sábado, 10 de maio de 2014
Vida do espírito
Em A contrapelo (1884), de Huysmans, o principal documento desse esteticismo antinatural e antiprático, a substituição da vida prática pela vida do espírito é realizada de forma ainda mais completa. Des Esseintes, o famoso herói do romance, protótipo de todos os Dorian Grays, isola-se tão hermeticamente do mundo que não se atreve sequer a fazer uma pequena viagem, temendo ser decepcionado pela realidade. É o mesmo subjetivismo paralisante, destruidor da vida, que encontra expressão no tédio do esteta com a natureza. "A natureza", diz Des Esseintes, "é passado; esgotou finalmente a paciência de todos os espíritos sensíveis pela abominável monotonia de suas paisagens e céus." Para tais espíritos só existe um caminho: tornar-se totalmente independentes e substituir a natureza pelo espírito, a realidade pela ficção. Têm de entortar tudo o que é retilíneo e dobrar todos os instintos e inclinações naturais em seus opostos. Des Esseintes vive em sua casa como num mosteiro, não visita nem recebe ninguém, não escreve nem recebe cartas, dorme durante o dia e, durante a noite, lê e entrega-se a fantasias e especulações; cria seus próprios "paraísos artificiais" e renuncia a tudo o que delicia os mortais comuns. Inventa sinfonias em cores, aromas, bebidas, flores artificiais e jóias raras; pois os instrumentos de sua acrobacia espiritual devem ser raros e dispendiosos. Natural, barato, insípido e plebeu são sinônimos em seu vocabulário.
(HAUSER, Arnold. História social da arte e da literatura. Trad. Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 2003, pp. 912-913.)
(HAUSER, Arnold. História social da arte e da literatura. Trad. Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 2003, pp. 912-913.)
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