A amizade é algo sério. Às vezes parece difícil estabelecermos inicialmente um vínculo com uma pessoa, já que certas distâncias podem surgir e se consolidar entre nós e o outro. É verdade que essas distâncias se tornam mais significativas quando surgem posteriormente, quando percebemos que uma relação de amizade não se torna mais sustentável por esse ou aquele motivo. Talvez isso seja o indicativo de que ao tentarmos dar início a alguma relação de amizade, devamos dar atenção sobretudo a essas distâncias iniciais, porque podem ser o indicativo de uma desarmonia futura. No entanto, também é verdade que essas distâncias existem naturalmente, e, em certas ocasiões, torna-se necessário que existam. A questão é como podemos nos lidar com essas distâncias, seja inicialmente com o objetivo de tornar uma proximidade possível, seja posteriormente quando queremos continuar sustentando a relação ou mesmo utilizá-las com requisito para o rompimento definitivo. Outra questão importante é, obviamente, saber sentir as distâncias, afinal não são todos que, ingênua ou deliberadamente, deixam de enxergá-las; é preciso ter precauções na hora conhecer outra pessoa, ainda que isso se dê em situações de completa harmonia e distração, pois a falsa compreensão (deliberada ou não) sobre o outro provoca um tipo de distanciamento insuportável a longo prazo – aquele oriundo de expectativas criadas sobre esse “desconhecido”.
Quanto à segunda questão, é necessário agirmos na mais absoluta naturalidade com relação a esse outro, pois o princípio fundamental que rege uma boa de relação de amizade é o conhecimento desse outro com quem nos relacionamos. Na medida em que agirmos com naturalidade e autenticidade, esse outro imediatamente terá a nossa identidade a seu dispor, podendo, pois, escolher se quer ou não sustentar essa relação. Ou seja, se trata de uma questão de escolha, baseada na percepção da realidade. Quanto maior for a falta de sinceridade no modo de agir inicial, maior poderá ser a desilusão futura, sem falar no próprio ato do rompimento que poderá atingir níveis de verdadeira dramaticidade, senão falta de respeito. Saber o que verdadeiramente é, sem dúvida, refere-se a todo um processo de conhecimento adquirido pelo convívio e respeito mútuos. Nesse ato de conhecer o outro, quase sempre criamos expectativas, que na maioria dos casos não são correspondidas, cujo resultado é a desilusão. Por isso a precaução e cautela na hora de conhecer o outro é fundamental, porque a despeito de qualquer situação um tipo importante de comunicação se estabelece entre os indivíduos mutuamente desconhecidos: aquela através dos sinais, das marcas sutis impregnadas no comportamento. As palavras podem dizer muito, porém um olhar, um simples gesto com as mãos ou a roupa vestida, pode significar muita coisa. É em meio a essa realidade meio confusa, nebulosa, e ao mesmo tempo estimulante, que as primeiras distâncias se fincam. Distâncias morais, distâncias éticas, religiosas, o time de futebol que é diferente... Tudo faz parte do ato de conhecer e da própria essência do outro, porque (digamos a verdade) qual seria a graça de conviver com uma pessoa que nos é idêntica? Seria algo no mínimo estranho, senão entediante. Por isso, devemos encarar esse outro com um ser naturalmente diferente, que pode ou não partilhar coisas em comum. A pior distância a meu ver, com já dito acima, é o endeusamento do outro, ou mesmo o oposto imediato disto, a sua “negativização” – algo oriundo de uma forma preconcebida de ver o mundo. O importante é sabermos captar aquilo que nos chega, e codificá-lo, verificando sua compatibilidade com nosso sistema. É também importante termos em mente o fato de que isso pode se dar de maneira lenta, gradativa, não em um piscar de olhos. Conhecer o outro é uma tarefa bastante complicada que requer a todo instante nossa atenção, e acima de tudo tem como prerrogativa nosso autoconhecimento, a apreensão de nossos limites, capacidades, bom senso conosco e com esse outro.
Creio que, quanto à primeira questão, alguns aspectos já tenham sido respondidos anteriormente, e talvez por isso eles voltem a aparecer nessa segunda resposta. Creio que o que une dois seres humanos numa relação de amizade esteja na compatibilidade de sistemas. Isso não implica uma equidade mútua, ou necessariamente uma alteridade completa, pois o que buscamos no outro talvez seja uma espécie de refúgio onde encontramos nossa identificação, mas também nossa diferença. É nesse outro que vemos e aprendemos a conviver com aquilo que não faz parte de nossa realidade, de nosso universo, e é nele também que conseguimos encontrar um pouco daquilo que somos e/ou pretendemos ser. Ou seja, refere-se a um misto de identidade/alteridade. Longe de ser algo único, ele nos faz bem e mal ao mesmo tempo: bem porque diz aquilo que queremos ouvir, ou faz aquilo queremos fazer ou mesmo fazemos, representando-nos uma fonte de inspiração, de fortaleza onde podemos nos prender nos momentos mais difíceis; mal porque não é uma fonte de perfeição, é como nós, incertos, imperfeitos, não é exatamente aquilo que concebemos como o belo, o divino, sendo capaz de agredir, em certos momentos, em função do seu ego – é egocêntrico, não pensa apenas em nós, mas também em si próprio. Numa situação inicial, os extremos falam alto demais às vezes: podemos sentir esse mal ou esse bem de modo bastante excessivo. Isso não implica que devamos agir de modo omisso, reticente, porque o fundamental é a autenticidade, a capacidade de exprimir aquilo que realmente somos. Afinal de contas, acho que esses extremos se dão justamente quando agimos de modo impulsivo, agressor, quando não respeitamos nossos limites e reais qualidades. As distâncias acabam se impondo quase que necessariamente, como um “mecanismo de autodefesa” em relação ao ser desconhecido e agressor. No entanto, essas distâncias podem aparecer também de maneira natural, mesmo com a prática de autenticidade, e o importante, além de percebê-las, é saber medir o mal que a relação pode nos provocar, assim como sua viabilidade ou a relação custo/benefício de se tentar estabelecê-la. Também temos que ter em mente que essas distâncias, que inicialmente podem parecer muito volumosas, podem ser em parte fruto de nossa consciência ou mesmo da escassa (e momentânea) expressão das qualidades alheias – ou seja, coisas boas podem vir da pessoa futuramente, é só uma questão de tempo e ela expressará todas as suas boas qualidades. Por isso, não vejo outra alternativa em relação distanciamentos iniciais a não ser o respeito pela diferença, assim como bom senso e paciência em conhecer gradativamente o outro – e (vale lembrar que) esses distanciamentos podem significar a realidade, mas isso não pode ser percebido de início, por simples impressões, senão por meio de coincidência; porque só o convívio gradativo (o que não implica um tempo muito longo, mas necessariamente não-inicial) é que nos traz a segurança de dizer algo sobre o outro, bem como a verdadeira realidade sobre. A questão se afigura mais significativa quando esses distanciamentos aparecem com o tempo, depois de ter havido uma espécie de “consolidação da amizade”. Isso pode advir da falta de conhecimento recíproca ou unilateralmente, o que representa uma deficiência, seja na capacidade de apreensão do outro, seja no modo como nos expressamos para esse outro inicial ou permanentemente – isto é, de maneira não tão autêntica. Quanto a isso, duas soluções se tornam óbvias: a separação ou um simples “acerto de contas” sem rompimento. Em ambos os casos, algo é necessário: que seja dito tudo o que se tem a dizer de modo autêntico e respeitoso. Essas duas últimas palavras podem soar como antíteses, mas na realidade o que está em jogo numa relação de amizade, em que há ou não distanciamento, é justamente uma questão de respeito, de saber onde começa e termina meus limites, de saber reconhecer no outro uma fonte de inspiração, de lição (positiva ou negativa) para mim. O outro deve ser encarado como um ser verdadeiramente iluminado, apto a nos mostrar os caminhos que devemos percorrer na vida, ainda que isso nos afigure, em dadas situações, algo detestável ao nosso ego, que nos faz mal; pois no mal pode sim haver um bem, um bem a nos guiar. O respeito também está simplesmente no fato de que, ao “acertar as contas”, estamos dando a oportunidade ao outro de compreender o seu erro, acima de tudo, como algo natural dos seres humanos, e possivelmente tirar lições proveitosas disso. Nesse sentido, o respeito (ou melhor dizendo, o ato de “acertar as contas”) constituiu uma questão de ética, de agir corretamente (explicar, debater, ouvir) diante de uma situação lastimável. Também temos que ter em mente o fato de que o outro nem sempre – e, de certo modo, acho que em todos os casos – é o único responsável pela situação detestável a que um relacionamento de amizade pode vir a chegar; nós, direta ou indiretamente, também temos nossa parcela de culpa, e uma atitude sensata requer, antes de tudo, saber reconhecer que isso é um fato.
Enfim, as distâncias são naturais e necessárias no nosso dia-a-dia. Devem ser tratadas como mecanismos de apreensão do outro, bem como de nós mesmos, porque a construção de nossa identidade perpassa por uma espécie de análise comparativa, em que utilizamos o outro como um referencial de conduta, de identificação positiva ou negativa. Nós sabemos escolher o que no outro nos agrada, nos satisfaz, mas também ficamos quase que hipnotizados com o oposto disto: há sinais que nos provocam reações restritivas em relação ao outro. O resultado é que damos muito mais atenção – e aí está uma espécie de ação hipnótica – a estes sinais do que à vastidão encantadora que ignoramos, através de um processo de ocultação, do outro. Talvez essas distâncias, mais que as similitudes, sejam a graça de ter amigos.
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