Não é difícil andar por ruas ou calçadas movimentadas e reparar como as pessoas se negam a olhar umas para as outras. Como se o olhar custasse muito caro, mais caro que os artefatos das vitrines de lojas que não param de ser observados, sobretudo por mulheres. Acho, como ocorre a qualquer coisa forçada, que há erro ou pelo menos um equívoco nisso. O que tornou o homem o que ele é hoje, algo que é negado por isso mesmo, é uma qualidade muito importante: curiosidade ou disposição
A gratuidade do não-olhar, é de se supor, possui algum fundamento teórico, que serve de álibi. Quase sempre é o mesmo: a falta de intimidade, ou conhecimento mesmo, em relação ao Outro, impõe a necessidade de uma frieza em nosso comportamento. Essa, sem dúvida, é a explicação subjacente no ato de não olhar para outras pessoas em dadas circunstâncias como a de um “passeio” em lugares públicos freqüentados. É como se a falta de intimidade impusesse o imperativo de uma distância que a todo custo deve ser sustentada, senão implica na rejeição do estatuto de seriedade: estaríamos reproduzindo, portanto, uma “curiosidade infantil” ingênua. Certamente, este padrão prévio de comportamento, presente em ambientes públicos, é o indicativo da existência de relações de formalidade que regem o público. São regras tacitamente aceitas, inerentes e necessárias a nossa sociabilidade. O problema está justamente na depreciação oriunda da transgressão de tais regras –algo que deriva de uma má concepção de ser “adulto”. Mas o problema também está na justificação que se extrai disso, tornando possível e (supostamente) legítima a gratuidade do não-olhar. As regras de sociabilidade acabam tendo mesmo um usufruto patológico. Conhecer o mundo e as coisas não é uma prática que se satisfaz com o tempo. A prática do olhar é um meio muito singelo e saudável de apreciar a beleza das coisas.
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