Coisas admiráveis, era o que desejava ver. Cores vivas, brilhantes, sugestivas. Contornos definidos, cenas que falam. Aquela galeria continuava a mesma. Não vinha até ali há tempos. As mesmas pessoas curiosas de sempre passavam. Tudo estava se encaminhando para mais um simples dia. Nada de novo, nada de diferente.
Mas algo, então, mudou o caminhar das coisas. Ela se perguntava: quem é ele? Será mais um desses sujeitos sisudos aqui? Não, ela queria pensar. Ele era diferente, ela queria achar. Camisa branca e calça jeans, ele vestia. Cabelos despenteados, ao vento, ele trazia. Mas o que ele será?, ela só sabia se perguntar. Será um advogado ou executivo? Não, seria chato demais. Seria um médico? Não, seria limpinho e almofadinha demais. Seria um músico? Não, sem tatuagens. Seria casado ou comprometido? Não, estragaria tudo. Ele era, ela queria pensar, o poema de seus sonhos, dos seus devaneios. Ele era –era isso o que ela queria!– a matéria bruta, a argila a ser moldada em seus pensamentos. Ele era a obra-prima que seus pensamentos queriam trazer à luz.
Ele só tinha olhos para as paredes. Ela, só para ele. Observava-o de longe, querendo querer saber. O desejo estava consumindo-a demais, precisava agir. E foi o que ela fez. Levantou-se, e foi admirar de perto a sua futura obra-de-arte. A quietude persuasiva de seus movimentos infligia um efeito perverso em seus pensamentos, que se atormentavam com tantas idéias. Mais do que através de olhos, queria senti-lo em seu corpo: um pequeno esbarrão, era o que precisava. E assim foi. Mas a emoção cedeu à razão tímida, e o momento se desfez num enlace frio: desculpe-me!, foi o que ela apenas disse, sem sequer olhá-lo.
Mas aquilo não terminou ali: coffee break! Pernas sedutoramente cruzadas, coluna reta, bebida escura e meio-amarga adentrando em seus deliciosos lábios: sentada à mesa, na cafeteria ao fim do corredor, ela tentava retomar seus pensamentos. Eles não iam muito longe: quem era mesmo aquele sujeito? Ela soube, logo depois. Ele se aproximava, e sentou-se à sua frente. Os dois olhos se olharam: então, isso é você?; não, não é só isso, ela queria pensar. Lábios insinuantes, cabelos prontos a ser acariciados, corpo provocante: aquele sujeito estava enlouquecendo-a em si mesma. Ele também bem que gostou da troca de olhares, sugestivos olhares: aquelas mãos, aqueles olhos, aqueles lábios; desejaria entregar-se, se ela quisesse ser sua artista.
Mas a obra-de-arte já estava feita. Ali, ela veio à luz. Quietos, distantes, e de mentes cheias, os dois se completaram, se produziram. Ali, eles, quietos e distantes, beijaram-se e abraçaram-se em seus pensamentos. Ela levantou-se, e olhou-o uma vez mais, revelando um breve sorriso. Despediram-se daquilo que foi a mais lacônica, intensa, e curiosa história de amor.
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