Poucas coisas me tiram tanto fora do sério quanto andar por calçadas movimentadas. De uma coisa tenho certeza: adoro lidar com pessoas; aprendo muito lidando com os mais diferentes tipos o tempo todo. É um gosto de humanista mesmo, de ser social, gosto esse que solicita muita presteza na hora da lide, da prática. É aquela velha lição: tudo tem o seu preço... E há ambientes de sociabilidade, como as simples calçadas em que caminhamos todos os dias, que têm alto custo para aqueles que querem, neles, se portarem como seres sociais.
Conflito é fundamental para que a vida tenha graça, tenha sentido. É inerente ao exercício de viver, de respirar, de fazer escolhas. Isso que chamam de sociabilidade, de conviver em sociedade de acordo com regras tácitas ou explícitas, é apenas um eufemismo para um tipo de atitude coletiva que visa a minimização de conflitos entre as pessoas. Conflitos sempre irão existir, isso é uma constatação inegável. Afinal de contas, mesmo que façamos força para artificializarmos o comportamento, o lado animalesco permanece silencioso e ativo, num domínio de obviedade oculta. E ele se revela, quando menos esperamos, mas se revela.
As calçadas movimentadas são zonas de conflito constante; são, quase sempre, requintadas galerias de exposição pública do foda-se. Sobretudo por causa das mulheres; e dos velhos. Mulheres frescas de peitos flácidos, com bolsas de compras imensas, que não conseguem resistir ao imã marqueteiro da vitrine e adoram desfilar despreocupadamente com tamancos de 10 centímetros de altura. Ou ainda aqueles velhos, produtos da burocracia sedentária de décadas atrás, que fazem questão de se entupir nas poucas frestas que a gente encontra no tumulto das calçadas. E vá reclamar com um deles... Vêm sempre com a desculpa estúpida e arrogante de que são mais velhos. Há, ainda, os descolados, as galeras, os brothers que fazem questão de andar todos juntos, como um arrastão, um ao lado do outro, e sorridentes, mostrando a deus e ao mundo como são maneiros, bacanas, como sabem contar piadas mesmo depois do estresse de há pouco com o chefe... Arggggg!! São os mais imbecis e bobões de todos. São aquele tipo de gentinha que ocupou os últimos lugares na lista de classificados no concurso público, e que adora decorar os números e nomes que aparecem nos telejornais para posar de pseudo-intelectual leitor d’O Globo; e, ainda, escondem que adoram a novela das sete –a das seis não assistem porque ainda estão no engarrafamento de volta para casa. As calçadas ainda são infestadas por outros animais nocivos. Além dos pombos, que estão no parapeito dos prédios de prontidão, e das baratas e ratos do bueiro e lixeiras, há os vendedores ambulantes e camelôs, sem falar nos distribuidores de panfletos, agentes de cartão de crédito e os facilitadores de empréstimos. Todos formando uma muvuca só, de gritos, palavras sem plural, odores indesejáveis de suor e fragrâncias da Avon, poluição visual de roupas e silhuetas absurdamente chocantes. É preciso jogo de cintura para lidar com os obstáculos das nossas selvagens calçadas de cada dia!
O fato é que temos dificuldade em praticar as regras que competem ao uso dos espaços públicos, sobretudo em circunstâncias em que habitualmente usufruímos deles. As pessoas, em geral, têm muita dificuldade em serem objetivas. (E digo “as pessoas”, porque objetivamente não me incluo nesse rol, já que ser reto não é nem um pouco difícil para mim.) Elas confundem comumente duas coisas distintas: objetividade e foda-se. Ter um comportamento objetivo não é sinônimo de mandar o mundo se foder, transformando, por exemplo, calçadas em lugares intransitáveis. Ser objetivo é apenas um exercício de consciência e bom uso público de ações. Em muitos casos, como o das mulheres que adoram desfilar sem pressa pelas calçadas, o que está em jogo é o usufruto de direitos cidadãos (de ir e vir) como álibi para a prática da falta de bom senso. E podem ser as mulheres com os passos, vocabulário e gostos estéticos mais classudos possíveis; mas se não há bom senso, não há mais que um exoesqueleto de artificialidade. Boa educação não depende de gestualidade corporal, nem de moda e de palavras rebuscadas, tampouco depende do conhecimento de direitos retos previstos na legislação. A boa educação não se exibe, se faz sentir tacitamente; está no plano do óbvio, daquilo que se nota somente quando prestamos atenção. É o mesmo princípio que faz o motorista parar no sinal amarelo dos semáforos: critérios circunstanciais, de bom senso, de ceder a vez por livre-escolha, para o pedestre com hora marcada no dentista. Sem mais nem menos, sem os pântanos do romantismo nem a aridez racionalista, e todos continuam o seu rumo.
Temos muitos monstros dentro de nós. Monstros feios, durões, destrutivos. Quando querem se mostrar, saem e simplesmente se mostram com toda sua força destrutiva. Eu, que sempre fui um sujeito muito quieto, ou melhor, de impulsos quase sempre controlados, expus e exponho muito pouco os meus monstros. Não que faça isso deliberadamente e nunca tenha vontade de colocá-los para fora, mas sim que naturalmente tenho pouca propensão à explosão colérica constante. Não digo também que ela nunca ocorra, mas em certos momentos necessários apenas.
Meus monstros, como quaisquer outros, são muito feios e maus. Estão sempre lá no fundo, escondidos, amortecidos, como ursos que hibernam. Mas sua energia é latente, pronta para se expandir e consumir tudo à volta. Digo tudo isso em palavras gerais, porque a verdade é que meus monstros não são tão inquebrantáveis assim. Na verdade, os nossos monstros de um modo geral são, na medida do possível, controláveis e tem pouco, embora intenso, combustível. Eles são crianças carentes e pirracentas, querendo chamar a atenção do mundo. E quando vêem que seus desejos não podem ser saciados pelo grito, pela pirraça ou pela travessura, caem em prantos, com longos e altos soluços. Os nossos monstros são crianças pedindo colo, são desejos espontâneos querendo solução imediata pela força persuasiva da impressão que causam. Esse é o lado contraditório dos monstros que habitam em nós: eles têm um lado doce, emotivo, romântico que é a pura expressão de seus aparentes feitos maus.
Os meus monstros são chorões, esse é o fato. Eles se mostram durões, às vezes; outras vezes, são bonitinhos, enérgicos fofões que querem apenas ser ouvidos. Nossos monstros são mais que destrutivos e impressionantes sem coração, eles são frágeis e precisam de abrigo, não só para repor suas energias mas também para sentir afago, o calor maternal do seu mundo recôndito, o necessário contraditório. Nossos monstros não são nada sem um monstro-líder, sem um rei, sem uma mãe. Precisam de alguém que os lidere, que faça-os conviver em prazer, sem destruir a si mesmos e completamente o mundo em que habitam. Eles precisam destruir, são monstros; adoráveis monstros, mas monstros. E mesmo assim precisam de algo que possa norteá-los, liderá-los em sua destruição, prazerosa destruição. Mas, ao mesmo tempo, esse líder é sua segurança, é a força a partir da qual nascem suas energias, é onde esses monstros chorões encontram colo.
Sinto que não há coisa mais verdadeira do que o olhar curioso de uma criança de poucos anos. Olhos grandes, estáticos e despretensiosamente arregalados, querendo apenas observar, conhecer. Quando crescemos, esses olhos se perdem devido à rápida astúcia, à negligência forçada para impormos presença, para publicarmos nossa voz de escolha, de opinião. O olhar da criança de poucos anos é bastante instintivo, irracionalizado, espontâneo, essencialmente curioso. E isso é algo muito atormentador para aqueles que têm o vício do não-olhar, da retórica das caretas egocêntricas. Particularmente, às vezes, sinto-me incomodado quando despretensiosamente olham para mim, as crianças e adultos mesmo; não sei lidar com isso. Certamente, parte da explicação está em minha insolúvel timidez, ainda que saiba controlá-la em muitos momentos. Mas acho que a resposta é mais óbvia, isto é, incompreensível por sua simplicidade: aprendemos a desprezar racionalmente as coisas o tempo todo. Literalmente, aprendemos; é essencialmente cultural, fruto de um processo educativo, de uma “internalização”. Quando digo que não sei lidar com olhares singelos, curiosos, é que parece sem o menor sentido uma pessoa ficar olhando para outra sem um motivo prático, como quando, por exemplo, preparar-se para um diálogo ou querer segundas intenções. Talvez seja esse o ponto de definição entre uma ação instintiva e outra cultural: o quanto há de sentido ou razão por traz das escolhas. Crianças de poucos anos de idade arregalam constantemente seus olhos, e o fazem quase sempre sem o racionalismo com o qual conversamos com alguém, sem estarem contaminadas com a astúcia dos adultos, sem a lição de que os adultos não precisam olhar-se sem motivos aparentes.
Hoje eu noto com clareza como é chato ser adulto. É um mundo detestável, sem graça, de poucas fantasias. E quando tentamos acreditar em sonhos, desejos, sempre vem alguém fazendo questão de nos lembrar que é a mais doce fantasia. Os adultos têm muita dificuldade em respeitar sonhos, ideais, e mesmo em respeitar crianças. Porque a principal condição que norteia o “mundo” dos adultos é a predisposição em ver a realidade como algo difícil de ser transformado de acordo com as mais belas fantasias reais que temos. E isso é um fato, devo reconhecer. Quando alguém admira uma pintura a uma relativa distância, não é por acaso, e sim porque de perto tudo é mais grotesco, bruto, sem margem para doces fantasias. Mas eu me pergunto até que ponto a aridez racionalista deve ser um deleite, porque não tem sabor algum. Não é por menos que o “mundo” das crianças é sempre mais gostoso, porque tem graça, tem sabor, tem doces crenças que nós, adultos, taxamos com o nome presunçoso de ingenuidade. As crianças são seres burros, ingênuos, vazios de conhecimento, inúteis, verdadeiros fardos ambulantes: é o que aprendemos quando estamos crescendo, e por isso deixamos de ser ou agir como crianças; é por isso que “queremos ser adultos” todo o tempo. Nós, adultos, temos o controle sobre o mundo; nós é que trabalhamos, pensamos, cuidamos, concedemos direito ou não à existência de outras pessoas; as crianças estão sob nosso controle. Não é difícil entender o porquê da soberba adulta.
A maioria não olha; rende-se às regras tácitas de decoro social. Outros olham; é preciso humildade forçada para não suicidarmos nosso lado social. Mas o olhar mais sábio dos adultos é aquele das esquinas do corredor, quando não sabemos que pessoas vêm em nossa direção e num instante, despretensioso instante, olhamos no fundo de suas pupilas. Esse é o olhar das crianças, sem controle, instante sem sentido, sem razão, profundamente espontâneo. Há uma curiosidade instantânea de conhecer, de aprender sobre aquilo que está diante de nós.
Tudo isso parece muito rousseauniano. E é; não com toda a majestade de Rousseau, mas com o bastante daquilo que ele chama de liberdade. Liberdade, justamente o que falta nos olhos dos adultos: a singela e despretensiosa curiosidade das crianças.
Sinto que desaprendi a olhar. Os olhos sempre foram meu principal meio para estar no mundo, observando-o e participando dele. Ultimamente, isso mudou. Eles não são mais os mesmos, não têm a mesma curiosidade de antes, estão mais críticos e reticentes ao belo das coisas. Estão sem graça, esse é o problema. Um grande problema que tem muito a ver quando achamos, tacitamente em nossa consciência, que nada mais pode nos surpreender, já que supostamente conhecemos aquilo deveríamos conhecer. Esse é o problema de crescer, de ser jogado no mundo dos adultos; um mundo em que não somos mais os aprendizes de antes –não que tenhamos a consciência de que conhecemos tudo, mas, antes, porque tendemos a achar que já conhecemos o suficiente, o necessário, sendo tudo o mais acessório, sem muita importância. Os meus olhos não têm olhado, como antes faziam, para coisas sem uma dose alcoólica de soberba. Tornaram-se frios, sérios. Não emitem mais o brilho comunicativo de antes. Preferem fechar-se à espera de reação alheia. Têm se entregado à ignorância da timidez involuntária. Meus olhos estão diferentes, isto é um fato. Ainda acho que não há nada mais sincero, capaz de exprimir os verdadeiros sentimentos que ecoam por dentro, do que os gestos de um olhar. Aqui está, portanto, o cerne da questão: meus olhos estão exprimindo apenas aquilo que tem se passado em meu interior; meus sentimentos têm se recuado ao lugar mais íntimo do meu corpo, não têm se mostrado ao mundo, e se fecham mais e mais em mim. Num certo momento, tudo isso enche e quer transbordar, sair. E deve sair.
Quando caminho por calçadas e corredores dificilmente tenho olhado para as pessoas, e mesmo permitido que elas me olhem. Ando retamente, com passos uniformes, de gestos e velocidade corretos, certeiros. Meus olhos ignoram a presença de outros em movimento, e constantemente fixam-se em alvos infinitos a uma linha imaginária à frente. Uma frieza imbecil que me distancia do mundo. As pessoas em geral fazem também isso. Mas por quê? Por que tem que se prescindir da troca de olhares, de singelos e profundos olhares? Certamente, há três explicações: primeiro, o pressuposto do olhar como forma de sedução; segundo, o olhar como denúncia de uma ingênua curiosidade; e, terceiro, a ignorância por motivos egocêntricos. A negativa de meus olhos parece ter um pouco desses três pontos, porque todos eles têm em comum o fato de constituírem atitudes forçadas, deliberadas. Há um quarto componente (involuntário, por sua vez) bastante influenciador: a simples e arrebatadora timidez de momentos. Ela sim é um mal a se combater.
Por mais que saiba, como ninguém e momentaneamente sem receios e remorsos, ignorar outras pessoas, isso tem me feito mal a longo prazo. Estou incomodado com a atitude de meus próprios olhos. Estou impedindo a mim mesmo de conhecer coisas novas, de ter experiências novas, de voltar a apreciar sabiamente a beleza das coisas.
Não sei ao certo os motivos pelos quais sou tão tendente, em meu comportamento, à restrição de desejos sinceros, ainda que convenientes às circunstâncias. Parece haver um efeito perverso que anda juntinho ao meu lado quando mais quero satisfazer minhas vontades, tornar possíveis meus desejos, e exprimir aquilo que sinto. Há algo mais forte que impede eu mesmo de afirmar minha felicidade, mesmo que supérflua.
Assisti, há pouco, a um filme belíssimo chamado “A língua das mariposas”. Nele, há uma cena inesquecível: a de dois jovens que se declaram através de um olhar. Ele estava participando de um concerto. Ela logo chega ao local. Ela o vê; ele a vê. Os dois se olham. Ele se levanta bruscamente de seu banquinho e começa a tocar como nunca seu saxofone; é sua declaração. Aquele momento, de poucos segundos, torna-se uma eternidade de amor e paixão. Os dois se declaram mutuamente, ao som do sax, através do gesto mais profundo e singelo possível: aquele olhar curioso, de olhos grandes e hipnóticos, de quem quer aprender mais, mais sobre a tenacidade do belo.
Talvez eu deva chorar mais, rir mais, gritar mais, olhar mais impetuosamente para a Vênus de meus olhos. Sou muito moderado, diplomático, passivo e conservador do tipo monarquista. Sou muito reto. Apesar da escoliose, meu corpo é reto, duro, imóvel. Preciso agir mais, tentar mais, exprimir mais. A verdade é que tenho medo de meus sentimentos. Tenho certo receito involuntário de exprimi-los, de concretizá-los, de mostrar a qualquer um os absurdos de que sou capaz. Eu sou diferente, muito diferente do que tenho mostrado constantemente às pessoas, ainda que os isolados lampejos de espontaneidade me transformem no mais sincero dos piscianos. Quase sempre sou o mesmo: sério, apático, frio, formal. Mas não há resposta mais eficiente do que se dispor à mudança, do que reconhecer um grande desafio à frente e encará-lo; com respeito, mas encará-lo. Eis a clássica solução para os problemas.
O meu mundo está diferente. Não é mais aquele mesmo de quando criei Inconstância. E quando digo mundo, não quero sugerir apenas o universo de seres, coisas, ideias, de que faço parte, mas também minha própria forma de encará-lo, de estar nele, de olhá-lo. Não há nada melhor para encontrar respostas presentes do que ter a experiência de viver cada uma das velhas perguntas que nos seduziam. Viver é uma condição de saber que nada vem antes, mas depois, pois é apenas isso: futuro, processo, experiência, um constante porvir. O meu mundo não é o mesmo, repito. Simplesmente porque eu mesmo sou outro, não só porque meu universo mudou, mas porque, antes, novas perguntas estão vindo me seduzir, estão despertando o início de novas sacações.
Inconstância mostrou-me coisas muito curiosas, levou-me a mundos muito distantes e cheios de ideias loucas e vãs. Mas, não há dúvidas, valeu à pena. Valeu à pena a experiência, a experiência de olhar o mundo, e as coisas que há nele, de modo muito impossível. Ou melhor: totalmente possível para quem tem coragem de olhá-lo, ver os vermes em suas entranhas, sem medo de ser feliz, sem medo de, logo em seguida, sorrir para ele.
Aprendi sobre o mundo de que faço/fiz parte. Aprendi muito sobre o que há nele. Há um outro mundo, profunda e eternamente inconstante, que aprendi um pouco bastante. E bastante no sentido de “suficientemente”. Suficientemente para apreender sobre minhas fronteiras, meus limites, minhas zonas de controle, minhas esferas de ação. “Controle”, “ação”, “limites”: aí estão palavras-chave. Ultimamente, minhas experiências levaram-me, quase sempre, a observar como nossas relações com o mundo são fundamentalmente mediadas por força, poder, a posse de quem tem o domínio sobre a realidade.
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Grandes olhos de madeira, por que olham para mim? Olhos que olham, que não são mais apenas o objeto de outros olhos. Olhos que tem vida. Olhos que indagam, perscrutam, controlam. Olhos que vêem belas mãos de afago naquilo que homens fazem. Olhos que vêem coisas não vistas, que vêem impensados, que vêem outramente. São esses olhos, de madeira dura e áspera, aquilo que há de mais distante, metafórico, estranho, aquilo que há de mais vivo. São olhos que revelam aquilo que menos se espera do que já se conhece, são dissimulados, opacos, pura fantasia real. Eles têm tanta vida quanto tem de aparência morta, esfumaçada, manipulável. São olhos da marionete que não está mais sob controle. São olhos que querem, antes, ver as razões do controle. As razões que tornam os homens maiores do que são.
Você meu amigo de fé, meu irmão camarada Amigo de tantos caminhos e tantas jornadas Cabeça de homem mas o coração de menino Aquele que está do meu lado em qualquer caminhada Me lembro de todas as lutas, meu bom companheiro Você tantas vezes provou que é um grande guerreiro O seu coração é uma casa de portas abertas Amigo você é o mais certo das horas incertas
Às vezes em certos momentos difíceis da vida Em que precisamos de alguém pra ajudar na saída A sua palavra de força, de fé e de carinho Me dá a certeza de que eu nunca estive sozinho
Você meu amigo de fé, meu irmão camarada Sorriso e abraço festivo da minha chegada Você que me diz as verdades com frases abertas Amigo você é o mais certo das horas incertas
Não preciso nem dizer Tudo isso que eu lhe digo Mas é muito bom saber Que você é meu amigo
Não preciso nem dizer Tudo isso que eu lhe digo Mas é muito bom saber Que eu tenho um grande amigo
Não preciso nem dizer Tudo isso que eu lhe digo Mas é muito bom saber Que você é meu amigo
Não preciso nem dizer Tudo isso que eu lhe digo Mas é muito bom saber Que eu tenho um grande amigo
Ao mais vagabundo dos amigos que resolveu partir, sem sequer se despedir! (rsrs) As saudades virão com o tempo, mas o esquecimento dos bons momentos vividos jamais. Amon Carneiro: o mais certo das horas incertas.
Apesar de ser um truísmo, é preciso reafirmar: os seres humanos erram, e é, a priori, natural que o façam. Quando paramos e olhamos para traz, muitas vezes, os erros se sobressaem de modo alarmante. Muitas vezes, conseguimos até sentir algum orgulho, pela decisão certa tomada, pela sensatez em certos momentos, mas sempre nos deparamos com alguma coisa fora do lugar, que deveria ter se desenrolado de outra maneira; e culpamo-nos por isso. Os erros simplesmente acontecem, mesmo quando, às vezes, temos a certeza de que estamos fazendo a coisa certa. Os erros são verdadeiros sacis, que se escondem perfeitamente, e revelam-se de forma perturbadoramente estardalhacenta. Não dependem, quase sempre, de nossa decisão consciente para tomarem forma. Vêm e vão, simplesmente.
Mas, os erros não são de todo coisas ruins. Quando percebidos e “bem administrados” transformam-se em acertos fantásticos. Este é o seu efeito perverso: podemos aprender muita coisa com um erro, além de saber depreciá-los; a partir deles, muitas coisas podem se acertar. Apesar de não ser sua finalidade a priori, o aprendizado que um erro pode nos trazer é, sem dúvida, algo admirável. Quantas vezes não olhamos para trás e identificamos o ponto minucioso de onde toda uma circunstância de conflito ou mal-estar se originou? Certamente, apenas uma disposição à autocrítica pode revelar esses pontos minuciosos –isso, por si mesmo, já é o indício, quando praticado, de que temos consciência de nossa humanidade, de nossas características essencialmente não-artificiais, inerentes, incontroláveis in totum. Aprender com um erro é, antes, um exercício pleno de sabedoria, de reconhecimento de nossa animalidade.
Há pessoas que costumam errar muito. Certamente, é um caso para se questionar, se pensar: afinal, a anormalidade não é pura aparência, é um sábio e verdadeiro instinto de que um certo grau de artificialidade faz parte do repertório de vida de tais pessoas. Algo está errado –o excessivamente errado: a inconsciência da animalidade do erro põe em xeque a autoconsciência de nossa disposição natural a errar e, antes, de nossa autocrítica. A demasia é, sem dúvida, o indício de que algo está errado, não está funcionando como deveria. As pessoas que erram demais são aquelas que dificilmente compreendem o que é o erro –refiro-me a um contexto “não-racionalizado”, já que é difícil crer que o erro leve à fortuna e seja, portanto, objeto de apreço, a menos que o indivíduo seja um suicida declarado. É provável que tais pessoas se apóiem em um legítimo “deus da máquina”: o relativismo absoluto; em outras palavras, não admitem estarem erradas. Mas, é certo que tais tipos de pessoas têm coerência naquilo que fazem. E o problema não está, em si, na coerência, mas, antes, em sua resultante: a demasia da ação. São indivíduos que sofrem de uma falha: a deficiência em reconhecer o caráter natural de se errar. Quando me refiro a caráter natural, quero dizer que o erro independe de nossa escolha e, portanto, seus “níveis” são, sem a nossa intervenção –quando não resultantes de atitudes essencialmente racionalizadas–, equilibrados. Errar naturalmente é deixar que as coisas fluam em harmonia, que aconteçam e aprendamos com sua ocorrência. Errar naturalmente, quando damos alguma atenção, é um processo educativo admirável.
Evoco toda essa discussão sobre o erro por uma única finalidade: a coerência de comportamento. O fato de errar é o singelo indicativo de algo muito fundamental: não somos robôs. Em outras palavras, nossa consciência não pode ser reduzida a uma tabula rasa, não pode ser tratada como a memória de um computador, programada para agir de tal ou qual modo, sem distorções. Parece algo óbvio, e é. Mas é menos óbvio o fato dos usos que comumente as pessoas fazem disso: um álibi para se justificar escolhas erradas racionalizadas. É uma questão de se interrogar sobre os limites da inconsciência do erro. Isto é: até onde um erro foi inocente ou sua hesitação amortecida. É claro que essa discussão ainda poderia ir para outras direções como até que ponto a inconsciência é um fator que investe o erro de atributos justificáveis, releváveis. Mas o fato é que o erro, a priori, deve ser evitado, na medida do possível. Mesmo porque essa medida do possível não impede que erremos por completo, sendo fruto de um aprendizado prévio. A hesitação do erro, neste caso, trata-se, antes, de uma prudência, oriundo daquele processo educativo. Então, poder-se-ia falar, para melhor expressão, de coerência do acerto. Quer dizer, não uma hesitação ao erro –em stricto sensu,uma atitude racionalizada–, mas uma naturalização –em stricto sensu,uma atitude não-racionalizada– do aprendido em nosso comportamento.
Confesso que, ultimamente, tenho prezado bastante a coerência na forma de agir. Isso, acho eu, causa certo estranhamento nas pessoas. Tenho a impressão de que este estranhamento, quase sempre, vem seguido de adjetivações em pensamento, que na realidade tratam-se de reprovações pessoais não-declaradas verbalmente, do tipo: sujeito falso, frio, esnobe, arrogante, etc.. Tenho consciência de que isso foge ao meu controle: afinal, não podemos ser amigos do mundo inteiro, e é saudável que assim seja. E isso, por outro lado, revela o quanto as pessoas não têm sido coerentes consigo mesmas, senão também com outras pessoas, e conferido pouca atenção aos seus erros. Ser coerente é exercício, devo confessar, a priori, racionalizado; mas sua recorrência torna-nos mais tendenciosos inconscientemente ao acerto. Seguir apertando numa tecla de decisões revela se aquela letra de ação é ou não a que de fato devemos inserir no texto da vida. A coerência parece tornar-nos seres artificializados, retos, objetivos, não-tortuosos. Mas ter coerência não pressupõe que nossa consciência seja bitolada ao ponto de não enxergarmos nossa animalidade. Em outras palavras, a coerência é compatível inteiramente com a consciência de que podemos, de fato, errar, e assim o fazemos querendo ou não. A coerência é apenas um meio, a posteriori naturalizado, de fazermos escolhas mais sensatas na vida. A coerência é a consciência de que não somos artificiais, e, mais, de que nossa natureza humana também não deve justificar a gratuidade do erro. Ser humano é ser seres que erram, não seres cultivadores do erro.
Talvez a questão fundamental relacionada com a coerência diz respeito a sua validade. Uma validade que não é previamente determinada, mas que pode existir mediante as circunstâncias. Seguir reproduzindo uma forma de comportamento depende da “aceitação” de um determinado sistema de relações sociais. Às vezes, o sistema se altera, e todo o resto, para que o status quo harmônico persista, deve ser também alterado. Portanto, uma linha de coerência se desfaz, mas, em paralelo, outra se constrói. O fato é que só uma intervenção, uma “energia” despendida a mais, faz com que isso aconteça; deve existir uma disposição à mudança. No fundo, a coerência de comportamento é justamente um rito que, para ser quebrado, segue os parâmetros de quebra das convenções.
Contudo, de quem deve partir a disposição inicial? Quem deve ser o estopim? Por mais que pareça um argumento simplista, acredito na “individualidade” da quebra inicial. Num jogo de relações interpessoais, o estopim da quebra de “protocolo” não é um processo mútuo: é iniciado por alguém, que pode ou não ser seguido pelos demais. A mutualidade pode estar na aceitação a posteriori. Quebrar o protocolo de relacionamento precisa de disposição, algo que depende da “energia” que está investida nos sujeitos. Tomemos um exemplo: num determinado espaço, claramente regido por relações tácitas ou não de formalidade, como um ambiente de trabalho, um indivíduo novato dispõe inicialmente de uma capacidade de se impor menor que aqueles que, há anos, fazem parte dali. Portanto, este indivíduo novato possui uma “energia” investida em si, de quebra de protocolo, muito menor que aqueles que já estão integrados ao ambiente, por um simples fato: é, inicialmente, um estranho. Logo, pelo fato reconhecido de que a formalidade é o sustentáculo fundamental da atuação profissional, a linha de coerência a ser adotada pelo novato é justamente a formalidade –salvo em condições de mínima liberdade, a ser seguida de forma estrita. Ora, mais o novato não poderia forçar a barra, e romper isso? Sem dúvida, sim. Mas não é a via de regra: um argumento que, por mais simplista que possa parecer, é um bastião importante para que se firmem relações de sociabilidade adequadas, que minimizam o estabelecimento de conflitos.
Não é difícil andar por ruas ou calçadas movimentadas e reparar como as pessoas se negam a olhar umas para as outras. Como se o olhar custasse muito caro, mais caro que os artefatos das vitrines de lojas que não param de ser observados, sobretudo por mulheres. Acho, como ocorre a qualquer coisa forçada, que há erro ou pelo menos um equívoco nisso. O que tornou o homem o que ele é hoje, algo que é negado por isso mesmo, é uma qualidade muito importante: curiosidade ou disposição em conhecer. Talvez disso se extraia o fator fundamental que distancia os adultos das crianças: a falta de disposição em conhecer as coisas, por uma prepotência em reconhecer-se como conhecedor. O que torna as crianças “crianças” é o fato de que ainda não aprenderam. Aos adultos, cabe a tarefa do ensino, porque (supostamente) conhecem o que é o saber. O ato de não-olhar é justamente isso. É o reconhecimento implícito de que se é conhecedor, se é sábio, se é adulto, não se é criança. Pois o ato de olhar é a indicação mais singela e reveladora de que queremos aprender, de que não sabemos, de que não somos adultos por inteiro, de que aquilo que nossos olhos fitam de novo, por ser novo, deve ser conhecido. O ato de olhar revela justamente o que há de mais animalesco, profundamente humano, em nós: inocente e sábia curiosidade. Trata-se de uma incompatibilidade do ato de olhar com o estatuto de adulto e, aprofundando, com o estatuto de seriedade: olhar é anormal ao comportamento de seres conhecedores, adultos. Seriedade, numa acepção que a traduz como sabedoria, é uma qualidade inerente, senão exclusiva, dos adultos.Isso, porque seriedade é confundida com comportamento ou feições aparentes. Em outras palavras, seriedade é sinônimo de adulto que é sinônimo de conhecedor. Portanto, numa conclusão lógica, olhar é sinônimo de não ser sério que é sinônimo de criança que é sinônimo de não-conhecedor.
A gratuidade do não-olhar, é de se supor, possui algum fundamento teórico, que serve de álibi. Quase sempre é o mesmo: a falta de intimidade, ou conhecimento mesmo, em relação ao Outro, impõe a necessidade de uma frieza em nosso comportamento. Essa, sem dúvida, é a explicação subjacente no ato de não olhar para outras pessoas em dadas circunstâncias como a de um “passeio” em lugares públicos freqüentados. É como se a falta de intimidade impusesse o imperativo de uma distância que a todo custo deve ser sustentada, senão implica na rejeição do estatuto de seriedade: estaríamos reproduzindo, portanto, uma “curiosidade infantil” ingênua. Certamente, este padrão prévio de comportamento, presente em ambientes públicos, é o indicativo da existência de relações de formalidade que regem o público. São regras tacitamente aceitas, inerentes e necessárias a nossa sociabilidade. O problema está justamente na depreciação oriunda da transgressão de tais regras –algo que deriva de uma má concepção de ser “adulto”. Mas o problema também está na justificação que se extrai disso, tornando possível e (supostamente) legítima a gratuidade do não-olhar. As regras de sociabilidade acabam tendo mesmo um usufruto patológico. Conhecer o mundo e as coisas não é uma prática que se satisfaz com o tempo. A prática do olhar é um meio muito singelo e saudável de apreciar a beleza das coisas.
Se há uma coisa que detesto é ser o centro das atenções. Isso é muito chato: pessoas olhando e esperando algo de você, uma socialização momentânea forçada, necessidade de agradar a todos o tempo todo, etc. etc.. Eu prefiro o anonimato, o cantinho de onde se pode observar o mundo, as coisas, as pessoas. O anonimato é mais interessante, é mais natural, é onde se pode estar à vontade, sem pessoas para agradar. O cantinho de reclusão é onde podemos ficar só, é onde podemos mergulhar no nosso mundo, é onde tudo fica mais compreensível, mais calmo, harmônico. Ser o centro das atenções não dá permissão de observar, porque sempre se está ocupado, sempre precisamos nos submeter à observação, ao julgamento público e desconfortante de ser ou não agradável. Isso induz a rompermos a naturalidade de agir, de ser e estar. Induz-nos a sermos algo, mesmo que não sejamos, em realidade, esse algo. E nesse mundo em que vivemos, cada vez mais bitolado, pretender o anonimato é visto como uma espécie de suicídio. O anonimato, a reclusão, o cantinho de solidão, é visto como algo até patológico, como indicativo de uma tendência, deliberada ou não, de sermos infelizes, um mal. A solidão, para o senso comum, é sinônimo de infelicidade, de fracasso, de coisa de pessoas “rabugentas”: não preciso dizer o quanto isso é bitolado. Certamente uma das características fundamentais do seres humanos é a sociabilidade, a capacidade de construirmos relações com outros indivíduos: é uma herança da nossa animalidade, é o que nos aproxima de muitos outros animais. Daí um “instinto”, uma visão socialmente difusa, de que a solidão, ou o anonimato, é um mal. Mas, sem dúvida, o que nos torna diferente de outros animais é uma profícua capacidade de apreensão da realidade, é uma capacidade de saber escolher e compreender aquilo que, naturalmente, nos faz bem, aquilo que é nosso habitat preferido. Não é porque fazemos escolhas que, ao escolher o “diferente”, estamos escolhendo o errado ou o anti-estar bem. O anonimato também não implica um abandono de nossa capacidade de sociabilidade. A solidão não quer dizer que queremos ser não-humanos. Implica somente que queremos ser um humano “diferente”, porque o “normal” é bitolante, sem graça, não é nosso habitat preferido. Viver é isso: é ser um átomo de gostos, decisões, experiências, escolhas, destinos. Viver já demonstra que não estamos inteiramente sós, mas que somos um universo solitário ambulante. Ser um átomo é, por uma força que não temos controle, pertencer a um universo de coisas, um universo de outros átomos, que estão à nossa volta. A solidão não é uma escolha de querermos um universo de vácuo; é apenas uma escolha de estar à margem, de humanista: admirar a beleza e a feiúra do mundo dos homens.
O anonimato nos faz verdadeiros conhecedores, e mesmo não-conhecedores. O anonimato é o lugar em que o animalesco mais se revela. É o lugar em que gosto de estar: um lugar pleno de constância.
Seria um contra-senso dizer que pensar é um problema, porque tem sido isto o que fiz principalmente desde que criei esse blog. Seria um contra-senso, considerando-se que o que buscamos na vida não são problemas, mas o seu contrário: o sentido da vida é estar de bem com o mundo, em quietude de espírito, em harmonia –este é sempre nosso fim último, o propósito implícito em nossos desejos e ações, é o que chamam de felicidade.
Pensar não é o problema, é um meio que, quase sempre, nos leva a soluções. Um meio que pode trazer problemas, dadas certas circunstâncias. Aqueles que pensam em demasia têm chances grandes de serem problemáticos. Mas aqueles que também não pensam não estão livres. Pensar em demasia traz uma retidão fria em nosso comportamento, porque temos a sensação de que há o correto e o errado o tempo todo. A vaidade é como nunca requisitada: o nosso comportamento torna-se, para nós, um modelo ideal de agir, estamos sempre certos, porque há o álibi de pensar. Pensar em demasia torna as pessoas prepotentes em ver o mundo como algo extremamente coerente, certinho, e elas sendo os sujeitos ideais para habitá-lo. Pensar em demasia é sacrifício egocêntrico: é uma tentativa, mediante o desprezo mesmo daquilo que nos agrada, de adquirir um status de sábio, ser pensante, ser individualizável numa crônica multidão, que está sempre (para nós) alienada. É uma forma reta, inteligente mesmo sendo sábia, de ser, estar. Em resumo é um querer ser complicado, problemático: nunca somos o que realmente somos, estamos sempre querendo ser algo; se precisamos ser algo, que seja para outros, não para nós mesmos. E pior: estamos sempre querendo que os outros sejam algo, senão estão errados, são seres menos pensantes que nós.
Tudo isso é muito difícil de se escrever de modo convincente. Mas o ponto ao qual quero chegar é: a retidão de pensar em demasia nos leva a uma percepção de que as pessoas podem ser uma tabula rasa se quisessem; e aí nosso argumento interno e egocêntrico encontraria legitimidade, já que o outro erraria por, de fato, não pensar, por estar preso a uma teia de forças sustentada por sua alienação. Mas o seres humanos são, antes de tudo, (é preciso dizer!) animais, mortais, errados, incertos. Não têm e não poderiam ter, mesmo se quisessem, uma consciência artificial, de computador, que se pode apagar e programar a hora que quisermos e como bem entendermos. Os seres humanos não podem ser reduzidos a uma tabula rasa. A retidão é de uma utopia irrealizável. Uma utopia que desconsidera, ou ignora deliberadamente, a nossa essência, o óbvio oculto que precisamos ver, atentar e aprender com ele. Só esse óbvio oculto mostra a resposta para nossas perguntas, a substância de que somos feitos: é o que há de mais animalesco nos seres humanos.
Mas os que não pensam não estão isentos. Estão, talvez, mais atolados no “lamaçal” da retidão que os demasiado pensantes. Os que não pensam, não existem para si mesmos, mas talvez possam existir para outros. Eles não sabem o que são, mesmo que quisessem, sem pensar. Os que não pensam estão propensos a acatar o mundo de modo conveniente: uma retidão da conveniência, do oportunismo. São os mais vaidosos que há no mundo, afinal tudo que pode ser interessante é válido. Os que não pensam encontram na artificialidade o caminho para o que se dá o nome de felicidade. Ao mesmo tempo encontram um meio de legitimar tal fato: uma justificativa psicologizante do “eu me sinto bem fazendo isso” ou “o que importa é se sentir bem”. Mas eu me pergunto, e confesso minha incredulidade, se há nisso tudo um “se sentir bem” de verdade ou um falseamento seu. Essa justificativa, que evoca uma noção de felicidade humana, tende a esconder justamente o humano, a matéria, aquilo que de fato somos. Ela permite ainda a existência de uma falsa visão de que a escolha do outro, ou o outro por ser “outro”, é sempre belo, apreciável, de status igualável a nós. Há uma finalidade prática nisso tudo, por sinal bastante admirável: o de combater preconceitos e minimizar conflitos ou desigualdades sociais. Mas tomar o propósito como definição de uma coisa é desconhecer essa coisa. A visão relativista, sobre a qual está fundado o princípio psicologizante da felicidade humana, muito embora possua uma finalidade prática visível, produz um véu sobre si mesma ou sobre aquilo que é o seu objeto –o outro. Há um “tudo é possível”; e esse “tudo é possível” impõe uma aceitação demasiada, um suposto discurso de que o outro é sempre belo, mesmo quando revela uma pseudodiferença. Diria apenas que é muito difícil, pelo menos para mim, conciliar o que chamam de felicidade (por sinal, uma abstração que valeria a pena discutir) com desconhecimento de si mesmo e da realidade à nossa volta.
Conhecer, desconhecer: estar no mundo é isso. Só se conhece algo quando se deixa de conhecer outro. Conhecer tudo é impossível, mas também querer conhecer tudo de um pouco não é menos impossível. Os que pensam demais erram; os que pensam de menos erram também. Talvez então a solução esteja entre eles, no meio termo. Ou, em outras palavras, talvez esteja em lembrarmos-nos de nossa essência animalesca, porque somos isto, animais, errados, humanos, imperfeitos. Mas o que nos distingue de outros animais, não se deve esquecer: simplesmente pensar. Aprender a conhecer o mundo e nossa própria consciência é saber conhecer e desconhecer, mas não por simplesmente aceitar e ignorar o que é ou não apreciável. É preciso viver o que se é, não o que se pretende.
Os ensaios aqui tentam expor meus incômodos mais confusos. Vêm de reflexões sobre algumas coisas necessárias. É um experimento sobre coisas que ficam e que vão.
Os que andastes pelo mundo, e entrastes em casas de prazer de príncipes, veríeis naqueles quadros e naquelas ruas dos jardins dois gêneros de estátuas muito diferentes, umas de mármore, outras de murta. A estátua de mármore custa muito a fazer, pela dureza e resistência da matéria; mas, depois de feita uma vez, não é necessário que lhe ponham mais a mão: sempre conserva e sustenta a mesma figura; a estátua de murta é mais fácil de formar, pela facilidade com que se dobram os ramos, mas é necessário andar sempre reformando e trabalhando nela, para que se conserve. Se deixa o jardineiro de assistir, em quatro dias sai um ramo que lhe atravessa os olhos, sai outro que lhe descompõe as orelhas, saem dois que de cinco dedos lhe fazem sete, e o que pouco antes era homem, já é uma confusão verde de murtas. Eis aqui a diferença que há entre umas nações e outras na doutrina da fé. Há umas nações naturalmente duras, tenazes e constantes, as quais dificultosamente recebem a fé e deixam os erros de seus antepassados; resistem com as armas, duvidam com o entendimento, repugnam com a vontade, cerram-se, teimam, argumentam, replicam, dão grande trabalho até se renderem; mas, uma vez rendidas, uma vez que receberam a fé, ficam nelas firmes e constantes, como estátuas de mármore: não é necessário trabalhar mais com elas. Há outras nações, pelo contrário - e estas são as do Brasil - que recebem tudo o que lhes ensinam com grande docilidade e facilidade, sem argumentar, sem replicar, sem duvidar, sem resistir; mas são estátuas de murta que, em levantando a mão e a tesoura o jardineiro, logo perdem a nova figura, e tornam à bruteza antiga e natural, e a ser mato como dantes eram. É necessário que assista sempre a estas estátuas o mestre delas: uma vez, que lhes corte o que vicejam os olhos, para que creiam o que não vêem; outra vez, que lhes cerceie o que vicejam as orelhas, para que não dêem ouvidos às fábulas de seus antepassados; outra vez, que lhes decepe o que vicejam os pés, para que se abstenham das ações e costumes bárbaros da gentilidade. E só desta maneira, trabalhando sempre contra a natureza do tronco e humor das raízes, se pode conservar nestas plantas rudes a forma não natural, e compostura dos ramos.