Aquela manhã parecia-lhe especial. Era diferente de todas as que já havia experimentado em seus longos 72 anos. Sentia-se diferente, como se o ontem lhe estivesse muito distante. Sua mente estava estranha. Seu corpo, já surrado pelas múltiplas enfermidades que lhe acometeram durante a vida, implorava por repouso. Mas Inácio sentia que precisava, mesmo com todos os obstáculos que teimavam em interditar sua existência, viver a vida que sempre levara ao menos um instante a mais. Implorava a si próprio em experimentar o doce sabor da inconstância, mesmo que pela última vez fosse.
Estava decidido: queria mais, mais um único e infinito instante para, então, poder entregar-se às vontades mais insanas que corriam em seus pensamentos fluídos. Levantou-se de sua cama com os olhos ofuscados pelo brilho dos raios da manhã que invadiam o seu leito, e dirigiu-se rumo a seu guarda-roupa. O tempo lá fora estava nublado, mas ainda assim dava permissão ao sol de mostrar alguns de seus raios. Lá no guarda-roupa, escolheu a mais fina e elegante roupa que poucas vezes usou, na verdade só em algumas ocasiões muito especiais. Se bem que Inácio possuía algo que as mulheres de seu tempo sempre apreciaram: andava sempre bem vestido, sapatos limpos e engraxados, cabelo penteado, perfume com um doce e suave aroma que seduzia qualquer uma de suas miras. Mas naquele momento sentia uma necessidade pulsante de vestir-se de um modo mais especial. Cumprindo o ritual diário, tomou seu refrescante e despertador banho, e escovou seus dentes, já amarelados pelos efeitos de um dos símbolos de rebeldia de sua época – os cigarros, que há algum tempo deixou de lado, devido à insistência de seus problemas de saúde. Olhou seu reflexo no espelho. Sentia algo diferente consigo próprio, embora não tivesse muita certeza do que fosse. E via que o reflexo, que, então, penetrava em seus olhos, mostrava-lhe as marcas do tempo, as marcas de toda uma vida vivida à luz do momento, da satisfação de desejos, das mãos dadas com a prática do amor. As diferenças saltavam-lhe aos olhos; ainda assim, havia muito do jovem Inácio dos tempos rebeldes, havia muito da natureza inconstante e momentânea que o fez, até então, viver do jeito que poucos viviam.
Dirigindo-se sabe lá aonde, enfim saiu de seu mundo recluso. Caminhou pelas mesmas calçadas de sempre, as calçadas que lhe remeteram, quase instantaneamente, ao momento que jamais se apagou de sua lembrança. Ao sair e pisar naquelas calçadas, e sentir o ar vibrante dos automóveis passando ao lado, tornou-se jovem de novo. As nuvens lá no céu eram as mesmas de antes, escuras, nebulosas como seus pensamentos agora. A brisa que corria era compatível com a melancolia que o contaminava, de uma frieza arrepiante. Aquilo era como um mergulho de cabeça rumo ao passado, a um passado inebriante que trazia de volta o mais doce e encantador momento de sua vida. Inácio marchava sem vida, rumo a um destino incerto
Os pensamentos do velho Inácio, acendidos pelas circunstâncias similares do momento, levaram-no a um mundo distante, longínquo no tempo, à época em que conhecera o seu mais importante amor. Em seus pensamentos, ela vinha caminhando contra o vento. Cabelos meio amarelados, olhos oblíquos e da cor do mel, um suave e alvo vestido de linho que se amoldava a seu corpo de curvas perfeitas. Seus passos e seus olhos revelavam a timidez de sua juventude. O seu rosto quase não fazia expressão alguma, tamanha era a tenra, modesta e recatada tez que o recobria. Ela apenas caminhava, lá longe, em sentido contrário. Inácio, com seu faro insaciável e aguçado, viu naquele rosto o sonho que ele queria tornar realidade. Foi um encanto tal que o emudeceu, o fez escravo, tornou-o um objeto que se movia de acordo com o sentido daquela criatura. Seus passos aceleravam-se numa tentativa inconsciente de aproximar-se do objeto de seus olhos. Seu coração batia mais e mais, à medida que ela se aproximava incólume na escolha de seus passos. Inácio apaziguava a velocidade de seu movimento, até parar, estático a observar o objeto peculiar que seus olhos viam. Alice, desconcertada pela conduta de seu voyeur, num curto instante, olhou para aqueles olhos que a ofuscava com os seus desejos implícitos. Aquilo foi um êxtase para Inácio; aqueles olhos eram verdadeiros faróis emitindo uma luz inebriante de sedução. Mas tudo parecia, a partir de então, caminhar para seu triste e nostálgico fim: os passos de Alice, embora tímidos quanto à sua velocidade, conduziam aquele momento ao colapso. E assim foi. Mas Inácio permaneceu intacto em sua condição inerte, e algo veio a socorrê-lo da ligeira memória, que agora começava a vir à sua mente, de que não viria mais aquela criatura: a flor vermelha que trazia presa a seus longos fios de cabelo, que batiam-se pela brisa que corria, deu as costas à Alice, caindo-se ao chão. Foi o alívio que Inácio esperava: ele lançou-se rumo ao sonho que queria realizar, e num gesto rápido sacou às mãos a flor. Apressou-se em entregá-la a sua dona, que parava, devido ao denso fluxo de pessoas que se aprontavam para atravessar a rua ali perto. Por um instante, uma brusca e estranha timidez dominou Inácio, mas ele a conteve e foi. Parando muito próximo, estendeu a mão, e tocou-a no ombro direito de Alice. Algumas palavras, difíceis palavras, foram junto:
- Olá! É... é... acho que isso aqui é seu.
- Ah, nossa! É meu sim. Nem vi que tinha caído... – Alice respondeu-lhe com um ligeiro sorriso, que se abria naquele rosto então quase sem vida. A expressão de surpresa só aguçou ainda mais a beleza que seus olhos tímidos revelavam a Inácio. Este prosseguiu:
- É... isso acontece. Ela é... hã... muito bonita. Você tem bom gosto. Ela fica muito bem em seus cabelos. – Alice sentiu naquelas palavras, assim como no sorriso satisfeito de Inácio, um leve tom de interesse por parte dele. Alguém naquela situação, pensava ela, não se comportaria de modo tão agradável se não quisesse algo em troca, ainda mais em se tratando daquele sujeito que estava vestido de forma muito curiosa.
- Obrigada. É que gosto muito dessas flores. Elas são simples e muito belas.
- Não tão belas quanto você, é claro! Você tem pressa...? Acompanharia-me em um chá ou café?
Biiiiiiiiii... gritava insandecidamente a buzina do táxi ao lado esquerdo do velho Inácio. Ele, longe em seus pensamentos, nem vira quando atravessara a rua e quase fora pego pelo taxista que, vindo em controlada velocidade, num piscar de olhos freou. Aquela era a mesma rua em que, há muito tempo atrás, Alice tinha parado, e Inácio pode, então, entregá-la o seu enfeite que havia caído ao chão.
- Ei, seu velho, não vê por onde anda, não? Viu quase o que fez eu fazer?! – o taxista resmungava irado, com a cabeça para fora do automóvel, olhando incisivamente para Inácio. Este, acordando rapidamente, exclamou:
- Já sei! Já sei aonde devo ir! – Inácio subitamente apressou-se e foi em direção ao táxi – Olá, meu caro, perdoe-me pelo que fiz, mas preciso que me leve agora mesmo a um lugar! O mais rápido possível. Vamos lá!
- O quê? Hã...? Está bem, vamos, então. – o taxista não entendeu absolutamente nada do que se passava na cabeça daquele velho, que quase atropelara. Já que um cliente a mais tinha surgido, por que não...?
***
Pela janela do táxi, inconfundível Inácio viu a casa. Falou ao motorista que seu ponto havia chegado, era ali mesmo. Uma vez mais, Inácio pediu-lhe desculpas:
- Aqui está, pode ficar com o troco. Muito obrigado pela viagem. Ah, me desculpe pelo incidente lá atrás, eu estava com a mente meio aérea, sabe?!
- Tudo bem. Essas coisas acontecem. Só procure ter mais atenção da próxima vez. Obrigado ao senhor! – o taxista foi-se aliviado.
Inácio parou à frente do portão da casa de Alice. Ele, como de costume, não estava trancado. Este fora um costume que Inácio sempre reclamou em Alice, o seu descuido crônico em não trancar portas. Mas, pela primeira vez, Inácio apreciou o gesto negligente de sua antiga amada, pois queria ir a seu encontro o quanto antes. Dando alguns passos, chegou até a porta, e fez-lhe três toques e aguardou, apreensivo, a resposta. Ao fundo, a voz inconfundível de Alice respondia:
- Já vou. Só um instante. – ela ficou meio intrigada, afinal quem poderia ser àquela hora da manhã. Não estava aguardando a visita de ninguém, que se lembrasse.
Ela, que estava na cozinha lavando o resto de uma louça suja do jantar da noite anterior, foi, surpresa, abrir a porta da sala. Do outro lado, Inácio ouvia leves passos que pareciam se aproximar da porta, até que a maçaneta girou e ela se abriu. Alice apareceu a sua frente. Os mesmos cabelos grisalhos e levemente despenteados que vira da última vez; a flor vermelha sobre eles que abria suas pétalas; o avental atado à sua cintura, revelando que estava um pouco atarefada naquele momento. Ela, num instantâneo choque de surpresa, sorriu-lhe; e Inácio retribui-lhe de volta.
- Então, é você... Mas à essa hora?! Entre, vamos. Só não repare na bagunça que está. Eu estava na cozinha terminando algumas coisas, e estava preparando meu café.
A presença de Inácio era, para Alice, completamente inesperada. Não só porque Inácio não havia lhe dado qualquer aviso de que faria alguma visita, como também eles já haviam rompido o relacionamento há um certo tempo e isso havia quebrado um pouco da naturalidade de antes. Visitá-la da forma como fez Inácio, ainda mais tão cedo como era e estando ele tão bem vestido, deixou Alice perturbada por um instante. O relacionamento deles dois havia terminado fazia muitos anos, pelas próprias escolhas inconseqüentes de Inácio. Mas, desde lá, eles continuaram sendo amigos, e viam-se de vez em quando. O valioso afeto que sempre existiu entre eles nunca se desfizera com o tempo, era eterno, apesar dos lamentáveis erros que persistiam na natural conduta de Inácio. Ele sempre fora um sujeito bastante hedonista quanto à forma de vida que buscava levar. Inácio era um sujeito que, antes de tudo, viveu em função do seu prazer, do momento. As mulheres sempre foram o seu principal entretenimento, e mesmo aquilo que o fez ir à ruína em muitas vezes. Mas também não era qualquer mulher que agradava Inácio; ele não era apenas um sujeito elegante quanto a seus gestos e forma de se vestir, mas também nas escolhas que fazia de suas Vênus. Ele sempre esteve atrás de uma nova e sedutora Vênus como meio de trazer à luz a sua escassa e fugidia inspiração. Inácio era um pintor bastante talentoso. À medida que os anos foram passando, o alento de criação tornou-se, cada vez mais, parco, mesmo a despeito de suas inspiradoras Vênus que ora tornavam a aparecer. Precisava de algo que o iluminasse intensamente, já que sentia, como nunca antes, o calor da vida mais longe, se esvaindo continuamente. A lembrança de Alice na calçada fora-lhe como um súbito relampejo de luz em sua mente. Talvez fosse ela aquilo de que necessitava.
Após tê-lo permitido entrar, Alice o conduziu até a conzinha, onde estava antes. Inácio sentou-se junto à pequena mesa que recostava ao lado da parede, onde Alice estava aprontando a sua refeição da manhã. Na parede, bem acima da pequena mesa, havia uma janela semi-aberta, que permitia ao sol penetrar os seus acanhados raios daquela manhã nublada na cozinha de Alice. O ar ali dentro estava com uma quietude trágica. O ambiente meio escuro dava um tom melancólico à cena de Inácio sentado à mesa. O seu rosto estava semi-iluminado pelos poucos raios de luz que entravam pela janela. Desde que caminharam da sala à conzinha, nenhuma palavra a mais foi dita; a estranheza daquela situação emudeceu os dois. Alice, se desfazendo de seu avental, então sentou-se do outro lado da pequena mesa, encarando de frente seu antigo amor.
- Aceita um pouco de café, Inácio? Você vai gostar, ainda mais com esses biscoitos. Para estar aqui há essa hora deve estar de estômago vazio, não?
- É, eu nem senti fome quando saí. Aceito sim.
- E, então, Inácio, o que te trouxe até aqui? Confesso que estou surpresa. Há tempos você não dá notícia. Aconteceu alguma coisa que eu não estou sabendo?
- Aconteceu sim. Está acontecendo...
- O que é? É algo com você? Não diga que é mais uma doença!
- Quem dera fosse só isso!
- Hã...?
- Nesses últimos dias, e hoje principalmente, tenho sentido uma angústia aqui dentro. – respondeu Inácio com um gesto apontando para o peito esquerdo – Sei lá...! É como se me faltasse algo, sabe? Algo que não fiz ou, simplesmente, deixei de fazer por uma coisa ou outra.
- Ufa! E eu aqui preocupada achando que fosse doença... Ora, isso você sempre sentiu, pelo que sei. Você sempre buscou algo novo para fazer, nunca se acostumou com o que tinha. Veja por exemplo, você sempre foi mulherengo, sempre esteve em busca de uma mulher nova. – respondeu Alice com um pequeno tom de ironia que logo notou Inácio.
- Ora, Alice, eu estou falando sério! É algo diferente. – ele esbravejou.
- Diferente? Como assim?
- Não sei ao certo. Só sei que tem me deixado inquieto.
- Oh, já sei! Isso tem um nome: crise de meia-idade. Ou você acha que sermos velhos aposentados, como nós somos, é motivo para viver o tempo todo alegre e se divertindo, curtindo as últimas. O tempo traz não só rugas e experiências, além de nos livrarmos de trabalhar, Inácio. Ele traz consigo, uma hora ou outra, as inquietações que em vida varremos para debaixo do tapete.
Alice sentia naquele momento, ao olhar nos olhos de seu antigo amor, a “diferença” que Inácio lhe falava. Seus olhos não eram os mesmos de antes, eles revelavam uma profundidade abissal, repleta de medo, angústia, incertezas. Não tinham mais o mesmo brilho e a mesma vida com os quais se acostumara desde o dia longínquo na calçada, e pelos quais Inácio conquistava seus alvos femininos. Como nunca antes, ela nutriu em si uma obrigação “estranha” de ajudá-lo. Estendendo a mão sobre as duas mãos repreendidas de Inácio, ela disse-lhe, com uma singela ternura no olhar, que só ela sabia fazer:
- Inácio, não fique assim. Isso irá passar, você verá. Às vezes, eu também fico assim, sabe? E passa... sabe como? Ouvindo uma boa música. Que tal, hein?! – com um sorriso que mais parecia uma rosa desabrochando, ela levantou-se com pressa rumo a preparar o pequeno aparelho de som na prateleira do armário – Já sei do que você irá gostar.
Repentinamente, uma brisa fria entra pelo vazio que se abria na janela. O velho Inácio, que sentado observava sua companheira em seu preparativos, permanecia imóvel, só seus olhos moviam-se a fitar a cena. Alice virou-se e, estendendo a mão na direção de Inácio, chamou-lhe à pista de dança. Num gesto de confirmação, Inácio sorriu e com pressa levantou-se.
- E, então, está pronto para reviver os velhos tempos?
- O que você acha? Eu sempre estou pronto! – respondeu Inácio, preparando-se.
Aos poucos a música veio, enchendo de nostalgia o ambiente. Os velhos corpos começaram a exalar a energia que ainda fluía por dentro. O ligeiro frio da brisa que entrava pela janela só incitava, mais e mais, o calor interno daqueles velhos corpos. Ao som de uma contagiante valsa, eles dançaram. Uma vez mais, Inácio sentiu em seus braços aquele talhe de curvas perfeitas, do qual ainda emanava os resquícios de uma vitalidade dos áureos tempos. Ao recostar sua cabeça no ombro direito de Alice, suas narinas, já pouco sensíveis pelos efeitos do tempo, o fez viajar àquele memorável dia, em que naquele mesmo ombro tudo havia começado, com um simples toque: o doce perfume de Alice era o mesmo de antes, de um inconfundível enlace. Tudo era muito perfeito. Os dois contagiaram-se mutuamente pela dança, como se se completassem juntos, ali, mesmo num simples balanço. Nada parecia interromper aquele momento, a não ser a música que se esvaía de vez. E até que, como naquele inesquecível dia na calçada, uma vez mais, os cabelos de Alice rejeitaram a flor vermelha que lhe enchia de charme; caiu ao chão sem que ela percebesse; só Inácio, que, tendo a visão atrás de Alice, apressou-se em resgatar o precioso emblema de sua antiga amada.
- Ah, o que foi, Inácio?
- É... é... acho que isso aqui é seu.
- Ah, nossa! É meu sim. Nem vi que tinha caído...
As palavras repetiram-se como antes, inconscientemente. Os dois nem se deram conta, mas a história se repetiu ali... o mesmo encanto, a mesma timidez inicial nos gestos, nas palavras. É como se estivessem conhecendo-se novamente.
- Nossa! Há quanto tempo não dançava com você. Você continua o mesmo, hein, Inácio! – ela emitia-lhe um sorriso sem igual.
- Ora, eu estou velho, mas não morto! Hehehe!
Aquela dança tirara toda a energia que guardavam em si. Ao mesmo tempo, aqueles passos, já não tão precisos e rápidos como antes, trouxeram a memorável época em que os dois combinavam-se como se fossem um só. A aura trágica de Inácio se desfez e ele voltou a sorrir constantemente como antes, tamanho era o bem que aquele simples momento lhe fizera. Os velhos corpos, cansados pelo balanço, retornaram a seus lugares de repouso, à mesa recostada na parede. Retomaram o fôlego que tinham perdido e continuaram a prosa final.
- Essa dança me animou, sabe? Fez-me lembrar do passado.
- A mim também. Lembra-se da festa de casamento de Ana e Gustavo? Nós dançamos loucamente naquele dia.
- Oh, é verdade! Já havia me esquecido daquele dia... A Ana nem entendeu muito bem o que se sucedia, afinal já estávamos separados naquela época. Ela até ficou especulando ver seus pais juntos novamente... Até que eu cortei suas esperanças, de fato.
- Quem sabe ela não estava prevendo algo real?
- Ah, Inácio, de novo não... Já sofri o suficiente por você. Não quis e nem quero experimentar isso de novo. – Alice respondeu-lhe com uma naturalidade que Inácio já esperava, afinal o que ele queria era apenas incitar as suas palavras, não nutria uma vontade concreta de reatar a relação. O afeto que sentia por Alice era de outra natureza, assim como o dela.
- É... faz sentido. – estas palavras soaram muito significantes para Alice. Inácio queria revelar-lhe algo.
- Faz sentido? Ah, claro... Quem é ela, Inácio? Já a vi alguma vez?
- Ela? Você, como sempre... Só é mais uma Vênus. Não a vejo há muito. Nem sei se é mais minha. Também, isso não me importa mais...
- Ah, sei... Você continua o mesmo, então. A única diferença é que não tem mais vinte e poucos anos. – Alice prosseguiu, com um sorriso de concessão em seu rosto.
- Você também não mudou, Alice. É por isso que ainda gosto de você, do meu jeito, mas ainda gosto. Continua sendo o derradeiro sonho que, certa vez, transformou-se em realidade. A mais bela e sedutora Vênus que já senti em meus braços.
- Agora entendo porque veio até aqui. Isso, tudo isso, é uma grande despedida dos momentos de antes, ao estilo Inácio de ser... Confesso que está sendo uma agradável despedida.
- O último dos momentos. O último de nosso primeiro momento.
Aquela troca de palavras ecoou bem fundo no íntimo daqueles velhos amantes. Não eram palavras de lamento, e sim de felicidade. Felicidade por reviverem curtos instantes que nunca se apagaram da memória, pela preciosa experiência que tiveram em vivê-los. Aquelas palavras também eram a confirmação do que um era para o outro. Uma feliz lágrima escorreu pela maçã do rosto de Alice. Era um momento único, o último êxtase da juventude que ainda lhes restavam.
Inácio e Alice olharam-se bem fundo. Ainda que as marcas do tempo se fizessem presente naquilo que viam em seus olhos, reconheceram-se como antes, havia muito do jovem Inácio e a da jovem Alice de antes.Os dois não sentiram senão uma vontade mútua de selar aquele compromisso de despedida. Inácio, debruçando-se sobre a pequena mesa que os separava, levou sua mão ao rosto de Alice. Ela, num sinal de consentimento, fez o mesmo que Inácio. Os dois reviveram o particular gosto daquele beijo que há anos não sentiam. A escassa luz, que entrava pela janela entre eles, iluminava apenas uma metade de seus rostos, a outra estava entregue ao melancólico crepúsculo do ambiente. À medida que o enlace foi se desfazendo, pela transitoriedade natural que há na experiência com o belo, seus velhos corpos regrediram à posição anterior. Ainda anestesiados pelo momento, sorriram por uma última vez. Alice, recobrando a lucidez e retirando de seus cabelos o seu emblema escarlate, assinalou a Inácio:
- Vá, Inácio! Sua arte lhe espera, é o seu destino. A sua angústia, o que lhe faltava, a sua “diferença” já foi solucionada. Já vivemos o que precisava ser vivido novamente. Leve isso com você, é meu presente de despedida. – Inácio auferiu prontamente as palavras e o presente de sua antiga amada. Era hora de partir.
A seu quarto, ele retornou. A solidão era-lhe o divã pelo qual exprimia sua arte. Só precisava de mais um instante, de sentir mais uma vez a calmante nuvem do cigarro perpassar em seus lábios, de fazer correr em sua garganta a doce inconstância do vinho. O pincel colorido era o seu brinquedo, que revelava a fantasia contida em seus pensamentos. Eles vinham e enfileiravam-se, à espera de sua concretização, em sua já tórrida mente. Ele estava inspirado como jamais, em suas sete décadas, esteve. Ali, só existia ele e seus pensamentos, que se materializavam nas precisas e sábias pinceladas. Uma, duas, três pinceladas e... voilà. A sua obra-prima preparava-se para vir à luz. A flor de Alice era-lhe o objeto de inspiração, o que o conduzia a suas decisões. O tempo corria com lentidão, tudo parecia muito imóvel, estático, pela estabilidade do momento. Ele tinha certeza em suas iniciativas, o gélido vazio da manhã fora preenchido por cálidas e frutíferas fantasias que o tornavam o mais talentoso artista naquela ocasião. A arte fluía em seus sentidos, em seu olhar aguçado, em seus dedos estrepitosos, em seus lábios vermelhos e adocicados pelo rubro néctar que ingeria... Tudo era muito inefável e belo demais para um mero momento. Sentia que agora, depois de consumado o seu derradeiro instante com a legítima Vênus, depois que a arte voltou a fluir como nunca em suas fragilizadas estruturas, podia entregar-se à vontade de um eterno descanso que ressoava do interior de seu já esgotado corpo. A vida cumpria seu rumo.
Por último, só uma ligeira e afetuosa lembrança veio-lhe à mente: Vênus... Ela vinha caminhando contra o vento...
Escrevi esse texto sob a inspiração de uma cena de um belíssimo filme, chamado "Vênus". Aquela cena me fez abrir os olhos para singelos momentos que, às vezes, não damos muita atenção. Mas esses curtos instantes por serem, às vezes, a pura e mágica interação com o belo, são tão singelos quanto às feições que tomam e tão infinitos em sua transitória existência, que fazem-nos os seres mais completos e vívidos desse mundo. (O autor)
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