segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Falso belo

Vida mortal. Vida natural. As coisas passam, as coisas acontecem, e a gente nem nota. Ou nota só depois. Depois: é um locus de tempo que revela simplesmente vida, acontecimento, passagem, história, um antes que passou. As coisas acontecem, porque não temos controle sobre elas. Às vezes pensamos ter, mas o que temos é apenas o deslumbre daquilo que queremos ver ou ter ou ser. Além do querer ver ou do querer ser ou do querer ter, há um ser imutável, natural, que acontece independente, quieto, que silencioso toma forma. A natureza é ser, é acontecimento, é antes e depois, é silenciosa, mas não estática ou muda ou artificial. Na natureza está o ideal simples de como as coisas deveriam ser. Nela está toda a mortalidade de ser, de ver, de ter. Não é perfeita, pois a perfeição absoluta é inatingível: até os deuses têm imperfeições, traços de uma mortalidade necessária, necessária para se viver. É justamente em não ser perfeita que a natureza é bela, ou melhor: é justamente por isso que nela se encontram os sinais do belo, da graça, do viço, da felicidade. O belo é sinônimo de mortalidade, de acontecimento, passagem, vida. Quando nos aproximamos de um quadro, tudo torna-se próximo, humano, mortal, revelador de imperfeições. A curta distância revela a mortalidade por trás da inefável obra-de-arte. A curta distância traz à tona os riscos, as pinceladas, os pequenos erros e acertos, as curvas, os sinais necessários e reveladores, reveladores da natureza. A natureza que está em todas coisas, escondida, distanciada pela artificialidade do querer ver. De perto, tudo expõe o natural de si. De perto, as coisas acontecem, têm vida, são naturais, belas. A longa distância mitologiza, artificializa o mundo, as coisas. A longa distância torna o mundo oculto, divino, encantador, de tons e contornos perfeitos. A longa distância é poder, é o poder de se tornar perfeito, de se tornar superior ao mundo de coisas mortais, humanas, imperfeitas. Mas a graça, o viço, se perde. O que se perde são os sinais de vida, de acontecimento, de antes e depois. Se perde o conhecimento do mundo, das coisas, de que o mundo é feito de coisas, riscos, pinceladas, erros e acertos. Se perde justamente a imperfeição, a graça que há no feio. Não há belo sem que o feio exista, pois o belo é justamente a harmonia que se cria entre os corretos e errados tons e contornos. Quando há um só tom e contorno corretos não há belo. Há um artificial perfeito, estático, sem graça, mudo, sem vida por ser imortal. A artificialidade esconde a mortalidade, o natural, o humano, o ser. A artificialidade destrói ou oculta a beleza do mundo, das coisas. Ela é o falso belo. Falso: o fictício que se faz passar por verdadeiro. A natureza que torna-se oculta é a verdade, a realidade, escondida, pintada, maquiada, penteada, torneada, vestida.

Nosso mundo nunca foi tão artificial como é agora. Cabelos pintados, bochechas maquiadas, cabelos moldados como se argila fossem, pernas e braços e abdômenes torneados, corpos bem vestidos: tudo tem sido muito perfeito, muito correto, muito artificial. O comportamento não escapa: pés que tocam o chão com a ponta dos dedos, olhares que negligenciam, esnobam, pernas cruzadas com uma segurança infalível, sorriso recatado, voz robotizada de operadoras de telemarketing. Os pensamentos, muito menos: o júbilo de se viver está em carro novo, viagens, roupas de última moda, necessariamente casar e ter filhos, money. Não há outras palavras senão: o que o mundo faz, devo fazer. A artificialidade, ao esconder a natureza das coisas, esconde também o singular, o diferente, porque a imperfeição, que é o segredo do belo, está na diferença –a jóia mais rara da natureza. A artificialidade é fictio, fabricação, construção, o deslumbre daquilo que queremos ver ou ter ou ser, esconde a natureza inicial. A busca pela fonte da juventude: o refinamento da insensibilidade humana moderna. As pessoas temem envelhecer, temem o fim. Temem o ciclo natural das coisas, das rugas no rosto ou dos cabelos que teimam em enrolarem-se mesmo depois de sessões e mais sessões de chapinhas. Temer a natureza é fugir dela. E a fuga, quase sempre, é uma insensibilidade em se perceber a beleza natural das coisas. De como o belo está no feio aparente. Fugir da natureza: fugir do nosso próprio mundo, fugir de nós mesmos, fugir do belo. Fugir da natureza: abrigar-se no mundo de fictio, do falso que se faz de verdadeiro, do artificial.

Natal e Réveillon: época do fictício, do artificial? Certamente sim. Mas é época também de sensibilidade, de percepção de coisas antes despercebidas. É época de graciosidade: sinal da sensibilidade que aflora nos corações que ainda permanecem belos, naturais.

sábado, 28 de novembro de 2009

Aprendendo a xingar

Há muitas formas de se xingar alguém. A mais comum, é claro, é dizendo com todos os fonemas possíveis, em alto e bom tom. Mas isso é muito deselegante. As formas sutis são mais interessantes e têm resultados, muitas vezes, melhores. Se bem que o próprio ato de xingar já é, por si mesmo, deselegante; por isso é preciso que se faça da maneira menos socialmente visível; que atinja somente o nosso alvo. E a sutileza em se xingar pode ser feita de vários modos. Porém, um deles me chama a atenção: através do olhar.

As pessoas se comunicam mais pelo olhar do que imaginam. Afinal, ele não é qualquer sentido; ele é o instrumento fundamental em nossa comunicação. Através dele mil e uma coisas podem ser “ditas” e “ouvidas”, sem muito esforço. Por ser um canal de comunicação, qualquer mensagem pode ser enviada ou recebida, até mesmo xingamento. O problema –como sempre!– está no fato de sua percepção. Não só de quem é o receptor, já que a raison d’être de uma piada é que seus ouvintes a entendam, mas também do próprio emissor: muitas vezes, as pessoas não têm consciência de que o estão fazendo, xingando alguém. Esse é um problema sério; mas não entremos nessa discussão. O ponto importante é: as pessoas podem xingar com o olhar, de forma tão límpida como com palavras ditas. Ora, como isso se dá?

Certamente aquilo que entendem como feição esnobe é mais do que um simples gesto de egocentrismo, de mitologizar aquilo que somos. Uma feição esnobe é uma forma de comunicar independência através de uma ofensiva, de uma agressão ao outro. Uma feição esnobe é, antes de tudo, um xingamento. É uma forma de dizer “dane-se você, não estou nem aí!” ou “vai se ferrar, seu bobão, não me olhe, me deixe em paz!”. Uma feição esnobe é composta por uma seqüência de gestos faciais: fechar os olhos ou direcioná-los rapidamente a um outro ponto, pôr a coluna ereta, virar bruscamente a cabeça e o pescoço, etc., etc.. Mas há um detalhe, muitas vezes, determinante para que o xingamento funcione plenamente: fazer uma careta retórica. A careta é fundamental! Com ela, se xinga qualquer um e muitos de uma vez só; até o mais tonto dos receptores saca o sentido da coisa. Com a careta podemos chamar o nosso pior e mais temível inimigo de “filho da puta”, sem dizermos uma palavra sequer. E mais: sem correr o risco que correríamos e sem a deselegância de xingar com palavras ditas. A careta de insatisfação tem um potencial retórico, de persuasão, fantástico.

Mas é preciso se ter cautela. Precisamos ser canalhas, meio cafajestes, quanto às escolhas dos nossos alvos; mas canalhas inteligentes, não tolos. O alvo não pode ser qualquer um e o tempo todo. Precisamos saber escolher as pessoas certas, somente as certas, no tempo certo. Xingar alguém com olhar é vicioso! Quando se pega o gosto pela coisa, largar é coisa por demais difícil. E aí mora um grande problema: acaba se xingando pessoas erradas em momentos certos. E reverter o xingamento é tarefa árdua demais. A cautela é o melhor remédio.

Afinal, o xingamento tem o seu momento certo e sua finalidade certa. O momento certo é quando é menos socialmente visível, quando o alvo está à nossa frente, só sendo ele atingível, ninguém mais; e quando percebemos que ele está vulnerável à nossa troça, quando, de fato, cairá nela. O intento do xingamento é muito simples: agredir. Só se agride quando se é agredido; só se destrói o inimigo quando ele está prestes a nos destruir. Agredir, por outro lado, não é também um título de nobreza, não é algo a ser desejado. É um mal necessário, sob circunstâncias específicas, muito específicas. A gratuidade da agressão é tão deselegante –para não dizer irracional– quanto o próprio ato de se agredir, ou de se xingar em si. Xingar com o olhar requer refinamento não só quanto à forma como se desenrola o ato em si, mas em saber o seu momento e propósito certos. É ter consciência de que se está fazendo algo, e de suas conseqüências. Precisamos ter cautela: ele é vicioso, assim como a vício do egocentrismo. Há pessoas que usam a careta de forma demasiada, porque confundem o joio com o trigo. A careta é, muitas vezes, usada erroneamente como instrumento de indiferença. Mas indiferença não é sinônimo de esnobismo ou de xingamento com o olhar. Indiferença é apenas uma escolha em não querer se comunicar diretamente com alguém, por esse alguém ter algo que não nos agrada; afinal, ninguém precisa ser amigo do mundo inteiro, e nem deve, porque a existência do contrário é sempre necessária na balança da vida. Essa escolha não pressupõe o uso do xingamento com o olhar. A indiferença, salvo sob circunstâncias específicas em que se queira torná-la, não é um xingamento. Confundir essas duas coisas é um erro maléfico. E como todo erro, ou acerto, tem o seu custo. É também preciso dizer que ao indiferenciado ou ao xingado a recíproca não é forçosamente verdadeira, não é necessária. Ter sido alvo de indiferença ou de xingamento não supõe que devamos fazê-lo em contrapartida. É necessário, diante disso, ter a consciência de respeito pela escolha alheia, sem ressentimentos. E quando digo isso, quero salientar que, como já dito, o mundo inteiro não é e não pode ser nosso amigo; há uma beleza maior à volta para se apreciar do que se ficar disputando com o outro a careta mais feia. A coisa é simples, aceitemo-la simples assim. Mais uma vez, o segredo é bastante elementar: sabedoria, uns diriam maturidade. Nada mais, nada menos.

domingo, 22 de novembro de 2009

Apenas

Coisas admiráveis, era o que desejava ver. Cores vivas, brilhantes, sugestivas. Contornos definidos, cenas que falam. Aquela galeria continuava a mesma. Não vinha até ali há tempos. As mesmas pessoas curiosas de sempre passavam. Tudo estava se encaminhando para mais um simples dia. Nada de novo, nada de diferente.

Mas algo, então, mudou o caminhar das coisas. Ela se perguntava: quem é ele? Será mais um desses sujeitos sisudos aqui? Não, ela queria pensar. Ele era diferente, ela queria achar. Camisa branca e calça jeans, ele vestia. Cabelos despenteados, ao vento, ele trazia. Mas o que ele será?, ela só sabia se perguntar. Será um advogado ou executivo? Não, seria chato demais. Seria um médico? Não, seria limpinho e almofadinha demais. Seria um músico? Não, sem tatuagens. Seria casado ou comprometido? Não, estragaria tudo. Ele era, ela queria pensar, o poema de seus sonhos, dos seus devaneios. Ele era –era isso o que ela queria!– a matéria bruta, a argila a ser moldada em seus pensamentos. Ele era a obra-prima que seus pensamentos queriam trazer à luz.

Ele só tinha olhos para as paredes. Ela, só para ele. Observava-o de longe, querendo querer saber. O desejo estava consumindo-a demais, precisava agir. E foi o que ela fez. Levantou-se, e foi admirar de perto a sua futura obra-de-arte. A quietude persuasiva de seus movimentos infligia um efeito perverso em seus pensamentos, que se atormentavam com tantas idéias. Mais do que através de olhos, queria senti-lo em seu corpo: um pequeno esbarrão, era o que precisava. E assim foi. Mas a emoção cedeu à razão tímida, e o momento se desfez num enlace frio: desculpe-me!, foi o que ela apenas disse, sem sequer olhá-lo.

Mas aquilo não terminou ali: coffee break! Pernas sedutoramente cruzadas, coluna reta, bebida escura e meio-amarga adentrando em seus deliciosos lábios: sentada à mesa, na cafeteria ao fim do corredor, ela tentava retomar seus pensamentos. Eles não iam muito longe: quem era mesmo aquele sujeito? Ela soube, logo depois. Ele se aproximava, e sentou-se à sua frente. Os dois olhos se olharam: então, isso é você?; não, não é só isso, ela queria pensar. Lábios insinuantes, cabelos prontos a ser acariciados, corpo provocante: aquele sujeito estava enlouquecendo-a em si mesma. Ele também bem que gostou da troca de olhares, sugestivos olhares: aquelas mãos, aqueles olhos, aqueles lábios; desejaria entregar-se, se ela quisesse ser sua artista.

Mas a obra-de-arte já estava feita. Ali, ela veio à luz. Quietos, distantes, e de mentes cheias, os dois se completaram, se produziram. Ali, eles, quietos e distantes, beijaram-se e abraçaram-se em seus pensamentos. Ela levantou-se, e olhou-o uma vez mais, revelando um breve sorriso. Despediram-se daquilo que foi a mais lacônica, intensa, e curiosa história de amor.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Não ao "se"

Quem é você? Desde há muito tenho me perguntado. Nunca soube bem ao certo. É aquilo que em mim tem provocado um júbilo eterno, os pensamentos mais saborosos que já senti antes. Aquilo que tem me levado às duas fronteiras do mundo, sem ter dado um passo sequer. É isso que me tormentou, às vezes: o não-foi que perturba. Mas não quero mais pensar no “se”. Quero apenas a doce lembrança do pouco que foi. Mesmo que esse pouco seja pequeno demais para olhos atentos o enxergarem. Porque não é necessário atenção: o belo já é belo quando se tem olhos sábios. Já é suficiente, já é o deleite mais divino que jamais senti. A memória dos poucos momentos que olhei em seus olhos me levaram, e ainda me levam, aos céus. Também me levaram ao mais profundo abismo dos pensamentos vãos. Foram cruéis, mas também saborosos. Chega de lamentar pelo “se”: isso cansa. Saboreei cada pedacinho daqueles curtos e infinitos momentos. Lambuzei-me até sentir náuseas de gula. Mergulhei no mais absoluto e belo sossego, que nem o paraíso de Vênus poderia nos dar. Pensar na lembrança de seus olhos já me faz existir. Mesmo que a distância, as distâncias que teimaram em impor-se no caminho até você, tenha me levado ao longe, isso já me fez o mais observador dos antropólogos. Fez-me querer ser apenas isso. Um observador. Nada mais, nada menos. Foi o suficiente para mim ter você como o objeto de meus olhos, tímidos olhos. Eles queriam aprender mais, mais sobre a constância do belo. Queriam sentir a arte correr em seu ser. Queriam existir. Lembrar de você já é o suficiente, o suficiente para viver e seguir em frente. O pouco do que foi foi-me aquilo de que eu necessitava, e ainda necessito. Os seus olhos... Que maravilhoso sonho!

domingo, 1 de novembro de 2009

Sendo hippie

Geralmente, os hippies são sujeitos muito simpáticos. Simpáticos por suas roupas coloridas, seus óculos de lentes arredondadas, seu estilo de vida completamente Zeca Pagodinho: deixa a vida me levar... E ainda sorriem o tempo todo, estão sempre felizes e de bem com a vida, dizendo coisas bonitas, alegres, floridas, abraçando as árvores e conversando com as joaninhas, besouros, minhocas, etc., etc.. Se bem que, quanto a isso, talvez as “ervinhas” ajudem bastante... Mas o fato é que são simpáticos, sem dúvida. E o são porque tudo isso gera um certo estranhamento quando olhamos para eles. São completamente alheios àquilo que entendemos, nós, que seguimos o “sistema” de algum modo, como “normal”. E ainda, por cima, esse estranhamento é carregado de certa comicidade. Causam graça. Afinal o “avesso simpático” é quase sempre, inconscientemente, ligado à caricatura, à troça, à celebração do hilário, do cômico, do carnaval. Os hippies nos fazem lembrar de tudo isso, mesmo que de forma inconsciente. São estranhos não só pelo fato de não quererem ser “normais”, mas também porque este caráter “anormal” manifesta um segundo nível de “anormalidade”: o “anormal” caricaturesco, profundamente pitoresco.

Confesso que sou meio hippie. Talvez não tão de estilo clássico como aqueles loucos e corajosos de Woodstock, com suas ousadias implacáveis. Até porque, acho, os hippies se vestem mal. Têm um estilo muito excêntrico; são verdadeiros duendes hippies irlandeses, estardalhacentos. É por isso que diria que estou muito mais pro lado dos duendes yuppies. Eles são mais sedutores, mais charmosos até. Os duendes yuppies apreciam um bom charuto, um saboroso cálice de vinho français, assistem a programas como Manhattan Connection ou Jô Soares, e ainda apreciam Bloomberg e Telecine Cult. O único jornal que lêem é Le Monde Diplomatique. Mas eles não deixam de ser hippies por completo. Adoram assistir a Chaves. Gostam de comidas mais lights, verduras, legumes, hortaliças, ninfetas... Como os de Woodstock, não têm nenhum preconceito quanto a se fazer um ménage à trois. Eles são pessoas sérias, mas ainda sorriem bastante, são sociáveis, adoram coisas simples como a pegadinha de Mário e o armário. Os duendes yuppies são mais modernos, não tão clássicos como os de Woodstock. São sujeitos mais equilibrados. Têm menos imagens psicodélicas atormentando os seus pensamentos. Confesso que tenho muita simpatia por esses sujeitos. Eles combinam em si a dialética do comportamento humano pós-moderno: são yuppies hippies! Sou um desses, acho.

***

Tensão, tensão, posso sentir. Por que não relaxar?

Tudo é tão simples. Tudo pode ficar tão calmo, pacífico.

As coisas, o mundo, as pessoas, tudo pode ser tão risonho.

Tudo pode ser diferente, posso sentir.

Sentir? Sentir a doce inconstância e paz dos simpáticos duendes.