quinta-feira, 30 de junho de 2011

|Lição de História

Menocchio è, possiamo dire, un nostro antenato. Ma Menocchio è anche il frammento sperduto, giuntoci casualmente, di un mondo oscuro, opaco, che solo con un gesto arbitrario possiamo ricondurre alla nostra storia. Quella cultura è stata distrutta. Rispettare in essa il residuo d’indecifrabilità che resiste a ogni analisi non significa cedere al fascino idiota dell’esotico e dell’incomprensibile. Significa semplicemente prendere atto di una mutilazione storica di cui in un certo senso noi stessi siamo vittime. “Nulla di ciò che si è verificato va perduto per la storia”, ricordava Walter Benjamin. Ma “solo all’umanità redenta tocca interamente il suo passato”. Redenta, cioè liberata.


Carlo Ginzburg|


Menocchio é, podemos dizer, um antepassado nosso. Mas Menocchio é também o fragmento perdido, atingido por acaso, de um mundo obscuro, opaco, que apenas com um gesto arbitrário podemos trazer de volta à nossa história. Essa cultura foi destruída. Respeitar o resíduo de indecifrabilidade que nela resiste a qualquer análise não significa sucumbir ao fascínio idiota do exótico e do incompreensível. Significa simplesmente levar em conta uma mutilação histórica da qual, em certo sentido, nós mesmos somos vítimas. “Nada do que ocorreu está perdido para a história”, lembrava Walter Benjamin. Mas “só à humanidade redimida o seu passado pertence plenamente”. Redimida, quer dizer, liberada.

sábado, 18 de junho de 2011

Paredão

Um mês, quinze dias, uma semana, uns dias, amanhã, hoje, agora. E o tempo passa. Na verdade, ele chega. Aquele tempo, o momento último, ele chega; chegou, está à frente de minha testa. O vão de dias, de horas, de tempo, escorre, ele é líquido, flácido e escorregadio como os relógios de Dalí. É rápido, instântaneo, e persistente, inexorável. Ele é o momento da caça, do farejo, do suor deslizando pelo rosto, do ar arrebentando pelas narinas. É o momento da caça, dos sentidos à flor da pele: tudo podemos tocar, tudo é sensível, tudo tem sabor, cheiro, ruído, cor, textura.

A sensação de final é repleta de sensações. Coisas simples, simples coisas que a desatenção cotidiana negligenciou, fez de conta que não existia. A apreensão de tempo torna-se aguçada, e tudo passa rapidamente sob a vista aflita pela imprevisibilidade do que vem. Tudo pode vir, tudo é possível, quando a existência das coisas do mundo, transitórias coisas, estão visíveis e sensíveis como nunca antes. Simples coisas de antes são milagres aos olhos atentos: ora, veja só, sai água da torneira!

Eu estou no paredão. É, no paredão de fuzilamento. Não há escapatória, não há mais volta, só futuro, só tempo que vem inevitavelmente. E tempo que vem a toda hora, sem parar, e totalmente visível. Qualquer segundo que passa é uma eternidade. Falta quanto tempo? Quando é a hora? Cadê a hora? E depois da hora?

O depois: futuro sem sentido, sem contorno, sem textura. Só a Deus ele pertence... Essa é a razão da aflição. Ninguém sabe ou poderia saber o que vem por aí. Destino incerto, que requer olhos atentos, instintos à mil, afinal tudo torna-se possível, tudo pode acontecer. É preciso estar atento, o perigo ronda, fareja, e nós somos a sua caça. É preciso ver o que vem por aí.

Mas tem algo de bom nisso tudo. Ferris Bueller nos ensina: é o fogo intenso pela curtição. Falta algum tempo –é a única certeza que se tem. É preciso aproveitá-lo, vivê-lo. Por que o lamento pelo fim, pela transição, pelos instantes decisivos? Não faz sentido e não é bom. O desperdício é a saída para corações vazios de sentido, ocos de desejo e determinação. Nada está perdido enquanto há tempo para se experimentar; enquanto o tempo existe. Não se pode ter pressa, mas também não se pode perder tempo. E o melhor remédio ao paredão é apenas aquilo que nos resta: carpe diem!