, mas sim como isso é feito: quantidade é uma razão muitíssimo inferior à qualidade do que se está racionalizando e de como se racionaliza isso.

O desprezo por reality shows parte muito de uma visão de que tais programas são imbecis, e por isso não merecem ser prestigiados. E há verdade nisso: na sua maioria tratam-se de construções pouco pensadas por seus programadores, visando sobretudo a uma apreciação alienante por parte dos telespectadores; isto é, são realmente imbecis. No entanto isso não significa que, ao assisti-los, iremos nos tornar imbecis, já que isso depende estritamente da nossa capacidade de apreciá-los. Os reality shows, assim como muitos outros programas na tv, representam apenas um referencial de imbecilidade para seus telespectadores, porém o processo de imbelicização é automático: nós é que nos imbelicizamos ou não. Por isso, o problema está em como se assiste à tv, não necessariamente nela em si. Um telespectador pouco crítico estará sujeito a conseqüências um tanto sérias, principalmente no que se refere a muitos telejornais cuja finalidade última é informar, funcionando como verdadeiros referenciais de fundamentalismos de direita. Muitos ignoram os reality shows só porque são imbecis, mas devemos atentar para um fato: isso se faz por muitas pessoas objetivando apenas preservar seu estereótipo de “intelectual”, constituindo apenas uma atitude literalmente ignorante e hipócrita. E por acaso isso é uma atitude condizente à posição de “intelectual”, que essas pessoas tanto querem sustentar? Duvido muito. Porque a última coisa que estão fazendo é pensar. E se não usam o seu cérebro são tão irracionais quanto aquelas que eles tanto desprezam como tal.

Os reality shows chamam a atenção de públicos volumosos, pois parece haver uma espécie de gosto por observar o outro, e também da possibilidade de apontar onde as pessoas erram e acertam. Nesses tempos modernos em que o que mais se privilegia, ou se tenta privilegiar, é a nossa individualidade, onde o senso do privado se precisa melhor, é justamente onde a privacidade se torna o alvo-mor da curiosidade alheia: é uma espécie de graça naquilo que não é visto em condições normais, isto é, o outro em sua intimidade que se torna então revelada. Nesse sentido acho que o enfoque antropológico que recai sobre a noção de alteridade é-nos útil: é observando o outro, quase que como numa posição de testemunha ocular, que definimos aspectos de nossa compreensão do que seja ética, do que seja o correto, o bom para nós mesmos; em suma, é no comportamento alheio que definimos nossa própria constituição, enquanto indivíduos sociais. Por isso, creio na possibilidade de que tais tipos de programas, quando utilizados de maneira correta, podem nos servir como úteis ferramentas de psicologia social, e mesmo como suporte para desenvolvimento de nossas capacidades de observação do “terreno” onde pisamos, e das pessoas que pisam conosco. Os pseudo-intelectuais eventualmente são contra isso, já que negam simplesmente o fato de se dar alguma atenção a esse tipo de programação televisiva. Isso se trata apenas de discursos que visam garantir, a partir de parâmetros retóricos, certa autoridade social em relação às “multidões”. Na realidade, há uma tendência difundida no senso comum que fornece credibilidade ao papel social do intelectual, como se ele constituísse a camada pensante das sociedades, agregando todo o “restante” das pessoas em um patamar de fácil influência. Em todo caso, é difícil combinarmos ignorância – literalmente falando, no sentido de ignorar – e intelectualismo, já que este último caminha lado a lado da reflexão da realidade. Quando se ignora uma dada realidade torna-se difícil falar de racionalidade, e sim de pura impulsividade, de atitudes não-pensantes. Como, então, chamar a esses indivíduos de “intelectuais”? Se pensarmos em estratégias discursivas retóricas talvez isso seja possível, caso contrário não.