segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Nota sobre a auto-sacralização

Não é difícil andar por ruas ou calçadas movimentadas e reparar como as pessoas se negam a olhar umas para as outras. Como se o olhar custasse muito caro, mais caro que os artefatos das vitrines de lojas que não param de ser observados, sobretudo por mulheres. Acho, como ocorre a qualquer coisa forçada, que há erro ou pelo menos um equívoco nisso. O que tornou o homem o que ele é hoje, algo que é negado por isso mesmo, é uma qualidade muito importante: curiosidade ou disposição em conhecer. Talvez disso se extraia o fator fundamental que distancia os adultos das crianças: a falta de disposição em conhecer as coisas, por uma prepotência em reconhecer-se como conhecedor. O que torna as crianças “crianças” é o fato de que ainda não aprenderam. Aos adultos, cabe a tarefa do ensino, porque (supostamente) conhecem o que é o saber. O ato de não-olhar é justamente isso. É o reconhecimento implícito de que se é conhecedor, se é sábio, se é adulto, não se é criança. Pois o ato de olhar é a indicação mais singela e reveladora de que queremos aprender, de que não sabemos, de que não somos adultos por inteiro, de que aquilo que nossos olhos fitam de novo, por ser novo, deve ser conhecido. O ato de olhar revela justamente o que há de mais animalesco, profundamente humano, em nós: inocente e sábia curiosidade. Trata-se de uma incompatibilidade do ato de olhar com o estatuto de adulto e, aprofundando, com o estatuto de seriedade: olhar é anormal ao comportamento de seres conhecedores, adultos. Seriedade, numa acepção que a traduz como sabedoria, é uma qualidade inerente, senão exclusiva, dos adultos. Isso, porque seriedade é confundida com comportamento ou feições aparentes. Em outras palavras, seriedade é sinônimo de adulto que é sinônimo de conhecedor. Portanto, numa conclusão lógica, olhar é sinônimo de não ser sério que é sinônimo de criança que é sinônimo de não-conhecedor.

A gratuidade do não-olhar, é de se supor, possui algum fundamento teórico, que serve de álibi. Quase sempre é o mesmo: a falta de intimidade, ou conhecimento mesmo, em relação ao Outro, impõe a necessidade de uma frieza em nosso comportamento. Essa, sem dúvida, é a explicação subjacente no ato de não olhar para outras pessoas em dadas circunstâncias como a de um “passeio” em lugares públicos freqüentados. É como se a falta de intimidade impusesse o imperativo de uma distância que a todo custo deve ser sustentada, senão implica na rejeição do estatuto de seriedade: estaríamos reproduzindo, portanto, uma “curiosidade infantil” ingênua. Certamente, este padrão prévio de comportamento, presente em ambientes públicos, é o indicativo da existência de relações de formalidade que regem o público. São regras tacitamente aceitas, inerentes e necessárias a nossa sociabilidade. O problema está justamente na depreciação oriunda da transgressão de tais regras –algo que deriva de uma má concepção de ser “adulto”. Mas o problema também está na justificação que se extrai disso, tornando possível e (supostamente) legítima a gratuidade do não-olhar. As regras de sociabilidade acabam tendo mesmo um usufruto patológico. Conhecer o mundo e as coisas não é uma prática que se satisfaz com o tempo. A prática do olhar é um meio muito singelo e saudável de apreciar a beleza das coisas.

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