Sinto que não há coisa mais verdadeira do que o olhar curioso de uma criança de poucos anos. Olhos grandes, estáticos e despretensiosamente arregalados, querendo apenas observar, conhecer. Quando crescemos, esses olhos se perdem devido à rápida astúcia, à negligência forçada para impormos presença, para publicarmos nossa voz de escolha, de opinião. O olhar da criança de poucos anos é bastante instintivo, irracionalizado, espontâneo, essencialmente curioso. E isso é algo muito atormentador para aqueles que têm o vício do não-olhar, da retórica das caretas egocêntricas. Particularmente, às vezes, sinto-me incomodado quando despretensiosamente olham para mim, as crianças e adultos mesmo; não sei lidar com isso. Certamente, parte da explicação está em minha insolúvel timidez, ainda que saiba controlá-la em muitos momentos. Mas acho que a resposta é mais óbvia, isto é, incompreensível por sua simplicidade: aprendemos a desprezar racionalmente as coisas o tempo todo. Literalmente, aprendemos; é essencialmente cultural, fruto de um processo educativo, de uma “internalização”. Quando digo que não sei lidar com olhares singelos, curiosos, é que parece sem o menor sentido uma pessoa ficar olhando para outra sem um motivo prático, como quando, por exemplo, preparar-se para um diálogo ou querer segundas intenções. Talvez seja esse o ponto de definição entre uma ação instintiva e outra cultural: o quanto há de sentido ou razão por traz das escolhas. Crianças de poucos anos de idade arregalam constantemente seus olhos, e o fazem quase sempre sem o racionalismo com o qual conversamos com alguém, sem estarem contaminadas com a astúcia dos adultos, sem a lição de que os adultos não precisam olhar-se sem motivos aparentes.
Hoje eu noto com clareza como é chato ser adulto. É um mundo detestável, sem graça, de poucas fantasias. E quando tentamos acreditar em sonhos, desejos, sempre vem alguém fazendo questão de nos lembrar que é a mais doce fantasia. Os adultos têm muita dificuldade em respeitar sonhos, ideais, e mesmo em respeitar crianças. Porque a principal condição que norteia o “mundo” dos adultos é a predisposição em ver a realidade como algo difícil de ser transformado de acordo com as mais belas fantasias reais que temos. E isso é um fato, devo reconhecer. Quando alguém admira uma pintura a uma relativa distância, não é por acaso, e sim porque de perto tudo é mais grotesco, bruto, sem margem para doces fantasias. Mas eu me pergunto até que ponto a aridez racionalista deve ser um deleite, porque não tem sabor algum. Não é por menos que o “mundo” das crianças é sempre mais gostoso, porque tem graça, tem sabor, tem doces crenças que nós, adultos, taxamos com o nome presunçoso de ingenuidade. As crianças são seres burros, ingênuos, vazios de conhecimento, inúteis, verdadeiros fardos ambulantes: é o que aprendemos quando estamos crescendo, e por isso deixamos de ser ou agir como crianças; é por isso que “queremos ser adultos” todo o tempo. Nós, adultos, temos o controle sobre o mundo; nós é que trabalhamos, pensamos, cuidamos, concedemos direito ou não à existência de outras pessoas; as crianças estão sob nosso controle. Não é difícil entender o porquê da soberba adulta.
A maioria não olha; rende-se às regras tácitas de decoro social. Outros olham; é preciso humildade forçada para não suicidarmos nosso lado social. Mas o olhar mais sábio dos adultos é aquele das esquinas do corredor, quando não sabemos que pessoas vêm em nossa direção e num instante, despretensioso instante, olhamos no fundo de suas pupilas. Esse é o olhar das crianças, sem controle, instante sem sentido, sem razão, profundamente espontâneo. Há uma curiosidade instantânea de conhecer, de aprender sobre aquilo que está diante de nós.
Tudo isso parece muito rousseauniano. E é; não com toda a majestade de Rousseau, mas com o bastante daquilo que ele chama de liberdade. Liberdade, justamente o que falta nos olhos dos adultos: a singela e despretensiosa curiosidade das crianças.
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