sábado, 23 de fevereiro de 2013

Mais quatro anos



Outro dia. Pardais de fim de tarde que cantam nas árvores. O breu começa a invadir tudo. Mais um aprisionamento filosófico da perda do tempo, da inutilidade do gosto, da solidão necessária de escolhas certas e, por isso, difíceis. Eis-me aqui. O passado próximo está se projetando no futuro como um carma insanável, crônico e tão perturbador quanto antes. Não quero adentrar nesse mar novamente, mas eu já estou partindo do cais. Perguntas tolas, cuja resposta eu já sei, mas que teimam a incendiar com dúvidas e arrependimentos. Não quero isso. Preciso de ares leves, e de menos preocupações e vaidades inúteis. Quero aquilo de outro jeito, sem tormentos.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Gêmeos



Tão frágil, mas veloz e ágil como um ladrão. Olhares rápidos, pensamentos rápidos, pontas dos dedos tocando a superfície. O perigo é sua velocidade, seus sentidos tão sensíveis. Nada escapa à sua perigosa visão. Tudo sobre a altura de sua fronte é de seu conhecimento. Nada que está abaixo tem importância. Sua curiosidade satura-se no contato com o que se pode ver. É o suficiente. Suficiente para sua mente inquieta. Suficiente para o peso leve que pode suportar. Têm olhos de íris negra que brilham como estrelas negras, movendo-se com vida própria. Sua palavra-chave é o perigo iminente, a fuga triunfante, o ímpeto ao atalho. Seu ouro é sua charla, palavras que conquistam com facilidade o ouvinte desatento. Jamais se encontrará a fixidez da honra dos reis. Quando encontra um chão forasteiro, nele faz sua morada, se senta e esparrama-se pelo aconchego instantâneo. É tão lógico e reativo que nunca é nada a não ser um quando.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Clichê


Sujeiras me inquietam profundamente. Tento me controlar, mas não consigo, é mais forte do que eu. O pior é que estou lançado no meio do lamaçal e só há vermes no chão em volta. O silêncio me incomoda muito. Ouço e sou forçado, como tantos outros, a permanecer mudo, fazendo de conta que estou alienado. Parafraseando “Cálice”, esse silêncio todo me atordoa, e, atordoado, eu permaneço atento. Nada é pior do que o silêncio do medo. O medo, a força, a chantagem, a mentira, o desorgulho. Acho que estou virando, sem a menor iniciativa própria, o mais exaltado da Revolução. O sofrimento de outros tem me incomodado muito, justamente pela minha impotência. As coisas melhoraram para mim: um motivo, acho, de inevitável festejo. Mas isso não aconteceu. Até os cães na rua têm mexido com os meus nervos. Talvez o meu cérebro esteja atrofiando, mas é certo que me parece que as coisas estão voltando para trás. A experiência, o contato, não está me dobrando às suas vontades. Eu não consigo pensar (in)diferente.