Uma das maiores torturas psicológicas crônicas pelas passei e passo é o estigma da inteligência. Familiares, professores, colegas: sempre ouvi de toda essa gente, direta ou indiretamente, a atribuição de “inteligente”. Meus óculos e cabelo preto e liso sobre a testa também sempre ajudaram muito nisso; além do meu prazer pela leitura e pelo autodidatismo, que são coisas de fato incomuns. O que me conforta é saber que sempre soube o que eu sou, quais os meus limites e minhas aptidões, embora em diversas ocasiões a vaidade tenha se revelado e, por sinal, me levado a um sofrimento realista necessário. Na Matemática, por exemplo, o fracasso sempre foi o resultado; rapidez também nunca fez sentido para mim na prática do aprendizado –sempre fui lento e cauteloso, porém seguro, demais daquilo com o que lidava. Essa, de fato, é uma característica minha: o cuidado, a seleção, a segurança. Por isso, sou um sujeito muito cético: dificilmente acredito naquilo com qual não tenho ou não tive algum contato efetivo, alguma relação de conhecimento/compreensão real, alguma experiência. Esta, na verdade, é a palavra-chave: conhecimento é resultado de experiência –no sentido para a Educação de John Dewey, de lições oriundas do mundo prático, do mundo onde encontramos uma certeza, um real, que guardamos inevitável e inexoravelmente. Experiências são lições que se guardam, fruto de um teste, de uma prova, de uma prática propriamente nossa, daquilo que nós mesmos vivemos, sentimos, além de serem o próprio experimento, a própria prática; são o processo e o resultado. O sentido do “resultado” é o mais valioso aqui.
Inteligência: ao contrário do sentido atemporal a que se atribui pelo senso comum, ela nada mais é do que um resultado; ou melhor: resultado dum resultado, resultado do resultado do contato com um objeto a ser conhecido. Inteligência é uma conduta, é uma forma de agir perante o bom conhecimento duma coisa ou circunstância. Só podemos agir inteligentemente quando sabemos quais são os reflexos objetivos de tal ou qual ação tendo em vista uma coisa ou circunstância. Saber implica experiência –o processo e o seu resultado, a lição. Isso explica muito da inevitável condição a que sempre fui submetido: inteligente é aquele que estuda, que conhece a matéria, a coisa, porque com isso saberá chegar a conclusões objetivas, acertadas. E a atitude comumente identificada com o ritual do “estudar”, isto é, o autodidatismo, a leitura, o prazer literário, não pode ser considerada além do ato de “estudar” em si, pois é incomum, poucos preferem ela às atividades esportivas ou mais lúdicas, por exemplo. Essa atitude, o meu pecado inevitável, meu mal involuntário, minha característica “socialmente” impressionante, gestou em minha identidade a pose dos sábios.
A inteligência enquanto coisa em si e natural não existe; isso é ilusão de naturalistas. O que pode haver de natural numa pessoa é a facilidade ou rapidez quanto ao aprendizado duma coisa ou circunstância e/ou quanto às reações a uma coisa ou circunstância. Nunca fui rápido como os geminianos; sempre fui lento como os virginianos; e minha condição de “inteligente” sempre foi um orgulhoso tormento aos meus ouvidos, tamanhas suas inevitáveis responsabilidades. O resultado político disso tudo é muito forte: inteligência está ao alcance de todos, se e somente se observada uma disposição ao “conhecer” do mundo. Não importa se lento ou rápido, aquilo que define a inteligência é a certeza do que se faz, é saber jogar adequadamente um jogo porque se conhece as regras, porque se conhece seu funcionamento, sua matéria. Os superdotados ou os deficientes são justamente o que são, sem sentimentalismos: tem ou não, conforme sua predisposição natural, uma ampla ou reduzida facilidade ou rapidez na sabedoria de coisas ou circunstâncias. Rapidez e lentidão não são virtudes ou problemas, mas apenas propensões diferentes; sem tirar nem pôr.
Tudo isso que disse acima desemboca numa lição, num axioma, numa verdade que tenho observado na vida ultimamente: inteligência requer conhecimento.