sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Honra

Aí vai a letra duma canção muito curiosa que ouvi e vi interpretada por Maria Bethânia. Fala de algo muito valioso. O título é "Volta por cima" e a autoria é de Paulo Vanzolini:

Chorei, não procurei esconder
Todos viram, fingiram
Pena de mim, não precisava
Ali onde eu chorei
Qualquer um chorava
Dar a volta por cima que eu dei
Quero ver quem dava
Um homem de moral não fica no chão
Nem quer que mulher
Venha lhe dar a mão
Reconhece a queda e não desanima
Levanta, sacode a poeira
E dá a volta por cima

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Tempo de Eros

Eu “me escondo do amor”. Por quê? Não sei, isso acontece naturalmente. O que quero dizer é que não o manifesto tão abertamente como em geral as pessoas fazem. Tenho comigo uma precaução natural que retarda a manifestação de afeto, que a deixa só pra depois de tudo certo, de tudo estar nos conformes. O meu amor surge do momento honesto e prático. Tenho consciência de que amor nada mais é do que romance, paixão, calor, entusiasmo. Na verdade, eu me escondo da maneira de se manifestar o amor abertamente. Exalá-lo a qualquer momento é algo que não acontece comigo. E aí não há arbítrio; isso simplesmente acontece, muito embora eu tenha a consciência de fazê-lo, pois é um comportamento involuntário e autônomo, sobre o qual não possuo controle mesmo querendo. A espontaneidade do meu amor se manifesta na calma e em momentos de intimidade, de relação interpessoal definida, na troca harmônica de olhares. Tudo isso constitui fatos. Não posso fugir de fatos, do “real”, do imutável. Eles simplesmente existem. Talvez, então, a pergunta deva ser mudada: ou melhor, para que serve isso? A resposta pessimista não é a melhor saída: todos os caminhos levam a Roma. Eros está abrigado em mim. Só poderá sair quando usá-lo para o seu fim. Eu só posso usá-lo, para o seu fim, em certos momentos. É isso.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Brilho do Sol

Carrego comigo uma canção perfeita, dum tal título “Fonte”. Ao referir-se ao amor, para mim, ela apenas traduz uma metáfora. A metáfora da força gerada da afeição, da energia desprendida do gosto. Aquilo de que se gosta, salvo raras exceções, está sempre muito próximo. E não é por menos. É resultado do magnetismo, da energia que se desprende naturalmente pela tendência da atenção. Pela tendência a algo. Além dum sentido hedonista, esta força tem um potencial criativo. Na medida em que tudo é possivelmente próximo, esse tudo encontra a possibilidade da existência, da sua criação. Nesse amor-metáfora está impresso o dom da criação. Aí está a divindade.

A oeste o Sol cai. Ele morre. Seu brilho é engolido pela escuridão da noite. O Sol perde o seu brilho, ele desce ao chão do horizonte sem mais forças. Aí vem o afeto pelo outro, vem a maternidade da Lua. Ela o nutre. E, então, a leste o Sol se levanta. Volta à vida. Orgulhoso e todo criativo. Ele só volta a brilhar no céu, porque antes ele se alimentou. Porque antes foi nutrido pelo afeto da noite, pela maternidade da Lua. O afeto é a fonte do Sol. E, na medida em que o Sol cria, ele inaugura a força latente do afeto de e por si. O seu brilho é a sua vontade. Ele o faz criar. Aí ele exerce a sua honrável divindade.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Cabelos brancos

Sempre tive um certo preconceito adolescente em relação a pessoas mais velhas que eu. Ora, por que eu tenho que aceitar imediatamente a ideia de que os mais velhos, principalmente idosos, tem mais experiência que eu? Afinal, experiência nada mais é do que aquilo que se guarda, e não necessariamente o que se vive com o tempo. Sempre vi a experiência como uma lição, como apenas aquilo que se aprende. Ora, podemos aprender o tempo todo, se quisermos... Eu, por sinal, sempre quis. Sempre fui muito curioso, sempre prestei muito atenção às coisas, às pessoas, ao certo e ao errado. Por isso, o meu orgulho pessoal e a inconformidade com a ditadura da idade.

Isso é muito comum para adolescentes, para pessoas muito jovens. Hoje, eu ainda sou jovem, mas não o mesmo de antes, embora ainda deva reconhecer que há muita coisa a ser vivida. O fato é que essa visão mudou um pouco, tem mudado em meus pensamentos. Sim, mais idade traz, sob condições normais, mais experiência, independente da curiosidade ou predisposição a conhecer as coisas. Isso só serve de intensificador, na medida em que as lições naturalmente vêm por livre e espontânea pressão do mundo.

Essa constatação tão simples demorou a vir. E não reclamo disso, pois agora sei do que efetivamente se trata e como lidar com isso. A cautela é sempre um santo remédio... Essa constatação veio de minhas reflexões a partir da Astrologia: o estudo das tendências astrais, desveladas desde o nascimento, apontam de forma bastante precisa e significante para o que temos e o que nos falta. Geralmente aquilo que falta, que é apontado na carta natal, já está presente na conduta dos mais velhos. A inversão também se concretiza: em pessoas mais jovens, é difícil fornecer-lhes indicações mais precisas de suas tendências psico-astrais, porque isso justamente não se encontra muito definido na consciência da própria pessoa. Aos jovens as características presentes nos mapas natais geralmente não fazem sentido para eles próprios, devido às próprias indefinições de sua idade. O desenvolvimento da personalidade, na verdade, é uma grande lição existencial: vem com o tempo, com os cabelos brancos.

Os mais velhos, em geral, já sabem o que querem para si próprios. Já conhecem instintivamente o seu ponto de ganho e o de perda, embora não tenham a expressão disso de modo tão conscientemente palpável, como se pudesse ler num livro. O tempo inevitavelmente traz aquilo que precisamos.

sábado, 2 de julho de 2011

Em defesa da solidão: lendo Montaigne

Acho que a característica fundamental pela qual sou identificado é o isolamento. Adoro me isolar das pessoas, estar só e em volta da natureza ou com outros animais que não o homem. E não preciso estar fisicamente distante das pessoas; até mesmo entre elas, em muitas vezes, permaneço só e distante. Nunca entendi ao certo esse meu estilo. E tenho a consciência de que 99% das pessoas à minha volta classificam-no de, no mínimo, estranho. Mas, felizmente, já estou vacinado contra os estranhamentos. Li, certa vez, um texto maravilhoso que jogou muita luz sobre esse meu estilo. É um pequeno e saboroso escrito de Michel de Montaigne, publicado em seus Ensaios, intitulado Sobre a solidão.

Michel de Montaigne fez muito do que faço habitualmente. Para escrever seus Ensaios, retirou-se para suas terras na localidade de Montaigne e sozinho, fora da turbulência de centros urbanos e dos barulhos da Corte francesa, foi contemplar suas experiências. Sobre a solidão é, sem dúvida, a expressão de atitudes que deram origem aos Ensaios como um todo; exprime, digamos, o método de concepção da obra. Mas mostra também muito do estilo existencial de Montaigne em si, o de um verdadeiro filósofo em busca da vida contemplativa, de conhecer a si mesmo e aos outros por uma observação consciente de gostos e escolhas, ainda que não se furte a experimentar as boas coisas que a vida naturalmente oferece. Também afinal de contas, contemplar, em última análise, é apenas precisamente participar do mundo; de outra forma e por outros meios, mas participar.

A opinião dita em Sobre a solidão é a de que devemos sempre ter um cantinho para nos isolarmos; é preciso afastarmo-nos espiritualmente do mundo. Não significa que devamos nos tornar eremitas, mas apenas ter sobre o horizonte de nossos olhos o distanciamento como forma de participação, como forma de verdadeiramente estar no mundo.


“Não é que o sábio não possa viver feliz em qualquer lugar, e nem mesmo sozinho na multidão de um palácio; mas, se puder escolher, dela fugirá, até da vista, diz Bias. Suportará aquilo, se for preciso, mas, se puder, escolherá isto.”

Não basta o afastamento, físico ou espiritual; isso não traz a verdadeira paz de espírito que um sábio busca ao se isolar de seu mal; mudar de paisagem não resolve a questão. “Assim como num navio as cargas estorvam menos quando estão bem calçadas”, não basta movermo-nos de nosso lugar se a carga ainda continua pesando e, de tão “solta”, pelo balanço, pode destruir o seu armazém. É preciso, para nos entregarmos à solidão, remover de nós os “atributos do povo” que nos prendem aos grilhões do orgulho, da luxúria, da imprudência. É um ato de purificar o coração.

Além de uma dispensa da companhia de outros, a solidão é uma libertação. Estar só é um meio de conquistarmos nós mesmos, de agir conforme nossas necessidades e gostos de forma independente e verdadeiramente prazerosa, porque, acima de tudo, a felicidade e o prazer são possíveis em nós mesmos. Quanto a isso, Montaigne mostra toda sua sensatez singelamente sábia:


“Ora, já que decidimos viver sós e dispensar companhia, façamos com que nosso contentamento dependa de nós: libertemo-nos de todos os laços que nos prendem aos outros, conquistemos de nós mesmos o poder de viver sós, em conhecimento de causa, e assim vivermos a nosso gosto.”

Quando um homem tem a si mesmo, diz Montaigne, jamais se perderá por completo, ainda que seus bens e riquezas, mulher e filhos também se forem. Isso se e somente se tiver um bom entendimento do que ele é, um entendimento existencial propriamente dito:


“É preciso ter mulheres, filhos, bens e sobretudo saúde, se possível, mas não se apegar a eles de maneira que nossa felicidade disso dependa. É preciso reservar um canto todo nosso, todo livre, e lá estabelecer nossa verdadeira liberdade e nosso principal retiro e solidão. Aí devemos praticar nossa conversa habitual, de nós para nós mesmos, e tão privada que nenhum convívio ou comunicação com as coisas externas encontre espaço: discorrer e rir, como se sem mulher, sem filhos e sem bens, sem séquito, sem criados, a fim de que, quando chegar o momento de sua perda, não nos seja novidade dispensá-los. Temos uma alma capaz de recolher-se em si mesma; ela pode se fazer companhia, tem com que atacar e com que se defender, com que receber e com que dar: não temamos nessa solidão embotar-nos em uma penosa ociosidade.”

As palavras de Montaigne acima são enfáticas e não solicitam acréscimos. Elas mostram simplesmente que a solidão não é esse mal, essa coisa abominável que o senso comum imagina. Demonstram um argumento muito vívido de que a felicidade é possível de outros modos. Subjugar o alcance dela à existência de objetos ou duma companhia é tornar nós mesmos seres insuportáveis em si. A dificuldade reside, portanto, na capacidade de amarmos a nós mesmos. Por que o silêncio é temido? Porque simplesmente as pessoas não se suportam. É preciso sabermos aproveitar qualquer momento, independentemente de estarmos ou não sós; sensibilidade é preciso.

A solidão é muito mal vista, esse é o fato. Isso sem dúvida deriva bastante de nossa cultura ocidental latina, em que o normal é um sujeito sorridente, que fala alto, tem casa, esposa e filhos, e está sempre na balada, nas festas, nas “curtições”. Tudo o mais é bizarro, estranho, diferente.

Nós somos “eus” ambulantes; nada mais que isso. Gostos, pensamentos, ações: tudo isso é de cada um, cada um tem algo disso que lhe é próprio, só seu. Só a si mesmo faz sentido a satisfação. A percepção de individualidade é muito real e natural, na medida em que, em termos naturais ou biológicos, a nossa satisfação vem antes, deve vir antes, por uma necessidade óbvia de autopreservação. E tudo isso não invalida o desejo ou necessidade pela vida social. A vida social é um complemento, é um adendo às necessidades do nosso “eu” que inevitavelmente vem antes. Relacionar-se com outros indivíduos é até mesmo não só um esforço nosso em relação ao mundo num sentido altruísta, mas é algo que o mundo nos impõe como necessidade nossa, tendo em vista que a coletividade se preserva mais quando unida. Pois átomos separados só tendem ao choque mútuo, à destruição mútua.

Vejo no ensaio de Montaigne algo além de seu conteúdo. A mim, todas as suas palavras sobre a solidão fazem muito sentido, porque sinto, por minha experiência própria, o valor e o alcance que elas carregam. Longe de uma atitude antimoralista, anticristã ou anti-social, encaro a solidão apenas como a suposição de algo que nos aproxima muito dos animais de um modo geral; afinal, em última análise, somos apenas isso. Não que eu queira atrelar aos outros animais e a nós características do que o senso comum entende erroneamente por “gene egoísta”; a empatia e a sociabilidade são características visíveis no mundo animal, diz o autor de A era da empatia, Frans de Waal. E essas, obviamente, são também características nossas. Mas uma coisa não interfere na outra. A solidão não é a expressão de ausência de empatia ou de sociabilidade; é muito diferente disso: é apenas a expressão de uma escolha consciente e sensível de que as coisas no mundo podem ser, e constantemente são, aproveitadas de outros modos, se soubermos reconhecer que a felicidade é algo que se pode alcançar sem muito esforço.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

|Lição de História

Menocchio è, possiamo dire, un nostro antenato. Ma Menocchio è anche il frammento sperduto, giuntoci casualmente, di un mondo oscuro, opaco, che solo con un gesto arbitrario possiamo ricondurre alla nostra storia. Quella cultura è stata distrutta. Rispettare in essa il residuo d’indecifrabilità che resiste a ogni analisi non significa cedere al fascino idiota dell’esotico e dell’incomprensibile. Significa semplicemente prendere atto di una mutilazione storica di cui in un certo senso noi stessi siamo vittime. “Nulla di ciò che si è verificato va perduto per la storia”, ricordava Walter Benjamin. Ma “solo all’umanità redenta tocca interamente il suo passato”. Redenta, cioè liberata.


Carlo Ginzburg|


Menocchio é, podemos dizer, um antepassado nosso. Mas Menocchio é também o fragmento perdido, atingido por acaso, de um mundo obscuro, opaco, que apenas com um gesto arbitrário podemos trazer de volta à nossa história. Essa cultura foi destruída. Respeitar o resíduo de indecifrabilidade que nela resiste a qualquer análise não significa sucumbir ao fascínio idiota do exótico e do incompreensível. Significa simplesmente levar em conta uma mutilação histórica da qual, em certo sentido, nós mesmos somos vítimas. “Nada do que ocorreu está perdido para a história”, lembrava Walter Benjamin. Mas “só à humanidade redimida o seu passado pertence plenamente”. Redimida, quer dizer, liberada.

sábado, 18 de junho de 2011

Paredão

Um mês, quinze dias, uma semana, uns dias, amanhã, hoje, agora. E o tempo passa. Na verdade, ele chega. Aquele tempo, o momento último, ele chega; chegou, está à frente de minha testa. O vão de dias, de horas, de tempo, escorre, ele é líquido, flácido e escorregadio como os relógios de Dalí. É rápido, instântaneo, e persistente, inexorável. Ele é o momento da caça, do farejo, do suor deslizando pelo rosto, do ar arrebentando pelas narinas. É o momento da caça, dos sentidos à flor da pele: tudo podemos tocar, tudo é sensível, tudo tem sabor, cheiro, ruído, cor, textura.

A sensação de final é repleta de sensações. Coisas simples, simples coisas que a desatenção cotidiana negligenciou, fez de conta que não existia. A apreensão de tempo torna-se aguçada, e tudo passa rapidamente sob a vista aflita pela imprevisibilidade do que vem. Tudo pode vir, tudo é possível, quando a existência das coisas do mundo, transitórias coisas, estão visíveis e sensíveis como nunca antes. Simples coisas de antes são milagres aos olhos atentos: ora, veja só, sai água da torneira!

Eu estou no paredão. É, no paredão de fuzilamento. Não há escapatória, não há mais volta, só futuro, só tempo que vem inevitavelmente. E tempo que vem a toda hora, sem parar, e totalmente visível. Qualquer segundo que passa é uma eternidade. Falta quanto tempo? Quando é a hora? Cadê a hora? E depois da hora?

O depois: futuro sem sentido, sem contorno, sem textura. Só a Deus ele pertence... Essa é a razão da aflição. Ninguém sabe ou poderia saber o que vem por aí. Destino incerto, que requer olhos atentos, instintos à mil, afinal tudo torna-se possível, tudo pode acontecer. É preciso estar atento, o perigo ronda, fareja, e nós somos a sua caça. É preciso ver o que vem por aí.

Mas tem algo de bom nisso tudo. Ferris Bueller nos ensina: é o fogo intenso pela curtição. Falta algum tempo –é a única certeza que se tem. É preciso aproveitá-lo, vivê-lo. Por que o lamento pelo fim, pela transição, pelos instantes decisivos? Não faz sentido e não é bom. O desperdício é a saída para corações vazios de sentido, ocos de desejo e determinação. Nada está perdido enquanto há tempo para se experimentar; enquanto o tempo existe. Não se pode ter pressa, mas também não se pode perder tempo. E o melhor remédio ao paredão é apenas aquilo que nos resta: carpe diem!

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Inteligência

Uma das maiores torturas psicológicas crônicas pelas passei e passo é o estigma da inteligência. Familiares, professores, colegas: sempre ouvi de toda essa gente, direta ou indiretamente, a atribuição de “inteligente”. Meus óculos e cabelo preto e liso sobre a testa também sempre ajudaram muito nisso; além do meu prazer pela leitura e pelo autodidatismo, que são coisas de fato incomuns. O que me conforta é saber que sempre soube o que eu sou, quais os meus limites e minhas aptidões, embora em diversas ocasiões a vaidade tenha se revelado e, por sinal, me levado a um sofrimento realista necessário. Na Matemática, por exemplo, o fracasso sempre foi o resultado; rapidez também nunca fez sentido para mim na prática do aprendizado –sempre fui lento e cauteloso, porém seguro, demais daquilo com o que lidava. Essa, de fato, é uma característica minha: o cuidado, a seleção, a segurança. Por isso, sou um sujeito muito cético: dificilmente acredito naquilo com qual não tenho ou não tive algum contato efetivo, alguma relação de conhecimento/compreensão real, alguma experiência. Esta, na verdade, é a palavra-chave: conhecimento é resultado de experiência –no sentido para a Educação de John Dewey, de lições oriundas do mundo prático, do mundo onde encontramos uma certeza, um real, que guardamos inevitável e inexoravelmente. Experiências são lições que se guardam, fruto de um teste, de uma prova, de uma prática propriamente nossa, daquilo que nós mesmos vivemos, sentimos, além de serem o próprio experimento, a própria prática; são o processo e o resultado. O sentido do “resultado” é o mais valioso aqui.

Inteligência: ao contrário do sentido atemporal a que se atribui pelo senso comum, ela nada mais é do que um resultado; ou melhor: resultado dum resultado, resultado do resultado do contato com um objeto a ser conhecido. Inteligência é uma conduta, é uma forma de agir perante o bom conhecimento duma coisa ou circunstância. Só podemos agir inteligentemente quando sabemos quais são os reflexos objetivos de tal ou qual ação tendo em vista uma coisa ou circunstância. Saber implica experiência –o processo e o seu resultado, a lição. Isso explica muito da inevitável condição a que sempre fui submetido: inteligente é aquele que estuda, que conhece a matéria, a coisa, porque com isso saberá chegar a conclusões objetivas, acertadas. E a atitude comumente identificada com o ritual do “estudar”, isto é, o autodidatismo, a leitura, o prazer literário, não pode ser considerada além do ato de “estudar” em si, pois é incomum, poucos preferem ela às atividades esportivas ou mais lúdicas, por exemplo. Essa atitude, o meu pecado inevitável, meu mal involuntário, minha característica “socialmente” impressionante, gestou em minha identidade a pose dos sábios.

A inteligência enquanto coisa em si e natural não existe; isso é ilusão de naturalistas. O que pode haver de natural numa pessoa é a facilidade ou rapidez quanto ao aprendizado duma coisa ou circunstância e/ou quanto às reações a uma coisa ou circunstância. Nunca fui rápido como os geminianos; sempre fui lento como os virginianos; e minha condição de “inteligente” sempre foi um orgulhoso tormento aos meus ouvidos, tamanhas suas inevitáveis responsabilidades. O resultado político disso tudo é muito forte: inteligência está ao alcance de todos, se e somente se observada uma disposição ao “conhecer” do mundo. Não importa se lento ou rápido, aquilo que define a inteligência é a certeza do que se faz, é saber jogar adequadamente um jogo porque se conhece as regras, porque se conhece seu funcionamento, sua matéria. Os superdotados ou os deficientes são justamente o que são, sem sentimentalismos: tem ou não, conforme sua predisposição natural, uma ampla ou reduzida facilidade ou rapidez na sabedoria de coisas ou circunstâncias. Rapidez e lentidão não são virtudes ou problemas, mas apenas propensões diferentes; sem tirar nem pôr.

Tudo isso que disse acima desemboca numa lição, num axioma, numa verdade que tenho observado na vida ultimamente: inteligência requer conhecimento.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Às bases do iceberg

Aqui estou, que coisa maravilhosa! Nunca achei que um dia teria a força que tive; sempre adiei: um dia, quem sabe... Sinto como nunca antes a circulação em meu corpo, uma leveza espiritual que me leva aos céus sem precisar de ventos. Ah, que coisa engraçada... Tão simples, tão fácil, tão perto, e a coisa nunca foi para frente. Tolice, malvada tolice. Rasguei meu peito, está à vista por dentro. Coisa linda! Coração pulsa, bate, explode coração. É rock in roll, é calor, é fogo, é destemido espírito guerreiro. De onde veio tudo isso, essa força? Não sei. Talvez sempre esteve muito próximo do que jamais pude imaginar, ou quis aceitar. É, sim... Sempre esteve aqui. Eu é que sempre fiz vista grossa, como se as coisas devessem ser de um jeito, quando na verdade sempre seguiram seu rumo. Essa força sempre existiu, de forma latente, pronta para explodir a qualquer momento. Só bastou que eu visse a verdade sob meus olhos, os exemplos que saltavam. Quanta ignorância! Ignorei a mim mesmo, como se fosse possível se contentar com a ficção das roupas. Seja lá o que foi isso, foi bom, está sendo bom. Posso dormir em paz, em relativa paz, com o espírito leve, livre, solto. Na verdade, sempre tive consciência do que estava fazendo, sempre soube o que a coisa verdadeiramente era. O que sempre faltou foi um estopim, uma faísca para a coisa incendiar e revelar seu brilho a todos. Apesar de muito mudar, as coisas parecem as mesmas agora. A verdade é que nada mudou, tudo continua. Talvez a diferença esteja apenas no fato de que as coisas estão, agora, à vista, com a pura simplicidade desvelada. Nada mudou: coisa mais estranha, mais diferente, imprevisível. Essa é a verdadeira natureza das coisas: são e simplesmente são, sem mais nem menos, sem rodeios, sem confusão de igual ou diferente. Uma óbvia aceitação, sem resistência, sem dificuldade. É a visão mais límpida da possibilidade das coisas; simples e honesta possibilidade, antes escondida sob as águas turvas e gélidas da superfície.

domingo, 27 de março de 2011

Inteligente passividade

As coisas são assim, o mundo é assim, as pessoas são assim. São? Prefiro o estão –é mais literal. Estar é se submeter, é se adaptar, é cumprir exigências de fora, é renunciar a um eu sob um manto espesso de aparências. Estar é a mais pura constatação de inteligência, de saber usar as coisas à nossa preservação, à nossa manutenção. É a mais visível e oportuna escolha diante de nossos olhos. Por que, então, não estar?! Ele é necessário, mas não o suficiente. Essa é a questão: a insuficiência do estar leva-nos ou impõe-nos uma necessidade de ser, de reafirmar às vezes o que há de mais humano em nós. É que simplesmente cansamos... Estar é a retenção do ser em nós mesmos, um meio de colocar falsas amarras nos instintos que fluem em nossas veias, como se isso fosse necessário para a existência de certas ficções irrenunciáveis. Ora, há maior ficção do que a vida social?! E a vida social requer, antes de qualquer coisa, que controlemo-nos, que bloqueemos nossos impulsos em nome de um princípio de comunidade, de convivência múltipla. Para isso, criou-se o que chamam de educação, de regras e protocolos tácitos ou não sobre a interação entre indivíduos. E é isso. Assim deve ser. Aquilo que deve ser nem sempre é aquilo que é; ou melhor, aquilo que está. A ficção da vida social é clara quanto a seu intento: conviver –viver com. É isso que deve ser, deve existir. Mas o que é realmente isso?? A pergunta é retórica. Cadê o viver com?? Desapareceu, ou, ao menos, não há... As coisas estão assim, o mundo está assim, as pessoas estão assim. Assim está. Dito isso, o que importa se assim está? Nada importa se ao nosso mundo isso não faz sentido. E esse mundo, o nosso mundo, aquele que diz respeito somente a nós, é justamente aquele que temos todo o controle. Nesse mundo é que podemos intervir diretamente, transformá-lo ou não conforme aquilo que deve ser. E por que não fazê-lo? As exigências de fora estão num mundo de dimensões muito grandes, imensuravelmente fictícias. Não temos controle sobre esse mundo e qualquer tentativa direta sobre ele será falível de total descrédito. Por isso, o nosso mundo é aquele de maior segurança, de maior certeza, de maior chance de ser. Aqui, há uma dose de inteligência, de jogo, de sacação, mas ela é regada por sábias escolhas de um mundo possível. Um mundo possível e bom demais para nós e aqueles que estão em nossa volta. É desse mundo que temos controle e é ele, ao menos, que deve existir. Através dele, simplesmente podemos viver com. Amarras? Pra que isso? No fundo, nós somos as coisas, nós somos o mundo, nós somos as pessoas... Tudo isso está como está, porque renunciamos desde há muito a nós mesmos.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O hino do século XX

(I Can't Get No) Satisfaction
Rolling Stones

I can't get no satisfaction
I can't get no satisfaction
'Cause I try and I try and I try and I try
I can't get no, I can't get no

When I'm drivin' in my car
And that man comes on the radio
He's tellin' me more and more
About some useless information
Supposed to fire my imagination
I can't get no, oh no no no
Hey hey hey, that's what I say

I can't get no satisfaction
I can't get no satisfaction
'Cause I try and I try and I try and I try
I can't get no, I can't get no

When I'm watchin' my TV
And that man comes on to tell me
How white my shirts can be
But he can't be a man 'cause he doesn't smoke
The same cigarrettes as me
I can't get no, oh no no no
Hey hey hey, that's what I say

I can't get no satisfaction
I can't get no girl reaction
'Cause I try and I try and I try and I try
I can't get no, I can't get no

When I'm ridin' round the world
And I'm doin' this and I'm signing that
And I'm tryin' to make some girl
Who tells me baby better come back later next week
'Cause you see I'm on losing streak
I can't get no, oh no no no
Hey hey hey, that's what I say

I can't get no, I can't get no
I can't get no satisfaction
No satisfaction, no satisfaction, no satisfaction

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Abrindo o jogo: sobre o Big Brother Brasil

Há onze anos no ar e é incrível como Big Brother Brasil continua a mesma coisa. Não lembro muito bem das primeiras edições. Naquela época, à flor da juventude, eu tinha o orgulho adolescente de querer ser diferente, e nutria certo preconceito contra BBB. Mas, ainda assim, assistia; só pra depois criticar e taxar os participantes disso e daquilo, mas assistia. O fato é que acabei assistindo a todas as edições, e não tenho notado diferenças visíveis entre todas elas. Continua a mesma coisa. Que coisa? O Big Brother de sempre: Pedro Bial, participantes saradões, choro aqui, briga acolá, putaria, charges sem graça do Maurício Ricardo, etc., etc. Sem falar nos mantras pra ganhar o milhão: “Eu sou sincero”, “As máscaras vão cair”, “Odeio falsidade”, “Eu to aqui pra jogar”, etc., etc. E eu ainda assisto a Big Brother...

Quanto tédio em todos esses anos, não? Que nada! A cada ano, a coisa é sempre a mesma, e às dez e pouca da noite sempre estou à frente da tv. E assisto do primeiro ao último episódio –não compulsivamente, como através de pei per viu e globopontocom, mas o pouco suficiente da tv. E, obviamente, não me sinto um alienígena por isso, afinal até os pseudo-intelectuais são os primeiros a assistirem, embora amem fazer o que eu fazia na adolescência: assistir só pra criticar. É o gozo da crítica pela crítica.

O que faz o BBB ser o que é, além de nádegas, peitos e bíceps interessantes, é aquilo que vemos nos discursos sem graça que o Bial adora fazer no dia do Paredão, que ninguém entende, inclusive os Brothers: o “jogo aberto”. De fato, Pedro Bial não nasceu pros picadeiros, assim como qualquer outro ariano; nem pra doce ilusão dos poetas –os discursos dele em nada são poéticos, além das formas, além das figuras de linguagem. São secos, emitem, antes de qualquer coisa, um óbvio, um impensado (in)visível da realidade. São cheios de conteúdo, de coisas que estão à frente dos olhos dos Brothers e, por isso mesmo, não são vistas. Afinal, não são coisas a se ver, pois cedem ao simples fascínio da experiência muda, constante e seletiva do cotidiano. É, apenas, um “jogo aberto”, um “papo-cabeça”, onde não há margem pro “disse-me-disse”. E os Brothers sempre se fu... Porque, supostamente, prestam mais atenção no jogo em si, no duelo pelo milhão. Mas jogar é dar murros no vazio, se não se conhece o jogo.

O “jogo aberto” é o segredo do BBB, que faz com que eu, e a torcida do flamengo, assista a esse cacete todos os anos. As câmeras mostram, denunciam... Certamente há “disse-me-disse”, mas, ali, tudo está mais amostra. E isso serve como espelho: é, simplesmente, olhar para aquilo que não queremos ver em nós mesmos, porque observá-lo destruiria a referência de nosso centro, nossa caixa-preta, que nada mais é do aquilo que somos e fazemos e, por isso, concebemos como o correto, o modelo de comportamento. O “jogo aberto” é o escancarar de portas, de dobradiças gastas e enferrujadas e que, mesmo rangendo, devem ser abertas, pois quando isso acontece os discursos do Bial ficam mais inteligíveis e nós ficamos torcendo pra a novela das nove terminar. Nós gostamos de nos olhar, mas sem encararmos nós mesmos como o alvo.

Aí está uma lição, daquelas do Bial: abramos mais o nosso próprio jogo.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Uma história de balcão de copiadora

Num dia desses, fui a uma loja de fazer cópias para imprimir alguns textos da faculdade. Era uma loja qualquer, e o dia também era qualquer. Ao esperar a atendente trazer os textos impressos, meus olhos ficaram perdidos, observando o ambiente. E ali, debaixo do meu nariz, havia algo curioso. O balcão da loja era de vidro e sob ele encontrava-se um texto impresso, fixado por fita adesiva, cuidadosamente colocado para que os clientes pudessem lê-lo. Ora, deve ser mais uma dessas histórias tolas de boteco, que se discute e só se dá atenção quando se está demasiadamente fragilizado por conta do amor e pela Bavária. Mas, ainda assim, comecei a ler.

O início advertia com uma mensagem escrita pela pessoa que afixou aquilo ali. Dizia, com outras palavras de que não me lembro, que era a história mais bela até então conhecida por aquela pessoa, e por isso a exposição no balcão; havia retirado da internet.

Não lembro dos pormenores, mas do geral. O texto contava a história de um homem que sempre havia tido muito pouco contato com a mãe. Cedo foi construir sua própria família, deixando a mãe onde sempre morou. Quase não a procurava. Só quando a idade chegou, isto é, depois de muito tempo da situação permanecer assim, resolveu dar o primeiro passo. Num momento súbito, já tarde da noite, ele telefona para a mãe. Ela acha aquilo muito estranho e duvida se tudo está bem. O fato é que ele apenas queria convidá-la para um jantar só deles. Ela aceita imediatamente, e marcam o encontro. No dia, ela aprontou-se toda, com a melhor roupa, e foram juntos ao restaurante. De braço dado a ele, ela ia como a primeira-dama, orgulhosa e feliz. O restaurante escolhido não era qualquer; possuía todo um ambiente acolhedor, aconchegante, propício para um verdadeiro jantar a dois. Aquilo foi um dos momentos mais íntimos dos dois, cuja felicidade fora tão contagiante, verdadeira e profunda, que se esqueceram simplesmente de comer. Sob risos e conversas infindáveis, o tempo passava... Logo após, cada um foi para o seu lugar, sem esquecerem de fato o que havia sido aquele jantar. Dias depois, o inesperado acontece. Já idosa, a mãe sofre um infarto súbito e morre.

O texto terminava com uma lição de arrependimento por aquilo que poderíamos ter feito e não fizemos a tempo. O homem se arrependia de não ter aproveitado outros momentos, como aquele, com a mãe. E dizia que precisamos dar atenção às pessoas que mais amamos, aproveitando todos os momentos possíveis.

Devo dizer que era um texto bonito e capaz de nos incitar à reflexão sobre a vida. Mas confesso que não gostei do final; é muito depressivo. Certamente, o problema está na noção de aproveitamento de momentos possíveis da vida. Baseia-se, também, num ato implícito de trazer a nós mesmos responsabilidades sobre as quais não temos controle, e que, portanto, não deve constituir-se em sofrimento para nós. Serei cuidadoso em me explicar, mas já estou acostumado em ser incompreendido; os librianos são (e digo com toda a segurança do mundo!) as criaturas mais incompreendidas, talvez pela constância aparentemente inconstante de seus pensamentos.

O jantar do homem com sua mãe foi algo extremamente agradável. Fizeram simplesmente algo que jamais haviam feito. Eles partilharam felicidade e amor. Na verdade, aquele gesto tomado pelo rapaz foi uma verdadeira declaração de amor pela mãe. E ela soube reconhecer, aceitando imediatamente o convite; ao final, aquilo revelou-se uma verdadeira declaração mútua. Aquele momento foi o mais especial e incrível da relação que havia entre os dois. Aquele momento foi pleno, constante, cheio de atitudes e sentimentos verdadeiros. Foi o ápice de uma história de mãe e filho. Isso foi um fato.

Dito tudo isso, olhemos para outra coisa: por que o martírio do homem? Por que ver o passado de possibilidades não praticadas como fonte de sofrimento? Coloquemos os pés no chão; e isso não supõe ausência de sensibilidade. Certamente, houve mais que atitudes impensadas ao se criar uma relação como a que se firmou entre o homem e a mãe. O texto não mencionava nada, pelo que me lembro, sobre todos os verdadeiros motivos que levaram àquela relação. Em todo caso, em muitas situações com as quais estamos acostumados o “a mais” que ocasiona uma relação distanciada é reflexo multilateral.

No fundo, por uma série de motivos muito além daqueles que estão sob as mãos de qualquer um dos dois, a relação deles dois era chata, maçante, e insuportável no dia-a-dia. Não possuíam uma afinidade natural, quanto a gostos, pensamentos, ações, etc., que encontramos em razoável medida nas parcerias amorosas. Sob circunstâncias de pouca reflexão de ambas as partes, essa falta de sintonia natural entre pais e filhos, se transforma num monstro insuportável para ambas as partes. É fundamental olharmos para o contexto; ele é a verdadeira razão de nossas escolhas. Escolhas que qualquer ser vivo faz e de que é o único responsável. Quando de fato assumimos escolhas, de forma consciente e com respeito, não há sofrimento. Há, sem dúvida, a vontade de que as coisas fossem diferentes; mas ser diferente não é uma responsabilidade unilateral, ainda que a vontade seja; depende das escolhas que outras pessoas também fazem a si mesmas. E tudo isso se resume, em última análise, a uma questão de respeito: de respeito pelas escolhas do outro, sabendo aceitá-las e não investindo nós mesmos de toda a responsabilidade sobre o mundo.

Não trazer todas as responsabilidades para nós, mas partilhá-las e sermos felizes com o real aproveitamento de qualquer circunstância: aí está o real motivo pelo qual não gostei do final do texto. O homem, na realidade, chamou para si todas as responsabilidades sobre a sua relação com a mãe. Isso é sofrimento sobre sofrimento. Coloquemos os pés no chão! Se as escolhas foram pensadas e, antes de qualquer coisa, conscientes, não há motivo para vermos o passado como fonte de sofrimento. E, mesmo que ele tivesse sido o mais inconsequente dos aborrecentes, nada justifica viver em sofrimento; isso não é sensato. É ruim para nós, e sem qualquer sentido. Não adianta chorarmos pelo leite derramado; bola pra frente! Além do mais, aquele jantar entre mãe e filho foi o suficiente, foi a expressão mais singela e verdadeira de que eles se amavam; ponto final. Foi o necessário para eles serem felizes juntos, ao menos num instante de sua relação. É preciso saber sentir e viver profundamente o sabor de quaisquer experiências, mesmo que sejam únicas.

O “bola pra frente” pode soar como um superficial “foda-se”, mas não é. É exatamente o contrário: a consciência de que devemos ser felizes é o reflexo de que irrenunciavelmente devemos fazer escolhas e, apenas, reconhecer que nem tudo está ao nosso alcance. Ademais, o não-lamento é a pura expressão de que o segredo da vida é mais simples do que imaginamos, se soubermos sentir o agora e ver o que está sob nossos olhos. É preciso saber viver, diz o Rei...