Há muitas formas de se xingar alguém. A mais comum, é claro, é dizendo com todos os fonemas possíveis, em alto e bom tom. Mas isso é muito deselegante. As formas sutis são mais interessantes e têm resultados, muitas vezes, melhores. Se bem que o próprio ato de xingar já é, por si mesmo, deselegante; por isso é preciso que se faça da maneira menos socialmente visível; que atinja somente o nosso alvo. E a sutileza em se xingar pode ser feita de vários modos. Porém, um deles me chama a atenção: através do olhar.
As pessoas se comunicam mais pelo olhar do que imaginam. Afinal, ele não é qualquer sentido; ele é o instrumento fundamental em nossa comunicação. Através dele mil e uma coisas podem ser “ditas” e “ouvidas”, sem muito esforço. Por ser um canal de comunicação, qualquer mensagem pode ser enviada ou recebida, até mesmo xingamento. O problema –como sempre!– está no fato de sua percepção. Não só de quem é o receptor, já que a raison d’être de uma piada é que seus ouvintes a entendam, mas também do próprio emissor: muitas vezes, as pessoas não têm consciência de que o estão fazendo, xingando alguém. Esse é um problema sério; mas não entremos nessa discussão. O ponto importante é: as pessoas podem xingar com o olhar, de forma tão límpida como com palavras ditas. Ora, como isso se dá?
Certamente aquilo que entendem como feição esnobe é mais do que um simples gesto de egocentrismo, de mitologizar aquilo que somos. Uma feição esnobe é uma forma de comunicar independência através de uma ofensiva, de uma agressão ao outro. Uma feição esnobe é, antes de tudo, um xingamento. É uma forma de dizer “dane-se você, não estou nem aí!” ou “vai se ferrar, seu bobão, não me olhe, me deixe em paz!”. Uma feição esnobe é composta por uma seqüência de gestos faciais: fechar os olhos ou direcioná-los rapidamente a um outro ponto, pôr a coluna ereta, virar bruscamente a cabeça e o pescoço, etc., etc.. Mas há um detalhe, muitas vezes, determinante para que o xingamento funcione plenamente: fazer uma careta retórica. A careta é fundamental! Com ela, se xinga qualquer um e muitos de uma vez só; até o mais tonto dos receptores saca o sentido da coisa. Com a careta podemos chamar o nosso pior e mais temível inimigo de “filho da puta”, sem dizermos uma palavra sequer. E mais: sem correr o risco que correríamos e sem a deselegância de xingar com palavras ditas. A careta de insatisfação tem um potencial retórico, de persuasão, fantástico.
Mas é preciso se ter cautela. Precisamos ser canalhas, meio cafajestes, quanto às escolhas dos nossos alvos; mas canalhas inteligentes, não tolos. O alvo não pode ser qualquer um e o tempo todo. Precisamos saber escolher as pessoas certas, somente as certas, no tempo certo. Xingar alguém com olhar é vicioso! Quando se pega o gosto pela coisa, largar é coisa por demais difícil. E aí mora um grande problema: acaba se xingando pessoas erradas em momentos certos. E reverter o xingamento é tarefa árdua demais. A cautela é o melhor remédio.
Afinal, o xingamento tem o seu momento certo e sua finalidade certa. O momento certo é quando é menos socialmente visível, quando o alvo está à nossa frente, só sendo ele atingível, ninguém mais; e quando percebemos que ele está vulnerável à nossa troça, quando, de fato, cairá nela. O intento do xingamento é muito simples: agredir. Só se agride quando se é agredido; só se destrói o inimigo quando ele está prestes a nos destruir. Agredir, por outro lado, não é também um título de nobreza, não é algo a ser desejado. É um mal necessário, sob circunstâncias específicas, muito específicas. A gratuidade da agressão é tão deselegante –para não dizer irracional– quanto o próprio ato de se agredir, ou de se xingar em si. Xingar com o olhar requer refinamento não só quanto à forma como se desenrola o ato em si, mas em saber o seu momento e propósito certos. É ter consciência de que se está fazendo algo, e de suas conseqüências. Precisamos ter cautela: ele é vicioso, assim como a vício do egocentrismo. Há pessoas que usam a careta de forma demasiada, porque confundem o joio com o trigo. A careta é, muitas vezes, usada erroneamente como instrumento de indiferença. Mas indiferença não é sinônimo de esnobismo ou de xingamento com o olhar. Indiferença é apenas uma escolha em não querer se comunicar diretamente com alguém, por esse alguém ter algo que não nos agrada; afinal, ninguém precisa ser amigo do mundo inteiro, e nem deve, porque a existência do contrário é sempre necessária na balança da vida. Essa escolha não pressupõe o uso do xingamento com o olhar. A indiferença, salvo sob circunstâncias específicas em que se queira torná-la, não é um xingamento. Confundir essas duas coisas é um erro maléfico. E como todo erro, ou acerto, tem o seu custo. É também preciso dizer que ao indiferenciado ou ao xingado a recíproca não é forçosamente verdadeira, não é necessária. Ter sido alvo de indiferença ou de xingamento não supõe que devamos fazê-lo em contrapartida. É necessário, diante disso, ter a consciência de respeito pela escolha alheia, sem ressentimentos. E quando digo isso, quero salientar que, como já dito, o mundo inteiro não é e não pode ser nosso amigo; há uma beleza maior à volta para se apreciar do que se ficar disputando com o outro a careta mais feia. A coisa é simples, aceitemo-la simples assim. Mais uma vez, o segredo é bastante elementar: sabedoria, uns diriam maturidade. Nada mais, nada menos.