sábado, 21 de fevereiro de 2015

Segunda criação

Em Gênesis, logo após a criação e o sopro em suas narinas, Deus atribuiu a Adão a tarefa de lavrar e guardar o jardim que Ele havia criado no oriente, no Éden, lhe ordenando também que não comesse do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, porquanto dos demais frutos do referido jardim pudesse comer livremente. Todavia, a solidão não era boa a Adão, e Deus lhe fez uma ajudadora idônea, Eva. Ambos, pois, habitavam o Éden, caminhavam nus e não se envergonhavam. Mas esse primeiro tempo teve fim quando a serpente convenceu Eva de que a morte não lhe afligiria, ao comer do fruto proibido, e ela seria como Deus, conhecedor do bem e do mal. Agradável aos olhos e desejável por conceder o entendimento, assim a árvore, como também os enganos da serpente, seduziu Eva. Eis o divisor de águas entre dois tempos: a escolha de Eva e de Adão os fez abrir os olhos, e eles conheceram que estavam nus. Imediatamente, coseram folhas de figueira, fazendo aventais para cobrir suas vergonhas. Fez-se, pois, a ira de Deus. E caiu sobre Adão, Eva, seus descendentes e a terra toda sorte de dificuldades, ao restarem alijados da bênção original. Expulsos do jardim do Éden, conheceram e escolheram, arrependendo-se Deus posteriormente de toda a criação, tamanha a maldade do homem na terra.
Neste relato em Gênesis há dois Adões e duas Evas: o vão entre eles foi aberto por um estado de escolha e não por uma condição imanente à criação, que, desde o princípio, por si mesma “era boa” aos olhos do Criador, tendo sido por Ele abençoada. O primeiro Adão e a primeira Eva constituíam a criação por si mesma, esse estado primário de brancura, de corporeidade latente, de matéria depurada. Constituíam um tempo original, a infância do corpo, ou melhor: o corpo em si mesmo, a matéria, a carne e espírito desprovidos de qualquer acervo de conhecimento. Só há aí um nível de construção: o da fisicalidade e espiritualidade primários do ser empírico, que é obra imediata do Criador. O “pó” e o “sopro nas narinas”, a matéria e o espírito que a anima, vividos em sua infância.  Porém, o segundo Adão e a segunda Eva, ainda que desvelem esta mesma corporeidade primária como fundamento latente, trazem como envoltório um segundo nível de construção, tão bem metaforizado nos seus aventais de folhas de figueira: o do conhecimento, o do produto refinado pelas mãos e pensamentos humanos, esse tempo do homem, da roupagem da cultura. Eis, portanto, a fonte original do pecado: o tempo em que o homem buscou costurar a sua própria roupa, o seu próprio mundo, desde que passou a possuir e desejar mais o conhecimento por trás da criação, e a fazer de si um novo criador.
Ora, quando Jesus, após jejuar durante quarenta dias e quarenta noites, fora tentado pelo Diabo no deserto, a única coisa que ele pôde de fato Lhe oferecer foram os “reinos do mundo, e a glória deles” (Mt 4:8): “(...) Tudo isto te darei, se prostrado, me adorares” (Mt 4:9). Eis a dimensão em que o Diabo manifestaria o seu poder: a segunda criação, o domínio criado pelos homens, o lugar e o tempo das criações humanas, esse lugar em que o conhecimento do bem e do mal e as escolhas (entenda-se: a ação consciente) pulsam e conquistam os olhos pueris. Eis o lugar e o tempo do pecado original. Certamente, ele não poderia oferecer a Jesus o domínio sobre a floresta amazônica ou os ecossistemas marítimos, e menos ainda sobre o jardim do Éden –e isto não é uma ironia. Afinal, o que de fato a serpente prometeu a Eva? Um outro tempo e lugar: tempo em que a humanidade, ao descobrir o conhecimento por trás da criação, poderia construir o seu próprio lugar, o seu próprio mundo –poderiam ser como o Criador. E Eva e Adão não puderam doravante habitar o jardim do Éden, pois não pertenciam mais ao jardim tal como os saguis continuam a pertencer à floresta amazônica ou as baleias aos mares. Não poderiam mais viver nus. A nudez da matéria e do espírito é o domínio da infância, da corporeidade pura da criação original, desprovida do acervo do conhecimento. Ambos conheceram e escolheram, constituíram uma nova criação, um segundo nível de construção do seu ser: a criação das mãos dos homens, a cultura, o mundo dos homens.
“(...) E viu Deus que isso era bom” (Gn 1:21): o “mundo” com o qual Jesus fora tentado no deserto não é qualquer mundo, mas justamente aquele do pecado original, a segunda criação, a verdadeira fonte de pecado. Pois o mundo da criação original, isto é, a natureza em toda a sua corporeidade nua –nua do conhecimento e das escolhas–, “era bom”. A floresta amazônica é boa, os mares são bons, os nossos corpos por si mesmos, em sua constituição “nua”, são, pois, inevitavelmente bons. Em nossos corpos “nus” não há pecado. O pecado original, aquele pecado de que somos herdeiros de Eva e Adão, mora na segunda criação que se manifesta inevitavelmente em nós: nosso estado de consciência, de conhecimento e escolha, de construção humana, de cultura, de roupagens costuradas à revelia da criação original. Pecado é ação, escolha. Foge à imanência da criação nua.  
Não é à toa que Jesus disse o seguinte: “Em verdade vos digo que se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Mt 18:3); e “(...) Deixai as crianças e não as impeçais de virem a mim, porque delas é o reino dos céus” (Mt 19:14). O primeiro Adão e a primeira Eva eram como crianças, tamanha sua nudez. O segundo Adão e a segunda Eva já não podiam mais sustentar a sua nudez, pois se tornaram adultos, e assim foram expulsos do Éden. O marco divisor foi o pecado original, a posse do conhecimento e a feitura das suas “roupas” –o mundo dos homens, a segunda criação–, justamente o prometido pela serpente: "(...) e sereis como Deus (...)" (Gn 3:5).

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Silêncio

Fechados, os meus olhos se põem mergulhados na sua imensidão. Mundo vasto, onde se ouve muito bem a paz da plenitude. Não há sono, apesar do estado de inércia e quietude. Há vigília. Tudo está muito vivo, ativado. Todavia, se os lábios, há certa altura, se põem a falar é porque eles ganharam uma vida que não lhes pertence, que lhes foi dada, cuja fonte não vem de si. As palavras vêm, mas não da consciência. Não foram gestadas pela razão, por nenhuma forma de controle humano. Elas têm vida própria e animam o ser. Os pensamentos, os trabalhos da mente, estão anulados pela supremacia desse silêncio que se impõe inevitável e majestosamente. Inevitavelmente, tamanha a sua potência de arrebatar. Majestosamente, tamanho o seu brilho e beleza. Confortável como o colo de uma mãe, esse silêncio me convida a nele permanecer. É alimento, nutre a minha fragilidade humana. É proteção, pois buscando-o, restando mergulhado em sua imensidão, ele desvela o poder das palavras de oração, isto é,  desvela a si como paz depurada, extrato puro e concentrado de paz. Em suma, buscando-o, oro. Buscando-o, ligo-me à sua fonte. Eis a atmosfera dos montes. Lugar de silêncio, lugar de escuta, lugar de revelação. No alto dos montes, há isolamento. Ali, desprendidos do mundo material, o nosso ser pode buscar a constituição invisível da sua existência. No isolamento do alto dos montes, podemos experimentar esse silêncio nos olhos fechados. O seu silêncio é voz audível. Escutar o seu silêncio é o segredo da vida dos lábios que se movem sem o pensamento. Lábios usados. Escutar o seu silêncio é o segredo da ativação de um corpo que pretende ser usado. O silêncio e o vazio de si.