Temos muitos monstros dentro de nós. Monstros feios, durões, destrutivos. Quando querem se mostrar, saem e simplesmente se mostram com toda sua força destrutiva. Eu, que sempre fui um sujeito muito quieto, ou melhor, de impulsos quase sempre controlados, expus e exponho muito pouco os meus monstros. Não que faça isso deliberadamente e nunca tenha vontade de colocá-los para fora, mas sim que naturalmente tenho pouca propensão à explosão colérica constante. Não digo também que ela nunca ocorra, mas em certos momentos necessários apenas.
Meus monstros, como quaisquer outros, são muito feios e maus. Estão sempre lá no fundo, escondidos, amortecidos, como ursos que hibernam. Mas sua energia é latente, pronta para se expandir e consumir tudo à volta. Digo tudo isso em palavras gerais, porque a verdade é que meus monstros não são tão inquebrantáveis assim. Na verdade, os nossos monstros de um modo geral são, na medida do possível, controláveis e tem pouco, embora intenso, combustível. Eles são crianças carentes e pirracentas, querendo chamar a atenção do mundo. E quando vêem que seus desejos não podem ser saciados pelo grito, pela pirraça ou pela travessura, caem em prantos, com longos e altos soluços. Os nossos monstros são crianças pedindo colo, são desejos espontâneos querendo solução imediata pela força persuasiva da impressão que causam. Esse é o lado contraditório dos monstros que habitam em nós: eles têm um lado doce, emotivo, romântico que é a pura expressão de seus aparentes feitos maus.
Os meus monstros são chorões, esse é o fato. Eles se mostram durões, às vezes; outras vezes, são bonitinhos, enérgicos fofões que querem apenas ser ouvidos. Nossos monstros são mais que destrutivos e impressionantes sem coração, eles são frágeis e precisam de abrigo, não só para repor suas energias mas também para sentir afago, o calor maternal do seu mundo recôndito, o necessário contraditório. Nossos monstros não são nada sem um monstro-líder, sem um rei, sem uma mãe. Precisam de alguém que os lidere, que faça-os conviver em prazer, sem destruir a si mesmos e completamente o mundo em que habitam. Eles precisam destruir, são monstros; adoráveis monstros, mas monstros. E mesmo assim precisam de algo que possa norteá-los, liderá-los em sua destruição, prazerosa destruição. Mas, ao mesmo tempo, esse líder é sua segurança, é a força a partir da qual nascem suas energias, é onde esses monstros chorões encontram colo.
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