sábado, 18 de junho de 2011

Paredão

Um mês, quinze dias, uma semana, uns dias, amanhã, hoje, agora. E o tempo passa. Na verdade, ele chega. Aquele tempo, o momento último, ele chega; chegou, está à frente de minha testa. O vão de dias, de horas, de tempo, escorre, ele é líquido, flácido e escorregadio como os relógios de Dalí. É rápido, instântaneo, e persistente, inexorável. Ele é o momento da caça, do farejo, do suor deslizando pelo rosto, do ar arrebentando pelas narinas. É o momento da caça, dos sentidos à flor da pele: tudo podemos tocar, tudo é sensível, tudo tem sabor, cheiro, ruído, cor, textura.

A sensação de final é repleta de sensações. Coisas simples, simples coisas que a desatenção cotidiana negligenciou, fez de conta que não existia. A apreensão de tempo torna-se aguçada, e tudo passa rapidamente sob a vista aflita pela imprevisibilidade do que vem. Tudo pode vir, tudo é possível, quando a existência das coisas do mundo, transitórias coisas, estão visíveis e sensíveis como nunca antes. Simples coisas de antes são milagres aos olhos atentos: ora, veja só, sai água da torneira!

Eu estou no paredão. É, no paredão de fuzilamento. Não há escapatória, não há mais volta, só futuro, só tempo que vem inevitavelmente. E tempo que vem a toda hora, sem parar, e totalmente visível. Qualquer segundo que passa é uma eternidade. Falta quanto tempo? Quando é a hora? Cadê a hora? E depois da hora?

O depois: futuro sem sentido, sem contorno, sem textura. Só a Deus ele pertence... Essa é a razão da aflição. Ninguém sabe ou poderia saber o que vem por aí. Destino incerto, que requer olhos atentos, instintos à mil, afinal tudo torna-se possível, tudo pode acontecer. É preciso estar atento, o perigo ronda, fareja, e nós somos a sua caça. É preciso ver o que vem por aí.

Mas tem algo de bom nisso tudo. Ferris Bueller nos ensina: é o fogo intenso pela curtição. Falta algum tempo –é a única certeza que se tem. É preciso aproveitá-lo, vivê-lo. Por que o lamento pelo fim, pela transição, pelos instantes decisivos? Não faz sentido e não é bom. O desperdício é a saída para corações vazios de sentido, ocos de desejo e determinação. Nada está perdido enquanto há tempo para se experimentar; enquanto o tempo existe. Não se pode ter pressa, mas também não se pode perder tempo. E o melhor remédio ao paredão é apenas aquilo que nos resta: carpe diem!

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