domingo, 7 de novembro de 2010

Onde vivem os monstros

Temos muitos monstros dentro de nós. Monstros feios, durões, destrutivos. Quando querem se mostrar, saem e simplesmente se mostram com toda sua força destrutiva. Eu, que sempre fui um sujeito muito quieto, ou melhor, de impulsos quase sempre controlados, expus e exponho muito pouco os meus monstros. Não que faça isso deliberadamente e nunca tenha vontade de colocá-los para fora, mas sim que naturalmente tenho pouca propensão à explosão colérica constante. Não digo também que ela nunca ocorra, mas em certos momentos necessários apenas.

Meus monstros, como quaisquer outros, são muito feios e maus. Estão sempre lá no fundo, escondidos, amortecidos, como ursos que hibernam. Mas sua energia é latente, pronta para se expandir e consumir tudo à volta. Digo tudo isso em palavras gerais, porque a verdade é que meus monstros não são tão inquebrantáveis assim. Na verdade, os nossos monstros de um modo geral são, na medida do possível, controláveis e tem pouco, embora intenso, combustível. Eles são crianças carentes e pirracentas, querendo chamar a atenção do mundo. E quando vêem que seus desejos não podem ser saciados pelo grito, pela pirraça ou pela travessura, caem em prantos, com longos e altos soluços. Os nossos monstros são crianças pedindo colo, são desejos espontâneos querendo solução imediata pela força persuasiva da impressão que causam. Esse é o lado contraditório dos monstros que habitam em nós: eles têm um lado doce, emotivo, romântico que é a pura expressão de seus aparentes feitos maus.

Os meus monstros são chorões, esse é o fato. Eles se mostram durões, às vezes; outras vezes, são bonitinhos, enérgicos fofões que querem apenas ser ouvidos. Nossos monstros são mais que destrutivos e impressionantes sem coração, eles são frágeis e precisam de abrigo, não só para repor suas energias mas também para sentir afago, o calor maternal do seu mundo recôndito, o necessário contraditório. Nossos monstros não são nada sem um monstro-líder, sem um rei, sem uma mãe. Precisam de alguém que os lidere, que faça-os conviver em prazer, sem destruir a si mesmos e completamente o mundo em que habitam. Eles precisam destruir, são monstros; adoráveis monstros, mas monstros. E mesmo assim precisam de algo que possa norteá-los, liderá-los em sua destruição, prazerosa destruição. Mas, ao mesmo tempo, esse líder é sua segurança, é a força a partir da qual nascem suas energias, é onde esses monstros chorões encontram colo.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Olhar de criança

Sinto que não há coisa mais verdadeira do que o olhar curioso de uma criança de poucos anos. Olhos grandes, estáticos e despretensiosamente arregalados, querendo apenas observar, conhecer. Quando crescemos, esses olhos se perdem devido à rápida astúcia, à negligência forçada para impormos presença, para publicarmos nossa voz de escolha, de opinião. O olhar da criança de poucos anos é bastante instintivo, irracionalizado, espontâneo, essencialmente curioso. E isso é algo muito atormentador para aqueles que têm o vício do não-olhar, da retórica das caretas egocêntricas. Particularmente, às vezes, sinto-me incomodado quando despretensiosamente olham para mim, as crianças e adultos mesmo; não sei lidar com isso. Certamente, parte da explicação está em minha insolúvel timidez, ainda que saiba controlá-la em muitos momentos. Mas acho que a resposta é mais óbvia, isto é, incompreensível por sua simplicidade: aprendemos a desprezar racionalmente as coisas o tempo todo. Literalmente, aprendemos; é essencialmente cultural, fruto de um processo educativo, de uma “internalização”. Quando digo que não sei lidar com olhares singelos, curiosos, é que parece sem o menor sentido uma pessoa ficar olhando para outra sem um motivo prático, como quando, por exemplo, preparar-se para um diálogo ou querer segundas intenções. Talvez seja esse o ponto de definição entre uma ação instintiva e outra cultural: o quanto há de sentido ou razão por traz das escolhas. Crianças de poucos anos de idade arregalam constantemente seus olhos, e o fazem quase sempre sem o racionalismo com o qual conversamos com alguém, sem estarem contaminadas com a astúcia dos adultos, sem a lição de que os adultos não precisam olhar-se sem motivos aparentes.

Hoje eu noto com clareza como é chato ser adulto. É um mundo detestável, sem graça, de poucas fantasias. E quando tentamos acreditar em sonhos, desejos, sempre vem alguém fazendo questão de nos lembrar que é a mais doce fantasia. Os adultos têm muita dificuldade em respeitar sonhos, ideais, e mesmo em respeitar crianças. Porque a principal condição que norteia o “mundo” dos adultos é a predisposição em ver a realidade como algo difícil de ser transformado de acordo com as mais belas fantasias reais que temos. E isso é um fato, devo reconhecer. Quando alguém admira uma pintura a uma relativa distância, não é por acaso, e sim porque de perto tudo é mais grotesco, bruto, sem margem para doces fantasias. Mas eu me pergunto até que ponto a aridez racionalista deve ser um deleite, porque não tem sabor algum. Não é por menos que o “mundo” das crianças é sempre mais gostoso, porque tem graça, tem sabor, tem doces crenças que nós, adultos, taxamos com o nome presunçoso de ingenuidade. As crianças são seres burros, ingênuos, vazios de conhecimento, inúteis, verdadeiros fardos ambulantes: é o que aprendemos quando estamos crescendo, e por isso deixamos de ser ou agir como crianças; é por isso que “queremos ser adultos” todo o tempo. Nós, adultos, temos o controle sobre o mundo; nós é que trabalhamos, pensamos, cuidamos, concedemos direito ou não à existência de outras pessoas; as crianças estão sob nosso controle. Não é difícil entender o porquê da soberba adulta.

A maioria não olha; rende-se às regras tácitas de decoro social. Outros olham; é preciso humildade forçada para não suicidarmos nosso lado social. Mas o olhar mais sábio dos adultos é aquele das esquinas do corredor, quando não sabemos que pessoas vêm em nossa direção e num instante, despretensioso instante, olhamos no fundo de suas pupilas. Esse é o olhar das crianças, sem controle, instante sem sentido, sem razão, profundamente espontâneo. Há uma curiosidade instantânea de conhecer, de aprender sobre aquilo que está diante de nós.

Tudo isso parece muito rousseauniano. E é; não com toda a majestade de Rousseau, mas com o bastante daquilo que ele chama de liberdade. Liberdade, justamente o que falta nos olhos dos adultos: a singela e despretensiosa curiosidade das crianças.