Poucas coisas me tiram tanto fora do sério quanto andar por calçadas movimentadas. De uma coisa tenho certeza: adoro lidar com pessoas; aprendo muito lidando com os mais diferentes tipos o tempo todo. É um gosto de humanista mesmo, de ser social, gosto esse que solicita muita presteza na hora da lide, da prática. É aquela velha lição: tudo tem o seu preço... E há ambientes de sociabilidade, como as simples calçadas em que caminhamos todos os dias, que têm alto custo para aqueles que querem, neles, se portarem como seres sociais.
Conflito é fundamental para que a vida tenha graça, tenha sentido. É inerente ao exercício de viver, de respirar, de fazer escolhas. Isso que chamam de sociabilidade, de conviver em sociedade de acordo com regras tácitas ou explícitas, é apenas um eufemismo para um tipo de atitude coletiva que visa a minimização de conflitos entre as pessoas. Conflitos sempre irão existir, isso é uma constatação inegável. Afinal de contas, mesmo que façamos força para artificializarmos o comportamento, o lado animalesco permanece silencioso e ativo, num domínio de obviedade oculta. E ele se revela, quando menos esperamos, mas se revela.
As calçadas movimentadas são zonas de conflito constante; são, quase sempre, requintadas galerias de exposição pública do foda-se. Sobretudo por causa das mulheres; e dos velhos. Mulheres frescas de peitos flácidos, com bolsas de compras imensas, que não conseguem resistir ao imã marqueteiro da vitrine e adoram desfilar despreocupadamente com tamancos de 10 centímetros de altura. Ou ainda aqueles velhos, produtos da burocracia sedentária de décadas atrás, que fazem questão de se entupir nas poucas frestas que a gente encontra no tumulto das calçadas. E vá reclamar com um deles... Vêm sempre com a desculpa estúpida e arrogante de que são mais velhos. Há, ainda, os descolados, as galeras, os brothers que fazem questão de andar todos juntos, como um arrastão, um ao lado do outro, e sorridentes, mostrando a deus e ao mundo como são maneiros, bacanas, como sabem contar piadas mesmo depois do estresse de há pouco com o chefe... Arggggg!! São os mais imbecis e bobões de todos. São aquele tipo de gentinha que ocupou os últimos lugares na lista de classificados no concurso público, e que adora decorar os números e nomes que aparecem nos telejornais para posar de pseudo-intelectual leitor d’O Globo; e, ainda, escondem que adoram a novela das sete –a das seis não assistem porque ainda estão no engarrafamento de volta para casa. As calçadas ainda são infestadas por outros animais nocivos. Além dos pombos, que estão no parapeito dos prédios de prontidão, e das baratas e ratos do bueiro e lixeiras, há os vendedores ambulantes e camelôs, sem falar nos distribuidores de panfletos, agentes de cartão de crédito e os facilitadores de empréstimos. Todos formando uma muvuca só, de gritos, palavras sem plural, odores indesejáveis de suor e fragrâncias da Avon, poluição visual de roupas e silhuetas absurdamente chocantes. É preciso jogo de cintura para lidar com os obstáculos das nossas selvagens calçadas de cada dia!
O fato é que temos dificuldade em praticar as regras que competem ao uso dos espaços públicos, sobretudo em circunstâncias em que habitualmente usufruímos deles. As pessoas, em geral, têm muita dificuldade em serem objetivas. (E digo “as pessoas”, porque objetivamente não me incluo nesse rol, já que ser reto não é nem um pouco difícil para mim.) Elas confundem comumente duas coisas distintas: objetividade e foda-se. Ter um comportamento objetivo não é sinônimo de mandar o mundo se foder, transformando, por exemplo, calçadas em lugares intransitáveis. Ser objetivo é apenas um exercício de consciência e bom uso público de ações. Em muitos casos, como o das mulheres que adoram desfilar sem pressa pelas calçadas, o que está em jogo é o usufruto de direitos cidadãos (de ir e vir) como álibi para a prática da falta de bom senso. E podem ser as mulheres com os passos, vocabulário e gostos estéticos mais classudos possíveis; mas se não há bom senso, não há mais que um exoesqueleto de artificialidade. Boa educação não depende de gestualidade corporal, nem de moda e de palavras rebuscadas, tampouco depende do conhecimento de direitos retos previstos na legislação. A boa educação não se exibe, se faz sentir tacitamente; está no plano do óbvio, daquilo que se nota somente quando prestamos atenção. É o mesmo princípio que faz o motorista parar no sinal amarelo dos semáforos: critérios circunstanciais, de bom senso, de ceder a vez por livre-escolha, para o pedestre com hora marcada no dentista. Sem mais nem menos, sem os pântanos do romantismo nem a aridez racionalista, e todos continuam o seu rumo.