sábado, 11 de julho de 2009

Os reality shows e a retórica dos pseudo-intelectuais

Há um preconceito explícito manifestado por muitas pessoas a respeito de reality shows que passam na tv. Isso se deve ao fato de que criou-se uma concepção socialmente difundida de que tais programas sejam de uma inutilidade pública gritante, sobretudo por seu caráter alienante. Não vejo muita seriedade nesses argumentos, já que ele se origina freqüentemente no seio de grupos pseudo-intelectuais, como uma forma de assegurar sua “superioridade cognitiva” frente aos taxados de “ralé”. Talvez a origem deste preconceito esteja também no fato de que esses pseudo-intelectuais são avessos a programas de tv que atraem o “povão”, isto é, funciona como um mecanismo de definição de fronteiras identitárias estereotipadas do que seja o “intelectual” e o seu imediato oposto; portanto não “se espera” do “intelectual” o gosto por aquilo que é vernáculo – uma idéia que se origina de um desprezo, em certo sentido bem justificado, de que a “multidão” é ingênua.

O problema, a meu ver, se configura no fato de que muitos se acham “intelectuais” só porque estão inseridos cotidianamente em ambientes ditos “intelectuais” ou também pelo fato de que lêem – na maioria das vezes de forma ingênua – livros (que não passam freqüentemente de literatura barata). E acabam usando isso como argumento para se auto-reconhecerem como “intelectuais”. Ora, isso não passa de pura imaturidade. Creio que os verdadeiros “intelectuais” são aqueles que acima de tudo partilham de uma capacidade de apreensão da realidade a qual estão inseridos, direta ou indiretamente, interna ou externamente; são aqueles que sabem usar o que poucos usam: as células de seu cérebro. Reduzir, ou melhor dizendo, estereotipar, o intelectual como simplesmente aquele que devora livros é pura ingenuidade, porque a questão não está só no fato de que se faz algo, mas sim como isso é feito: quantidade é uma razão muitíssimo inferior à qualidade do que se está racionalizando e de como se racionaliza isso.

O desprezo por reality shows parte muito de uma visão de que tais programas são imbecis, e por isso não merecem ser prestigiados. E há verdade nisso: na sua maioria tratam-se de construções pouco pensadas por seus programadores, visando sobretudo a uma apreciação alienante por parte dos telespectadores; isto é, são realmente imbecis. No entanto isso não significa que, ao assisti-los, iremos nos tornar imbecis, já que isso depende estritamente da nossa capacidade de apreciá-los. Os reality shows, assim como muitos outros programas na tv, representam apenas um referencial de imbecilidade para seus telespectadores, porém o processo de imbelicização é automático: nós é que nos imbelicizamos ou não. Por isso, o problema está em como se assiste à tv, não necessariamente nela em si. Um telespectador pouco crítico estará sujeito a conseqüências um tanto sérias, principalmente no que se refere a muitos telejornais cuja finalidade última é informar, funcionando como verdadeiros referenciais de fundamentalismos de direita. Muitos ignoram os reality shows só porque são imbecis, mas devemos atentar para um fato: isso se faz por muitas pessoas objetivando apenas preservar seu estereótipo de “intelectual”, constituindo apenas uma atitude literalmente ignorante e hipócrita. E por acaso isso é uma atitude condizente à posição de “intelectual”, que essas pessoas tanto querem sustentar? Duvido muito. Porque a última coisa que estão fazendo é pensar. E se não usam o seu cérebro são tão irracionais quanto aquelas que eles tanto desprezam como tal.

Os reality shows chamam a atenção de públicos volumosos, pois parece haver uma espécie de gosto por observar o outro, e também da possibilidade de apontar onde as pessoas erram e acertam. Nesses tempos modernos em que o que mais se privilegia, ou se tenta privilegiar, é a nossa individualidade, onde o senso do privado se precisa melhor, é justamente onde a privacidade se torna o alvo-mor da curiosidade alheia: é uma espécie de graça naquilo que não é visto em condições normais, isto é, o outro em sua intimidade que se torna então revelada. Nesse sentido acho que o enfoque antropológico que recai sobre a noção de alteridade é-nos útil: é observando o outro, quase que como numa posição de testemunha ocular, que definimos aspectos de nossa compreensão do que seja ética, do que seja o correto, o bom para nós mesmos; em suma, é no comportamento alheio que definimos nossa própria constituição, enquanto indivíduos sociais. Por isso, creio na possibilidade de que tais tipos de programas, quando utilizados de maneira correta, podem nos servir como úteis ferramentas de psicologia social, e mesmo como suporte para desenvolvimento de nossas capacidades de observação do “terreno” onde pisamos, e das pessoas que pisam conosco. Os pseudo-intelectuais eventualmente são contra isso, já que negam simplesmente o fato de se dar alguma atenção a esse tipo de programação televisiva. Isso se trata apenas de discursos que visam garantir, a partir de parâmetros retóricos, certa autoridade social em relação às “multidões”. Na realidade, há uma tendência difundida no senso comum que fornece credibilidade ao papel social do intelectual, como se ele constituísse a camada pensante das sociedades, agregando todo o “restante” das pessoas em um patamar de fácil influência. Em todo caso, é difícil combinarmos ignorância – literalmente falando, no sentido de ignorar – e intelectualismo, já que este último caminha lado a lado da reflexão da realidade. Quando se ignora uma dada realidade torna-se difícil falar de racionalidade, e sim de pura impulsividade, de atitudes não-pensantes. Como, então, chamar a esses indivíduos de “intelectuais”? Se pensarmos em estratégias discursivas retóricas talvez isso seja possível, caso contrário não.

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