Desde criança somos preparados e nossas mentes são condicionadas a buscar aquilo socialmente se entende como sucesso, vitória. Nestes termos, ser um vitorioso na vida supõe uma conformação individual com os padrões de conduta e/ou condição social difusos culturalmente no sistema social de que faz parte o indivíduo. O sentido de vitória a que nos acostumamos – e, pois, que se imprime em nossas concepções de “normalidade” – possui um estrito vínculo com uma espécie de “granderização” de nossos “feitos”, como se eles pudessem ser categorizados dentro de limites quase inatingíveis de excepcionalidade. E essa intuição de excepcionalidade denota o particularismo das pessoas vitoriosas, tornando-as indivíduos capazes de se isolar dos demais. Ser “grande” é uma qualificação restrita a poucos; às vezes, redutível a um só indivíduo. Haver pessoas “grandes” no mundo pressupõe a existência do seu imediato oposto, pessoas “pequenas”, cujos “feitos” são socialmente reconhecidos com pouca ou sem importância, se comparados com os dos “grandes”. O processo de “granderização” é, muitas vezes, justificado por fatos verdadeiramente reais, mas nem sempre isso acontece, por uma simples questão de oportunismo, já que ser “grande” reflete um desejo de consumo restrito e reconhecidamente pleno de prestígio. Tal processo também, quase sempre, implica numa lógica de personificação de “feitos” coletivos, como se fossem canalizados para um único indivíduo. Há um problema nisso, sobretudo no que se refere à memória de situações situadas num passado longínquo ou recente. É certo que essa personificação de “feitos” históricos facilita ou torna mais palpável a compreensão de certas realidades históricas, mas isso naturalmente rejeita um sentido social ou coletivo da mudança histórica. A verdade é que sempre estivemos acostumados a encarar a vida como um grande jogo, como se fosse um palco de disputas, ainda que a compreensão de tal não seja verdadeiramente intuída. No cotidiano, agimos como se estivéssemos participando de alguma competição, cujo objetivo é o alcance da vitória ou do sucesso, porém isso é-nos tão habitual que não nos damos conta dessa lógica de disputa que se reproduz a partir de nosso comportamento. Isso, porque a repetição é a chave para a consolidação do sentido de “normalidade” das estruturas que formam o sistema. Ser ou transformar-se em “grande” pode ser tarefa árdua para aqueles que tomam isso para si como necessário; e, de fato, é. Mas, há um problema nisso: a manutenção ou a tentativa de tornar-se “grande”, em muitas vezes, é essencialmente exterior ao indivíduo, como uma espécie de tendência involuntária suscitada pelo sistema. O caráter involuntário é que faz com que o indivíduo acabe por se perder, em função de uma busca sem qualquer sentido para si próprio. Isso se chama desilusão. O pior é quando se insiste em pisar na jaca, por uma busca desenfreada e irracional pelo reconhecimento de ser “grande”. Ora, por que gastar tanta energia nisso?!
Certamente, o fato de interagirmos, desde que somos gente, com idéias bitoladas do sistema de que fazemos parte dá-nos em si subsídios para contestá-las ou, ao menos, ignorá-las. Porém, é também certo que a percepção de “normalidade” torna-se, então, um contratempo, porque dificilmente poderemos enxergar anormalidade no que é “normal”. Pensar, pensar: esse é o segredo, afinal é por isso que temos cérebro. Ser ou transformar-se em “pequeno” parece ser o supra-sumo da degradação, do desprestígio. Mas, devemos refletir: o que é ser “pequeno” ou mesmo ser “grande”. Talvez essa seja uma questão de ponto de vista. Podemos ser “grandes” ou “pequenos” para muitas pessoas, mas não para nós mesmos e nossos pares. E, então, talvez o que nos permita inferir essas duas qualidades são os padrões admitidos e reproduzidos na esfera do público, como se houvesse uma força que é-nos exterior e, ainda assim, potente para determinar nossa conduta e nossa maneira de ver as coisas. Devemos pensar até que certo ponto seguir a orientação dessa força faz-nos bem. Os indivíduos que negligenciam isso estão, quase sempre, fadados a um eterno questionamento se atingiram ou não o sucesso, se são ou não “grandes” para si próprios. Às vezes, o sucesso pode estar diante de nossos olhos, ali, muito próximo de nós. Mas, a mórbida cegueira causada pela “normalidade” em se reproduzir as estruturas do sistema nos fazem trilhar caminhos muito mais compridos e repletos de obstáculos. Aqueles que são “pequenos” o são, em muitas vezes, por livre escolha; outros o são por terem fracassado em tentar ser ou manter-se “grandes”. Não é que essa livre escolha seja sinônimo de fraqueza, porque se pensarmos dessa forma estaremos explicando essa questão apenas a partir de um ponto de vista – o do sistema. As pessoas que escolhem ser “pequenas” o fazem por terem em mente que ser “pequeno” é apenas um estereótipo do sistema. Mas, essas mesmas pessoas querem ser “pequenas” justamente porque isso as torna, ironicamente, “grandes” para si próprias e/ou para seus pares. Nesse caso, a grandeza é muito mais uma questão interior ao indivíduo do que inerente ao sistema. A escolha em ser “pequeno” é uma escolha de ser “pequeno” em relação ao sistema, e não a nós próprios.
Alguns ainda poderiam se questionar sobre o seguinte: ora, será que não podemos conciliar as duas coisas ao mesmo tempo, isto é, tentar ser ou manter-se “grande” em relação ao sistema e a nós próprios? Responderia que sim. Isso é uma possibilidade que muitos indivíduos já vivenciaram e vivenciam. Mas, trata-se somente de uma possibilidade; isso quer dizer que muitos indivíduos não conseguem ser as duas coisas ao mesmo tempo. O problema está em como se chega a isso, porque ser ambas essas coisas pressupõe que num momento anterior éramos apenas uma delas e tornamo-nos depois as duas; ninguém nasce completo, é pura utopia dizer que somos completos desde que nascemos, porque “ser completo” trata-se de um processo de “tornar-se”. O caminho mais saudável para sermos “grandes”, em relação ao sistema e a nós próprios, se inicia, a meu ver, quando valorizamos a grandeza que há em nós; quando prestamos mais atenção ao sucesso que pulsa em nosso interior. É ao atingirmos a nossa vitória interior, que o tornar-se “grande” em relação ao sistema toma vida. A grandeza em ser “pequeno” nos leva, sem dúvida, a sermos “grandes”. Na verdade, o atalho para isso está bem próximo de nós, é só prestarmos mais atenção em nosso próprio umbigo.
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