terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Uma história de balcão de copiadora

Num dia desses, fui a uma loja de fazer cópias para imprimir alguns textos da faculdade. Era uma loja qualquer, e o dia também era qualquer. Ao esperar a atendente trazer os textos impressos, meus olhos ficaram perdidos, observando o ambiente. E ali, debaixo do meu nariz, havia algo curioso. O balcão da loja era de vidro e sob ele encontrava-se um texto impresso, fixado por fita adesiva, cuidadosamente colocado para que os clientes pudessem lê-lo. Ora, deve ser mais uma dessas histórias tolas de boteco, que se discute e só se dá atenção quando se está demasiadamente fragilizado por conta do amor e pela Bavária. Mas, ainda assim, comecei a ler.

O início advertia com uma mensagem escrita pela pessoa que afixou aquilo ali. Dizia, com outras palavras de que não me lembro, que era a história mais bela até então conhecida por aquela pessoa, e por isso a exposição no balcão; havia retirado da internet.

Não lembro dos pormenores, mas do geral. O texto contava a história de um homem que sempre havia tido muito pouco contato com a mãe. Cedo foi construir sua própria família, deixando a mãe onde sempre morou. Quase não a procurava. Só quando a idade chegou, isto é, depois de muito tempo da situação permanecer assim, resolveu dar o primeiro passo. Num momento súbito, já tarde da noite, ele telefona para a mãe. Ela acha aquilo muito estranho e duvida se tudo está bem. O fato é que ele apenas queria convidá-la para um jantar só deles. Ela aceita imediatamente, e marcam o encontro. No dia, ela aprontou-se toda, com a melhor roupa, e foram juntos ao restaurante. De braço dado a ele, ela ia como a primeira-dama, orgulhosa e feliz. O restaurante escolhido não era qualquer; possuía todo um ambiente acolhedor, aconchegante, propício para um verdadeiro jantar a dois. Aquilo foi um dos momentos mais íntimos dos dois, cuja felicidade fora tão contagiante, verdadeira e profunda, que se esqueceram simplesmente de comer. Sob risos e conversas infindáveis, o tempo passava... Logo após, cada um foi para o seu lugar, sem esquecerem de fato o que havia sido aquele jantar. Dias depois, o inesperado acontece. Já idosa, a mãe sofre um infarto súbito e morre.

O texto terminava com uma lição de arrependimento por aquilo que poderíamos ter feito e não fizemos a tempo. O homem se arrependia de não ter aproveitado outros momentos, como aquele, com a mãe. E dizia que precisamos dar atenção às pessoas que mais amamos, aproveitando todos os momentos possíveis.

Devo dizer que era um texto bonito e capaz de nos incitar à reflexão sobre a vida. Mas confesso que não gostei do final; é muito depressivo. Certamente, o problema está na noção de aproveitamento de momentos possíveis da vida. Baseia-se, também, num ato implícito de trazer a nós mesmos responsabilidades sobre as quais não temos controle, e que, portanto, não deve constituir-se em sofrimento para nós. Serei cuidadoso em me explicar, mas já estou acostumado em ser incompreendido; os librianos são (e digo com toda a segurança do mundo!) as criaturas mais incompreendidas, talvez pela constância aparentemente inconstante de seus pensamentos.

O jantar do homem com sua mãe foi algo extremamente agradável. Fizeram simplesmente algo que jamais haviam feito. Eles partilharam felicidade e amor. Na verdade, aquele gesto tomado pelo rapaz foi uma verdadeira declaração de amor pela mãe. E ela soube reconhecer, aceitando imediatamente o convite; ao final, aquilo revelou-se uma verdadeira declaração mútua. Aquele momento foi o mais especial e incrível da relação que havia entre os dois. Aquele momento foi pleno, constante, cheio de atitudes e sentimentos verdadeiros. Foi o ápice de uma história de mãe e filho. Isso foi um fato.

Dito tudo isso, olhemos para outra coisa: por que o martírio do homem? Por que ver o passado de possibilidades não praticadas como fonte de sofrimento? Coloquemos os pés no chão; e isso não supõe ausência de sensibilidade. Certamente, houve mais que atitudes impensadas ao se criar uma relação como a que se firmou entre o homem e a mãe. O texto não mencionava nada, pelo que me lembro, sobre todos os verdadeiros motivos que levaram àquela relação. Em todo caso, em muitas situações com as quais estamos acostumados o “a mais” que ocasiona uma relação distanciada é reflexo multilateral.

No fundo, por uma série de motivos muito além daqueles que estão sob as mãos de qualquer um dos dois, a relação deles dois era chata, maçante, e insuportável no dia-a-dia. Não possuíam uma afinidade natural, quanto a gostos, pensamentos, ações, etc., que encontramos em razoável medida nas parcerias amorosas. Sob circunstâncias de pouca reflexão de ambas as partes, essa falta de sintonia natural entre pais e filhos, se transforma num monstro insuportável para ambas as partes. É fundamental olharmos para o contexto; ele é a verdadeira razão de nossas escolhas. Escolhas que qualquer ser vivo faz e de que é o único responsável. Quando de fato assumimos escolhas, de forma consciente e com respeito, não há sofrimento. Há, sem dúvida, a vontade de que as coisas fossem diferentes; mas ser diferente não é uma responsabilidade unilateral, ainda que a vontade seja; depende das escolhas que outras pessoas também fazem a si mesmas. E tudo isso se resume, em última análise, a uma questão de respeito: de respeito pelas escolhas do outro, sabendo aceitá-las e não investindo nós mesmos de toda a responsabilidade sobre o mundo.

Não trazer todas as responsabilidades para nós, mas partilhá-las e sermos felizes com o real aproveitamento de qualquer circunstância: aí está o real motivo pelo qual não gostei do final do texto. O homem, na realidade, chamou para si todas as responsabilidades sobre a sua relação com a mãe. Isso é sofrimento sobre sofrimento. Coloquemos os pés no chão! Se as escolhas foram pensadas e, antes de qualquer coisa, conscientes, não há motivo para vermos o passado como fonte de sofrimento. E, mesmo que ele tivesse sido o mais inconsequente dos aborrecentes, nada justifica viver em sofrimento; isso não é sensato. É ruim para nós, e sem qualquer sentido. Não adianta chorarmos pelo leite derramado; bola pra frente! Além do mais, aquele jantar entre mãe e filho foi o suficiente, foi a expressão mais singela e verdadeira de que eles se amavam; ponto final. Foi o necessário para eles serem felizes juntos, ao menos num instante de sua relação. É preciso saber sentir e viver profundamente o sabor de quaisquer experiências, mesmo que sejam únicas.

O “bola pra frente” pode soar como um superficial “foda-se”, mas não é. É exatamente o contrário: a consciência de que devemos ser felizes é o reflexo de que irrenunciavelmente devemos fazer escolhas e, apenas, reconhecer que nem tudo está ao nosso alcance. Ademais, o não-lamento é a pura expressão de que o segredo da vida é mais simples do que imaginamos, se soubermos sentir o agora e ver o que está sob nossos olhos. É preciso saber viver, diz o Rei...