segunda-feira, 15 de março de 2010

Coerência

Apesar de ser um truísmo, é preciso reafirmar: os seres humanos erram, e é, a priori, natural que o façam. Quando paramos e olhamos para traz, muitas vezes, os erros se sobressaem de modo alarmante. Muitas vezes, conseguimos até sentir algum orgulho, pela decisão certa tomada, pela sensatez em certos momentos, mas sempre nos deparamos com alguma coisa fora do lugar, que deveria ter se desenrolado de outra maneira; e culpamo-nos por isso. Os erros simplesmente acontecem, mesmo quando, às vezes, temos a certeza de que estamos fazendo a coisa certa. Os erros são verdadeiros sacis, que se escondem perfeitamente, e revelam-se de forma perturbadoramente estardalhacenta. Não dependem, quase sempre, de nossa decisão consciente para tomarem forma. Vêm e vão, simplesmente.

Mas, os erros não são de todo coisas ruins. Quando percebidos e “bem administrados” transformam-se em acertos fantásticos. Este é o seu efeito perverso: podemos aprender muita coisa com um erro, além de saber depreciá-los; a partir deles, muitas coisas podem se acertar. Apesar de não ser sua finalidade a priori, o aprendizado que um erro pode nos trazer é, sem dúvida, algo admirável. Quantas vezes não olhamos para trás e identificamos o ponto minucioso de onde toda uma circunstância de conflito ou mal-estar se originou? Certamente, apenas uma disposição à autocrítica pode revelar esses pontos minuciosos –isso, por si mesmo, já é o indício, quando praticado, de que temos consciência de nossa humanidade, de nossas características essencialmente não-artificiais, inerentes, incontroláveis in totum. Aprender com um erro é, antes, um exercício pleno de sabedoria, de reconhecimento de nossa animalidade.

Há pessoas que costumam errar muito. Certamente, é um caso para se questionar, se pensar: afinal, a anormalidade não é pura aparência, é um sábio e verdadeiro instinto de que um certo grau de artificialidade faz parte do repertório de vida de tais pessoas. Algo está errado –o excessivamente errado: a inconsciência da animalidade do erro põe em xeque a autoconsciência de nossa disposição natural a errar e, antes, de nossa autocrítica. A demasia é, sem dúvida, o indício de que algo está errado, não está funcionando como deveria. As pessoas que erram demais são aquelas que dificilmente compreendem o que é o erro –refiro-me a um contexto “não-racionalizado”, já que é difícil crer que o erro leve à fortuna e seja, portanto, objeto de apreço, a menos que o indivíduo seja um suicida declarado. É provável que tais pessoas se apóiem em um legítimo “deus da máquina”: o relativismo absoluto; em outras palavras, não admitem estarem erradas. Mas, é certo que tais tipos de pessoas têm coerência naquilo que fazem. E o problema não está, em si, na coerência, mas, antes, em sua resultante: a demasia da ação. São indivíduos que sofrem de uma falha: a deficiência em reconhecer o caráter natural de se errar. Quando me refiro a caráter natural, quero dizer que o erro independe de nossa escolha e, portanto, seus “níveis” são, sem a nossa intervenção –quando não resultantes de atitudes essencialmente racionalizadas–, equilibrados. Errar naturalmente é deixar que as coisas fluam em harmonia, que aconteçam e aprendamos com sua ocorrência. Errar naturalmente, quando damos alguma atenção, é um processo educativo admirável.

Evoco toda essa discussão sobre o erro por uma única finalidade: a coerência de comportamento. O fato de errar é o singelo indicativo de algo muito fundamental: não somos robôs. Em outras palavras, nossa consciência não pode ser reduzida a uma tabula rasa, não pode ser tratada como a memória de um computador, programada para agir de tal ou qual modo, sem distorções. Parece algo óbvio, e é. Mas é menos óbvio o fato dos usos que comumente as pessoas fazem disso: um álibi para se justificar escolhas erradas racionalizadas. É uma questão de se interrogar sobre os limites da inconsciência do erro. Isto é: até onde um erro foi inocente ou sua hesitação amortecida. É claro que essa discussão ainda poderia ir para outras direções como até que ponto a inconsciência é um fator que investe o erro de atributos justificáveis, releváveis. Mas o fato é que o erro, a priori, deve ser evitado, na medida do possível. Mesmo porque essa medida do possível não impede que erremos por completo, sendo fruto de um aprendizado prévio. A hesitação do erro, neste caso, trata-se, antes, de uma prudência, oriundo daquele processo educativo. Então, poder-se-ia falar, para melhor expressão, de coerência do acerto. Quer dizer, não uma hesitação ao erro –em stricto sensu, uma atitude racionalizada–, mas uma naturalização –em stricto sensu, uma atitude não-racionalizada– do aprendido em nosso comportamento.

Confesso que, ultimamente, tenho prezado bastante a coerência na forma de agir. Isso, acho eu, causa certo estranhamento nas pessoas. Tenho a impressão de que este estranhamento, quase sempre, vem seguido de adjetivações em pensamento, que na realidade tratam-se de reprovações pessoais não-declaradas verbalmente, do tipo: sujeito falso, frio, esnobe, arrogante, etc.. Tenho consciência de que isso foge ao meu controle: afinal, não podemos ser amigos do mundo inteiro, e é saudável que assim seja. E isso, por outro lado, revela o quanto as pessoas não têm sido coerentes consigo mesmas, senão também com outras pessoas, e conferido pouca atenção aos seus erros. Ser coerente é exercício, devo confessar, a priori, racionalizado; mas sua recorrência torna-nos mais tendenciosos inconscientemente ao acerto. Seguir apertando numa tecla de decisões revela se aquela letra de ação é ou não a que de fato devemos inserir no texto da vida. A coerência parece tornar-nos seres artificializados, retos, objetivos, não-tortuosos. Mas ter coerência não pressupõe que nossa consciência seja bitolada ao ponto de não enxergarmos nossa animalidade. Em outras palavras, a coerência é compatível inteiramente com a consciência de que podemos, de fato, errar, e assim o fazemos querendo ou não. A coerência é apenas um meio, a posteriori naturalizado, de fazermos escolhas mais sensatas na vida. A coerência é a consciência de que não somos artificiais, e, mais, de que nossa natureza humana também não deve justificar a gratuidade do erro. Ser humano é ser seres que erram, não seres cultivadores do erro.

Talvez a questão fundamental relacionada com a coerência diz respeito a sua validade. Uma validade que não é previamente determinada, mas que pode existir mediante as circunstâncias. Seguir reproduzindo uma forma de comportamento depende da “aceitação” de um determinado sistema de relações sociais. Às vezes, o sistema se altera, e todo o resto, para que o status quo harmônico persista, deve ser também alterado. Portanto, uma linha de coerência se desfaz, mas, em paralelo, outra se constrói. O fato é que só uma intervenção, uma “energia” despendida a mais, faz com que isso aconteça; deve existir uma disposição à mudança. No fundo, a coerência de comportamento é justamente um rito que, para ser quebrado, segue os parâmetros de quebra das convenções.

Contudo, de quem deve partir a disposição inicial? Quem deve ser o estopim? Por mais que pareça um argumento simplista, acredito na “individualidade” da quebra inicial. Num jogo de relações interpessoais, o estopim da quebra de “protocolo” não é um processo mútuo: é iniciado por alguém, que pode ou não ser seguido pelos demais. A mutualidade pode estar na aceitação a posteriori. Quebrar o protocolo de relacionamento precisa de disposição, algo que depende da “energia” que está investida nos sujeitos. Tomemos um exemplo: num determinado espaço, claramente regido por relações tácitas ou não de formalidade, como um ambiente de trabalho, um indivíduo novato dispõe inicialmente de uma capacidade de se impor menor que aqueles que, há anos, fazem parte dali. Portanto, este indivíduo novato possui uma “energia” investida em si, de quebra de protocolo, muito menor que aqueles que já estão integrados ao ambiente, por um simples fato: é, inicialmente, um estranho. Logo, pelo fato reconhecido de que a formalidade é o sustentáculo fundamental da atuação profissional, a linha de coerência a ser adotada pelo novato é justamente a formalidade –salvo em condições de mínima liberdade, a ser seguida de forma estrita. Ora, mais o novato não poderia forçar a barra, e romper isso? Sem dúvida, sim. Mas não é a via de regra: um argumento que, por mais simplista que possa parecer, é um bastião importante para que se firmem relações de sociabilidade adequadas, que minimizam o estabelecimento de conflitos.

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