Sinto que desaprendi a olhar. Os olhos sempre foram meu principal meio para estar no mundo, observando-o e participando dele. Ultimamente, isso mudou. Eles não são mais os mesmos, não têm a mesma curiosidade de antes, estão mais críticos e reticentes ao belo das coisas. Estão sem graça, esse é o problema. Um grande problema que tem muito a ver quando achamos, tacitamente em nossa consciência, que nada mais pode nos surpreender, já que supostamente conhecemos aquilo deveríamos conhecer. Esse é o problema de crescer, de ser jogado no mundo dos adultos; um mundo em que não somos mais os aprendizes de antes –não que tenhamos a consciência de que conhecemos tudo, mas, antes, porque tendemos a achar que já conhecemos o suficiente, o necessário, sendo tudo o mais acessório, sem muita importância. Os meus olhos não têm olhado, como antes faziam, para coisas sem uma dose alcoólica de soberba. Tornaram-se frios, sérios. Não emitem mais o brilho comunicativo de antes. Preferem fechar-se à espera de reação alheia. Têm se entregado à ignorância da timidez involuntária. Meus olhos estão diferentes, isto é um fato. Ainda acho que não há nada mais sincero, capaz de exprimir os verdadeiros sentimentos que ecoam por dentro, do que os gestos de um olhar. Aqui está, portanto, o cerne da questão: meus olhos estão exprimindo apenas aquilo que tem se passado em meu interior; meus sentimentos têm se recuado ao lugar mais íntimo do meu corpo, não têm se mostrado ao mundo, e se fecham mais e mais em mim. Num certo momento, tudo isso enche e quer transbordar, sair. E deve sair.
Quando caminho por calçadas e corredores dificilmente tenho olhado para as pessoas, e mesmo permitido que elas me olhem. Ando retamente, com passos uniformes, de gestos e velocidade corretos, certeiros. Meus olhos ignoram a presença de outros em movimento, e constantemente fixam-se em alvos infinitos a uma linha imaginária à frente. Uma frieza imbecil que me distancia do mundo. As pessoas em geral fazem também isso. Mas por quê? Por que tem que se prescindir da troca de olhares, de singelos e profundos olhares? Certamente, há três explicações: primeiro, o pressuposto do olhar como forma de sedução; segundo, o olhar como denúncia de uma ingênua curiosidade; e, terceiro, a ignorância por motivos egocêntricos. A negativa de meus olhos parece ter um pouco desses três pontos, porque todos eles têm em comum o fato de constituírem atitudes forçadas, deliberadas. Há um quarto componente (involuntário, por sua vez) bastante influenciador: a simples e arrebatadora timidez de momentos. Ela sim é um mal a se combater.
Por mais que saiba, como ninguém e momentaneamente sem receios e remorsos, ignorar outras pessoas, isso tem me feito mal a longo prazo. Estou incomodado com a atitude de meus próprios olhos. Estou impedindo a mim mesmo de conhecer coisas novas, de ter experiências novas, de voltar a apreciar sabiamente a beleza das coisas.
Não sei ao certo os motivos pelos quais sou tão tendente, em meu comportamento, à restrição de desejos sinceros, ainda que convenientes às circunstâncias. Parece haver um efeito perverso que anda juntinho ao meu lado quando mais quero satisfazer minhas vontades, tornar possíveis meus desejos, e exprimir aquilo que sinto. Há algo mais forte que impede eu mesmo de afirmar minha felicidade, mesmo que supérflua.
Assisti, há pouco, a um filme belíssimo chamado “A língua das mariposas”. Nele, há uma cena inesquecível: a de dois jovens que se declaram através de um olhar. Ele estava participando de um concerto. Ela logo chega ao local. Ela o vê; ele a vê. Os dois se olham. Ele se levanta bruscamente de seu banquinho e começa a tocar como nunca seu saxofone; é sua declaração. Aquele momento, de poucos segundos, torna-se uma eternidade de amor e paixão. Os dois se declaram mutuamente, ao som do sax, através do gesto mais profundo e singelo possível: aquele olhar curioso, de olhos grandes e hipnóticos, de quem quer aprender mais, mais sobre a tenacidade do belo.
Talvez eu deva chorar mais, rir mais, gritar mais, olhar mais impetuosamente para a Vênus de meus olhos. Sou muito moderado, diplomático, passivo e conservador do tipo monarquista. Sou muito reto. Apesar da escoliose, meu corpo é reto, duro, imóvel. Preciso agir mais, tentar mais, exprimir mais. A verdade é que tenho medo de meus sentimentos. Tenho certo receito involuntário de exprimi-los, de concretizá-los, de mostrar a qualquer um os absurdos de que sou capaz. Eu sou diferente, muito diferente do que tenho mostrado constantemente às pessoas, ainda que os isolados lampejos de espontaneidade me transformem no mais sincero dos piscianos. Quase sempre sou o mesmo: sério, apático, frio, formal. Mas não há resposta mais eficiente do que se dispor à mudança, do que reconhecer um grande desafio à frente e encará-lo; com respeito, mas encará-lo. Eis a clássica solução para os problemas.
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