domingo, 1 de fevereiro de 2015

Silêncio

Fechados, os meus olhos se põem mergulhados na sua imensidão. Mundo vasto, onde se ouve muito bem a paz da plenitude. Não há sono, apesar do estado de inércia e quietude. Há vigília. Tudo está muito vivo, ativado. Todavia, se os lábios, há certa altura, se põem a falar é porque eles ganharam uma vida que não lhes pertence, que lhes foi dada, cuja fonte não vem de si. As palavras vêm, mas não da consciência. Não foram gestadas pela razão, por nenhuma forma de controle humano. Elas têm vida própria e animam o ser. Os pensamentos, os trabalhos da mente, estão anulados pela supremacia desse silêncio que se impõe inevitável e majestosamente. Inevitavelmente, tamanha a sua potência de arrebatar. Majestosamente, tamanho o seu brilho e beleza. Confortável como o colo de uma mãe, esse silêncio me convida a nele permanecer. É alimento, nutre a minha fragilidade humana. É proteção, pois buscando-o, restando mergulhado em sua imensidão, ele desvela o poder das palavras de oração, isto é,  desvela a si como paz depurada, extrato puro e concentrado de paz. Em suma, buscando-o, oro. Buscando-o, ligo-me à sua fonte. Eis a atmosfera dos montes. Lugar de silêncio, lugar de escuta, lugar de revelação. No alto dos montes, há isolamento. Ali, desprendidos do mundo material, o nosso ser pode buscar a constituição invisível da sua existência. No isolamento do alto dos montes, podemos experimentar esse silêncio nos olhos fechados. O seu silêncio é voz audível. Escutar o seu silêncio é o segredo da vida dos lábios que se movem sem o pensamento. Lábios usados. Escutar o seu silêncio é o segredo da ativação de um corpo que pretende ser usado. O silêncio e o vazio de si.

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