Piiiiim, tocava o despertador. Era hora de Aporia acordar, tinha que ir ao colégio. Mais um dia estava se iniciando, e Aporia, como sempre acontecia naquele dia da semana, acordava bastante estimulado, afinal hoje teria sua venerada aula de História, que não tinha desde a semana anterior. Era a disciplina que ele mais gostava. Não entendia direito porque ninguém na sua turma, além dele, não nutria alguma simpatia por aquela matéria, era tão interessante, fazia-nos refletir sobre nós mesmos – ele pensava. Arrumou-se depressa, e quase não teve tempo de comer alguma coisa antes de ir ao colégio. Queria ser o primeiro a chegar à sala, não podia perder nem um segundo sequer daquela aula, afinal hoje o seu professor trataria de um dos temas que mais gostava: Revolução Francesa. E foi o que aconteceu.
Aporia, andando a passos largos, chegou bem cedo naquela manhã. Nem viu que horas eram, só queria chegar o quanto antes à sala. Seus pensamentos iam longe, pensando na matéria que o seu professor iria explicar hoje. Já tinha lido várias vezes as páginas do capítulo de seu livro que abordava aquele assunto. Conhecia o tema. Mas estava disposto, por isso mesmo, a prestar toda a atenção no que o professor dissesse: vai que o professor falasse algo de novo, que nunca tinha lido antes... Não podia perder nada. Aporia só seguia em frente, nem percebia que quase só havia ele no colégio. Aproximando-se da entrada que dava acesso ao corredor das salas, ele avista, de repente vindo em sua direção, saindo do corredor, a inspetora mais temida do colégio, tia Hipérbole. Ela, que já o conhecia, sorriu e cumprimentou-lhe, afinal Aporia era o ideal de aluno bem comportado, bonzinho. Ele, mesmo com sua timidez aparente, fez o mesmo, e partiu para a sala no fim do longo corredor. Chegando à sala, foi direto à sua cadeira de sempre aguardar o começo da aula. Era o primeiro a chegar à sala, um dos primeiros alunos a chegar ao colégio naquela manhã.
- Ufa! Finalmente cheguei. Achei que não conseguiria... Ih, mas ainda faltam 30 minutos para começar! Bom, antes cedo do que tarde... – Aporia falava consigo mesmo, ao chegar à sala vazia.
Aporia permaneceu pacato em sua cadeira, a primeira da fila, esperando o início da aula, só folheando o seu livro de História. Até que, instantes depois, começou a ouvir passos vindos do corredor em direção à sala onde estava. Imaginava ele ser já o professor Ampulheta, com todo o seu arsenal de papéis, como sempre costumava trazer, vindo aguardar o restante da turma na sala; ou mesmo algum colega seu que, por algum motivo, tivesse chegado mais cedo naquela manhã. Os passos ficavam mais e mais próximos, e Aporia mais apreensivo. Até que, então, à porta ele apareceu: era Enfezado, um dos alunos mais problemáticos da escola, que pertencia à outra turma da mesma série da de Aporia. Eles conheciam-se do ano anterior em que cursaram aquela série na mesma turma, mas não iam muito um com a cara do outro.
- Ué, você já está aqui na sala?
- Hã... Sim, é que estou esperando a aula do professor Ampulheta. – respondeu Aporia com uma admiração em seu rosto.
- Hum... Então, ele irá dar aula hoje mesmo aqui, né?
- Sim. Por quê?
- Por nada. Que droga...! – resmungou Enfezado.
- O que foi?
- Olha só: eu preciso fazer um negócio, e você vai me jurar agora que irá ficar de bico calado, sacou?
- Hã... Sim.
- Já faz tempo que eu quero aprontar uma pro lado do Improbo e daqueles manés que andam com ele. Eles me sacanearam muito da última vez. Por isso vim aqui fazer um negócio... Mas fique de bico calado, hein! Senão vai sobrar pra você!
- Eu não vi nada... – respondeu Aporia com certo alívio.
- Assim é melhor!
Aporia sentiu as pernas estremecerem. Ele agora tinha certeza de que Enfezado estava ali para fazer algo de errado, e que provavelmente iria sobrar para seu lado. Não teve força nem ânimo algum para contestar as palavras autoritárias de Enfezado, apenas acenou-lhe o acordo, sem ao menos saber do que se tratava. Enfezado prosseguiu com o plano, mesmo na presença de Aporia, porque sabia que aquele nerd estúpido não teria a ousadia – como sempre – de delatá-lo, e também tinha plena certeza no fato de que Aporia não fosse culpado por aquilo, afinal era o “queridinho” dos professores. Enfezado já intuía naturalmente que o culpado daquilo tudo seriam os suspeitos mais óbvios da turma: Improbo e seus companheiros Gargalo e Cloaca. Além disso, sendo Enfezado aluno de outra turma, ninguém desconfiaria ser ele o responsável por aquilo, a menos que alguém revelasse.
Enfezado foi, então, em direção à mesa do professor. Lá, colocou várias pequenas tachinhas sobre a cadeira que, devido ao seu estofado negro, quase não se podia percebê-las olhando de relance. Pronto, o plano já estava armado; só faltava a vítima morder a isca e tudo se encadearia como planejado. Aporia não fazia nada a ser olhar atônito àquilo tudo. Tinha consciência do problema que Enfezado estava preparando, e o pior era que ele era testemunha daquilo e não tinha ímpeto algum de impedi-la. Aporia já possuía Improbo como um incurável calo em seu pé; se desacordasse com os planos de Enfezado, teria agora mais que um novo arquiinimigo, porque os dois comparsas dele, Prepúcio e Chalaça, também seriam novas lamentáveis criaturas que teria que agüentar a seu encalço.
Enfezado dirigiu-se à porta, pronto para sair da cena do crime, quando virou e disse a Aporia:
- Você não viu nem ouviu nada, hein! Seu eu souber que descobriram que fui eu você estará perdido, hein, Aporia! E nem tente tirá-las lá da cadeira, senão você vai se ver comigo na hora da saída!
- Eu... Não sei de nada, pode deixar.
Enfezado, sem mais nem menos, partiu imediatamente para sua sala ao lado, olhando só para frente. Ele nem viu, mas ao início do corredor estava a famigerada tia Hipérbole, a inspetora mais temida da escola. Ela, sem entender o que se passava, não ligou muito, afinal tinha preocupações a mais com os alunos que começavam a se aglomerar ensurdecidamente à entrada que dava acesso ao corredor.
Aporia debruçou-se sobre o apoio de sua cadeira angustiado e pensou, pensou... A hora estava passando mais rápido agora, do que imaginava que fosse passar; ele apenas ouvia que os alunos das turmas ao longo do corredor começavam a chegar, inclusive da turma de Enfezado. Não sabia o que fazer, se permanecia ali sentado esperando o desfecho daquilo tudo, ou dava um fim naquelas tachinhas. Mas seu acanhamento era tal que o imobilizava completamente. Aporia, então, levantou-se e foi rumo ao banheiro, no fim do corredor, próximo à sua sala. Viu que vários colegas da turma de Enfezado já dirigiam-se à sala. Passando próximo da porta daquela turma, viu que os comparsas de Enfezado, Prepúcio e Chalaça, já haviam entrado, e morriam de rir do que lhes relatava Enfezado – o plano testemunhado por Aporia. Ele apressou seus passos. Chegando ao banheiro, lavou uma, duas, três vezes seu rosto, que revelava um nervosismo incontrolável, que quase lhe tirava todo o ar. Ali, olhando bem fundo em seus olhos, refletidos no espelho, ele tomou a decisão: precisava reverter a situação rapidamente, antes que fosse tarde demais, não só porque aquilo acabaria sobrando para seu lado, como também porque o professor Ampulheta era bondoso demais para sofrer aquilo; ainda mais ele, o aluno que mais prestigiava as suas aulas, escondendo toda a maquiavélica verdade... Se descobrisse, o professor Ampulheta jamais lhe perdoaria, porque precisamente Aporia era-lhe o aluno em que mais confiava.
Aporia, certo de sua decisão, saiu do banheiro rumo à sala. Mas logo que pôs os pés no corredor viu que não apenas o seu prestigiado professor conversava, ali próximo, com a tia Hipérbole preparando-se para ir à sala, como também seus colegas de turma começavam a chegar, e já saindo da sala o próprio Improbo junto de seus companheiros Gargalo e Cloaca, que dirigiam-se, sorrindo de algo, em sua direção rumo ao banheiro. Suas idéias estavam perdidas.
- O que é que tu quer me olhando desse jeito? Tá querendo tomar uns sopapos já cedo?! – dirigiu-lhe impetuosamente Improbo.
Aporia permaneceu mudo e imóvel ao ver que Improbo e outros dois delinqüentes já haviam chegado antes do restante da turma: o plano de Enfezado parecia encaminhar-se perfeitamente. Até o professor Ampulheta já estava vindo, e viu quando Improbo e os seus dois companheiros acabaram de sair de dentro da sala juntos. Aporia, de boca-aberta e pálido, apenas caminhou rumo à sala, de cabeça levemente abaixada. Passara ao lado de Improbo sem encará-lo, e sem responder uma palavra sequer à provocação dele. Em sentido contrário, vinha o professor Ampulheta que não se absteve em cumprimentar Aporia:
- Olá Aporia! Tudo bem com você? Está meio pálido. Foi algo que o Improbo disse quando você saía do banheiro, hein?
- Não, nada professor. Só estou com sono. Só isso.
- Se é só isso, então vamos entrar. – sorrindo-lhe falou a Aporia, que não conseguia encará-lo – Crianças vamos entrar e sentem-se que aula já vai começar!
Um arrepio gelado corria por sua espinha. Quase não se agüentava de tanto nervosismo. Aporia apenas sentou-se normalmente em sua cadeira e aguardou o caminhar das coisas. O professor Ampulheta havia deixado seus amontoados papéis em cima da mesa e, depois de apagar o quadro-negro, começou a escrever o esboço da aula. Improbo retornou do banheiro junto de seus dois inseparáveis parceiros com um sorriso de desdém estampado em seus rostos, como sempre. Aporia fito-os por um instante, à medida que entraram pela porta em direção a suas cadeiras no final da sala, e logo o nervosismo voltou a atormentá-lo de forma ainda mais potente. Os pensamentos viam-lhe o tempo todo. Sabia que, dali a pouco tempo, o professor Ampulheta acabaria caindo no ardiloso plano de Enfezado, e ele, Aporia, teria de já se acostumar com a idéia de fazer uma visitinha à sala da detestável diretora Catilinária. O professor Ampulheta, que estava entretido com sua escrita no quadro, percebeu quando os três ignóbeis entraram para a sala, e notou ainda o sorriso no rosto dos três – algo hilário que um dos três disse os fez rir; como sempre, era uma piada de mal-gosto.
- Vocês estão felizes hoje, hein, rapazes. Aprontaram mais alguma? Olha lá, hein, rapazes! – questionava-os o professor Ampulheta, que se desviava de sua escrita.
- Que isso, professor! É só uma piada que o Improbo tava contando, só isso... – disse Gargalo sorrindo.
Aquelas palavras deixaram Aporia ainda mais atônito, com o coração quase saindo pela boca. Mas o pior veio depois: o professor Ampulheta terminou de escrever o esboço da aula no quadro; era hora de relaxar um pouco enquanto os alunos copiavam.
- Então, turma, copiem isso aí enquanto faço a chamada!
Aporia sentiu que a hora havia chegado. O professor caminhou em direção à sua mesa, onde estavam os seus materiais. Distraído a revirar seus papéis em busca da lista de chamada, ele afastou da mesa a cadeira, para sentar-se. Nem sequer olhou o estofado negro que a recobria, tampouco o que lhes enfeitava, e suas esguias nádegas foram ao encontro do triste destino que as esperava. Com bastante vontade e aconchego, ele sentou. Aporia, vivenciando o ápice da aflição, não fez nada a não ser fechar os olhos e esperar o lamento que se seguiria.
Ao sentar-se na cadeira, o professor Ampulheta sentiu imediatamente uma dor inquietante, e fez murmúrios de expiação que deu para se ouvir nas salas ao lado. Os alunos ali na turma, que se aprestavam a copiar o que ele havia escrito no quadro, tomaram um susto e não entendiam nada do que acontecia diante de seus olhos. Nem mesmo o professor Ampulheta estava entendo direito o que se passava. Instantaneamente levantou-se da cadeira, num gesto involuntário para se livrar daquela dor insuportável, até que, passando a mão em seu traseiro, percebeu do que se tratava. Aos poucos, o professor Ampulheta foi retirando, dolorosamente, cada uma das tachinhas que fixaram-se em suas nádegas. Os alunos agora entendiam o que estava acontecendo e puseram-se a rir continua e insaciavelmente. Só Aporia permanecia quieto em seu canto, de cabeça baixa, lamentando-se em seus pensamentos. Improbo e seus companheiros aproveitavam para fazer mais bagunça ainda, atirando bolinhas de papel em seus colegas enlouquecidos pelo fato.
Lá no final do corredor, que antes permanecia pacato em silêncio, tia Hipérbole logo percebeu o furdunço que se sucedia, e correu para ver o que era de fato. Chegando à porta da sala, viu o professor Ampulheta ainda tentando se desvencilhar de suas incômodas e doloridas tachinhas. Ela apressou-se para ajudá-lo. Ao entrar na sala, todos alunos ali se calaram num gesto de respeito.
- O que aconteceu professor? Ouvi de lá do fim do corredor o alvoroço.
- Aii... Veja só o que aprontaram para mim! Eu sentei em cima de um monte de tachinhas, a senhora acredita?!
- O quê?! Mas como alguém poderia ter feito isso com o senhor? Isso é um verdadeiro absurdo, não se faz nem com o pior inimigo! – tia Hipérbole, incrédula diante do que lhe dizia e mostrava o professor Ampulheta, desabafou de forma bastante intimidadora, dirigindo indiretamente seus argumentos aos alunos da turma que se aprestavam apenas a ver, quietos, aquilo tudo.
- Pois é, tia Hipérbole. Aprontaram essa para mim.
- Pois bem. Agora, nós teremos de apurar quem foi o responsável por isso. É bem provável que, em se tratando dessa turma, haja mais de um culpado por essa barbaridade. Afinal, o histórico de certos sujeitos aqui já fala por si só.
- O que a senhora quer dizer, tia Hipérbole? – o professor Ampulheta nem conseguia raciocinar direito, tentando se desvencilhar da ligeira amargura que vinha de suas nádegas.
- Ora, isso só pode ter sido coisa do Improbo e companhia. Quem mais poderia ser?! E, então, Improbo, vai fazer-se de difícil como da outra vez em que tivemos que chamar seu pai para resolver aquela última pendenga? Foi você e seus colegas, não foram?
Improbo quase engasgou. De olhos e ouvidos bem abertos e incrédulos com o que viam e ouviam, Improbo emudeceu. Tinha certeza de que ele e seus colegas eram inocentes daquilo tudo, mas as circunstâncias haviam se encaminhado de um modo tal que dificilmente conseguiria provar sua inocência, ainda mais diante de tamanha certeza emanando das palavras de tia Hipérbole, a inquestionável. Os colegas de Improbo só permaneciam mudos e trêmulos dos pés à cabeça; não sabiam o que fazer ou o que falar. Aporia permanecia quieto em seu canto, só assistindo. Um certo alívio correu-lhe pelo corpo, já que a tensão de antes havia cessado um pouco. Sabia que agora é que as coisas começariam de fato, a inquisição dos suspeitos, o castigo... Tia Hipérbole, então prosseguiu:
- E, então, vão continuar mudos? Eu já sei como resolver isso, professor. Então, rapazes, vamos fazer uma conversinha lá na sala da diretora... Vamos lá, os três!
- Mas tia Hipérbole, a senhora tem certeza do que está fazendo? A senhora sabe se foram eles os culpados mesmo? – questionou o professor Ampulheta.
- Professor, o senhor está falando com tia Hipérbole... Eu conheço esses aqui já de longa data. Não é de hoje que aprontam, é de sempre. E é sempre essa mesma cara boazinha, mas de inocentes não têm nada.
Ouvindo aquelas palavras confiantes, o professor Ampulheta momentaneamente acordou, mas Improbo tomou coragem e, caminhando em direção à tia Hipérbole, disse-lhe algo:
- Mas, tia Hipérbole, eu não fiz nada. Todo mundo aqui ta de prova.
- Hahaha... Ok, Improbo. Agora, vamos!
Os três sujeitos não tiveram escolha. Foram encaminhados, sob a incômoda escolta de tia Hipérbole, à sala da diretora. O professor Ampulheta, recompondo-se do incidente, prosseguiu com a aula, jogando na lata do lixo aquelas malditas tachinhas. Aporia permanecia não tão inquieto como antes; finalmente conseguiu dar alguma atenção à aula e copiar o que o professor havia escrito no quadro. Ainda assim permanecia meio indisposto por causa daquilo tudo – ele estava preocupado, preocupado com a injustiça que tinha acabado de compactuar. Afinal Aporia sempre fora o nerd da turma, o menino certinho, aquele que sempre tirava boas notas, aquele que nunca conseguia mentir ou agir de forma antiética. Por isso era interpretado, pela maioria dos seus colegas, como fraco, bobinho, apenas um puxa-saco dos professores, que não se furtavam em elogiá-lo por seu bom comportamento e por suas boas notas. Muito embora Aporia tivesse plena consciência daquela situação, não possuía forças para mudá-la, era tímido demais para sequer levantar a mão e dizer algo em público. A força de sua timidez o afogava numa imobilidade potente e, ironicamente, inquietante.
Improbo, Gargalo e Cloaca caminhavam inconformados ao lado de tia Hipérbole, que permanecia incólume em sua decisão. A sala da diretora aproximava-se cada vez mais. O coração daqueles jovens só fazia bater mais e mais rápido, tamanha era a repulsão que tinham daquela sala. Já a haviam freqüentado outras vezes, e sabiam exatamente o que os esperava. Tia Hipérbole deu três toques na porta, até que ouviu a permissão para entrar.
- Olá, dona Catilinária. Tudo bom? Estou aqui com três ditos-cujos que querem confessar algo, mas que estão encontrando alguma dificuldade, sabe? Queria que você me ajudasse nisso.
- Dificuldade... Sei do que se trata. Mande-os entrar, ainda não comecei a mexer aqui na papelada, por isso ainda estou livre.
- Rapazes, vamos! Sintam-se à vontade... Hahaha.
De fato, não havia uma pessoa no mundo tão detestável quando tia Hipérbole queria ser. Aquele sorriso fora de hora deixou os três mais nervosos do que já estavam, e, ao entrarem na sala e verem a cara feia de Catilinária, tremeram como nunca antes. Tia Hipérbole sentou-se na única cadeira da sala, e os três ficaram em pé de cabeça baixa, esperando a inquisição de Catilinária.
- Então, meus “adorados” jovens, o que vocês têm a me dizer? Não espero que tia Hipérbole tenha que, como das outras vezes, ser a única a falar sobre o fato. E então? – aquelas palavras soaram de forma autoritária, buscando uma verdade que já preexistia na mente de Catilinária. Os três permaneceram calados, até que tia Hipérbole interveio, como sempre:
- Bom, Catilinária. É que hoje aconteceu algo muito lamentável com o professor Ampulheta que, confesso, senti muita pena dele: colocaram tachinhas em sua cadeira; ele, sem perceber nada, acabou sentando-se em cima delas, e o resultado foi... Não gosto nem de lembrar. Eu estava no início do corredor quando ouvi tudo vindo lá da sala desses três, onde o Ampulheta está dando aula. O resultado é que só esses três é que podem ter feito isso, e, mesmo assim, continuam negando tudo.
- Mas, tia Hipérbole, eu já disse que não fui eu, nem muito menos o Gargalo e o Cloca! Eu não fiz nada.
- Ah é? Vocês chegaram antes ou depois da turma na sala? – perguntou, olhando-os incisivamente, Catilinária.
- Nós? Hã... Quando a gente chegou, a sala tava... Hã... Vazia. Mas logo depois a gente saiu e foi ao banheiro, e a turma já tava começando a chegar. – respondeu Improbo.
- É! Mas também quando a gente entrou na sala já havia uma mochila na primeira cadeira da fileira de frente pra mesa do professor. E se eu não me engano era do Aporia! O Aporia já tinha chegado antes de nós! – completou Cloaca.
- É, é verdade!! – confirmaram, em conjunto, os outros dois.
Tia Hipérbole ficou meio estarrecida com aquilo tudo. Como assim?! Aqueles sujeitos eram – ela tinha certeza – os culpados do que aconteceu com o professor Ampulheta!
- Aporia? É, eu confesso que vi quando Aporia chegou apressado para ir à sala, antes mesmo de os outros começarem a chegar. E... É... Também lembro quando aquele aluno encrenqueiro da turma 702 saiu da sala de vocês três, antes dos outros chegarem. Era o... Qual o nome dele mesmo? Ah, é Enfezado. – respondeu, encaixando as peças do quebra-cabeça, tia Hipérbole.
- Mas, então, temos novos suspeitos aqui, tia Hipérbole. Vá até lá e traga-os. – Catilinária.
Tia Hipérbole estava meio confusa, mas tudo fazia muito sentido ao mesmo tempo. Na verdade ela não queria crer na realidade que começava a tomar forma em seus pensamentos: Improbo e companhia pareciam ser aquilo que diziam, inocentes de toda a situação. E havia algo ainda pior, realmente inacreditável: Aporia, o único e confiável aluno da turma daqueles três, parecia ter alguma coisa a ver com o fato. Tia Hipérbole apressou os passos, queria resolver o quanto antes aquele dúvida. Improbo, Gargalo e Cloaca ficaram na sala da diretora só olhando, um pouco aliviados pelo novo rumo das coisas, os ponteiros do relógio na parede. Catilinária distraía-se com alguns de seus papéis em cima da mesa.
À sala do professor Ampulheta, ela retornou. Com um semblante preocupado chamou o professor à porta. Aporia, ao ver eles dois conversando, arregalou os olhos pelo nervosismo que o tomou novamente. Tia Hipérbole relatava ao professor Ampulheta dos novos suspeitos surgidos no caso, e ele ficou tão incrédulo quanto ela. Afinal Aporia era um aluno tão bondoso que era quase uma insanidade cogitar alguma relação dele com o incidente. Mas os dois precisavam aceitar os fatos, e professor Ampulheta dirigiu-se rumo ao Aporia. Aporia não entendia nada do que estava se sucedendo. Quando viu que o professor Ampulheta dirigia-se em sua direção, e que tia Hipérbole permanecia lá na porta olhando-o tristemente, sabia que algo de errado sucedeu com os planos de Enfezado e agora estava sobrando para seu lado.
- Aporia, eu sei que você talvez não tenha culpa pelo que me aconteceu, mas é que tia Hipérbole queria que você a acompanhasse, só por um instante, nada mais. Ok? – falou baixinho a Aporia o professor Ampulheta.
- Mas o que ela quer comigo, professor? Eu não fiz nada.
- É só para confirmar algo, Aporia. Pode ficar tranqüilo. – respondeu tia Hipérbole, em reconforto, que o olhava atentamente.
Aporia não teve escolha. Ao dirigir-se até tia Hipérbole, seu coração palpitava cada vez mais forte, quase que querendo sair por sua boca. O rumo das coisas ainda não lhe fazia muito sentido, afinal por que desconfiariam dele, um dos alunos mais elogiados do colégio? A menos que tenha havido alguma testemunha do “pacto” que ele fez com Enfezado. Mas quem seria? Tia Hipérbole falou-lhe calmamente:
- Aporia, espere-me aqui com o professor que volto já, ok? Apenas vou até a turma ao lado chamar outra pessoa.
Agora ao menos algo fazia sentido para Aporia: tia Hipérbole dirigia-se justamente em direção à sala de Enfezado para buscar uma “pessoa”; ora, essa “pessoa” só poderia ser o próprio Enfezado; ela já deveria saber o que de fato havia acontecido! Aporia permaneceu inquieto ao lado de Ampulheta, que lhe fazia companhia à porta. Logo depois saía da outra sala justamente o dito-cujo que Aporia imaginava; atrás dele, tia Hipérbole como se fosse uma verdadeira carcereira guiando seu condenado. Tudo estava perdido – pensava Aporia. Quando Enfezado viu que Aporia o esperava ao lado do professor Ampulheta, ele passou a ter certeza do que também imaginava estar ocorrendo: Aporia só poderia ter delatado seu plano! Os dois olharam-se com desaprovação e lamento. Uma raiva profunda vinha das feições de Enfezado, como se estivesse alertando Aporia de futuras retaliações que viriam de qualquer jeito. Aporia carregava em seus olhos uma expressão de desculpa, buscando respostas para tudo o que estava se sucedendo, sem entender como a verdade chegou aos ouvidos de tia Hipérbole.
- Agora podemos ir, Aporia. Professor, depois que tudo isso for resolvido, venho aqui lhe falar. – com seriedade, falou tia Hipérbole.
Os dois suspeitos foram conduzidos, cada um num lado de tia Hipérbole, mudos, à sala de Catilinária, que os aguardava com os outros três. Três toques foram feitos contra a porta da sala de Catilinária, até que ouviu-se a permissão para entrar vinda de dentro. Improbo, Gargalo e Cloaca olharam imediatamente para os que entravam: primeiro foi Aporia, de cabeça baixa e sem dizer uma palavra; depois foi Enfezado que, com uma cara de mal, olhava surpreso para os seus rivais que estavam na sala – ele não sabia que Improbo e seus companheiros haviam sido envolvidos na história. Tia Hipérbole, que por último fechou a porta, disse:
- Aqui estão os dois, Catilinária. Agora nós podemos resolver isso de uma vez por todas.
- Bom, muito bom. E, então, jovens o que vocês têm a me dizer sobre o que aconteceu com o professor Ampulheta?
Os dois grupos de suspeitos ficaram em lados opostos. Em meio a eles, tia Hipérbole. Improbo não perdeu a chance de olhar para os seus companheiros e darem um pequeno sorriso de zombaria de Aporia e de Enfezado. Aquele nerd finalmente, ao menos uma vez, sentiria o temor com o qual eles já haviam se familiarizado. E quanto aquele delinqüente, Enfezado, parecia ser bom demais – pensava Improbo – vê-lo se ferrar mais uma vez. Fingindo não saber de nada, Enfezado respondeu:
- Com o professor Ampulheta? O que aconteceu?
- Ah, então você não sabe? Pois bem, colocaram várias tachinhas sobre a cadeira do professor Ampulheta, e ele sentou-se, lamentavelmente, sobre elas. Improbo e companhia foram os principais suspeitos pelo fato, já que seus históricos de comportamento dizem muito. No entanto, tia Hipérbole afirmou ter visto você saindo da turma deles muito cedo, antes mesmo de alguém ter chegado à sala. Isso é verdade?
Agora tudo fazia sentido para Enfezado, e mesmo para o próprio Aporia. Enfezado desconfiava que Aporia tinha contado tudo à tia Hipérbole, e por isso os dois foram levados até a sala da diretora. Aporia, por sua vez, não entendia nada, porque mantivera-se até então quieto, na sua, sem revelar nada.
- Hã... É... É sim. Mas havia alguém na sala: era o Aporia. E eu só fui até lá para falar com ele, nada mais.
- Falar com ele? O quê especificamente? E não fez mais nada? E por que chegou tão cedo hoje?
- Eu... Hã... Fui apenas cumprimentá-lo. A gente se conhece desde o ano passado quando éramos da mesma sala. Só isso. E eu cheguei cedo porque hoje iria ter aula de Educação Física, só que não sabia que seria apenas aquele blá-blá-blá na sala. E eu nem sabia que teria aula do professor Ampulheta hoje, lá na sala do Aporia.
- Você quer dizer aula teórica?
- Isso. É que as aulas de Educação Física só prestam quando são na quadra...
- Faz algum sentido o que você disse. Agora, eu quero ouvir o que Aporia tem a dizer. E, então, Aporia, foi isso o que aconteceu mesmo? Você chegou à sala mais cedo ainda que o Enfezado? Por quê?
Era agora ou nunca. Todos pareciam estar muito atentos ao que Aporia viria a dizer. Por seu histórico de aluno bem-comportado e bastante aplicado aos estudos, suas palavras provavelmente poriam fim aquilo tudo, justamente “por serem a verdade”. Ele estava, como nunca antes, confuso, confuso demais. Sua mente não conseguia raciocinar direito, estava quase entrando em colapso pelo demasiado nervosismo que o dominava. Aporia, como nunca antes daquela forma, fazia completamente jus ao seu nome: a verdade parecia-lhe entupir-se em seus pensamentos, em sua garganta, em seus hesitantes lábios; a verdade interditava-se em si próprio, parecia ter vida e desejos próprios, não queria sair. Aporia vivenciava um momento de completa dificuldade. Sua timidez atingia níveis tão impensáveis que desvirtuava suas sábias decisões ao mundo do erro, da antiética, da astúcia. Aquele momento em que fechou-se em si próprio, em que o tempo parou num suspense inquietante, seus pensamentos fugiram para longe, para longe da realidade em que sempre vivera. Muito embora uma ligeira consciência de justiça viesse à luz, em seus pensamentos só precisava encontrar uma solução para aquilo, que o livrasse daquele tormento angustiante. A presença de Enfezado, ali, ao seu lado, pressionou ainda mais a sua decisão. Sabia que se a verdade fosse dita, Enfezado – e principalmente os colegas dele que não haviam sido envolvidos no caso – seria a nova pedra em seu sapato. Tinha agora duas escolhas a fazer: contava a verdade e, então, passaria a ter mais três inimigos a seu encalço, ou fazia o jogo planejado por Enfezado e mataria dois coelhos com um tiro só – se livraria de uma vez por todas de Improbo e seus comparsas, afinal muito provavelmente seriam expulsos de vez do colégio, e não teria a preocupação de outros três indivíduos detestáveis lhe perturbando, já que cumpriria o “pacto” com Enfezado, além de que seria completamente inocentado daquilo tudo. Mas Aporia precisava decidir-se já. O sentido de justiça sempre havia caminhado ao lado dele, todas as suas decisões sempre foram corretas, certinhas. A honestidade e sinceridade de suas ações não encontravam mais sentido para existirem ali, naquele momento. As palavras encontraram um caminho... ...rebelde, mas que revelava uma coragem que nunca teve antes:
- Sim, é verdade. Enfezado apenas veio me cumprimentar, nada mais. Eu cheguei cedo hoje à sala simplesmente por causa da aula do professor Ampulheta. Eu gosto muito de História, e principalmente do assunto que o professor trataria hoje, que é Revolução Francesa.
- Tudo bem, mas e as tachinhas? Onde se encaixam nisso tudo? Você, como foi o primeiro a chegar à sala, talvez você tenha visto quem as colocou sobre a cadeira do professor Ampulheta, não? E então?
Aporia respirou fundo, e com uma frieza inconsciente, disse:
- Não necessariamente. Quando o Enfezado saiu da sala, eu fui até o banheiro lavar o rosto, porque estava com um pouco de sono. Depois, ao sair do banheiro, vi que Improbo, Gargalo e Cloaca já haviam chegado e saíam da sala de aula, juntos, sorrindo e sem haver nenhuma pessoa a mais dentro da sala. Naquela hora, o restante da turma começava a vir pelo corredor, assim como o professor Ampulheta, mas não havia ninguém a mais na sala! Depois de Improbo, Gargalo e Cloaca saírem sorrindo, não sei de quê, da sala, voltei à minha cadeira e não vi nenhum aluno, que chegou depois, indo até a mesa do professor.
- Então, o que vocês três têm a dizer? – perguntou tia Hipérbole a Improbo e seus dois companheiros.
- Peraí, ele tá dizendo que foi a gente que fez aquilo?! Mas, dona Catilinária, eu não fiz nada, nem o Gargalo e o Cloaca! A gente tava rindo de uma piada, só isso!
- Sei... Vocês, como sempre, nunca fazem nada. – resmungou desdenhosamente tia Hipérbole.
- Ele tá mentindo, foi ele próprio que fez aquilo! – gritou Gargalo.
- É mesmo. Foi ele mesmo que fez isso, junto com esse mané aí! – completou iradamente Cloaca.
- Olha como você fala comigo, viu?! – resmungou Enfezado.
- Chega!!! Parem com isso, já! Quem decide as coisas aqui sou eu e tia Hipérbole. E eu já ouvi o que queria ouvir. Aporia e Enfezado, vão para as suas salas! E vocês três fiquem aí!
Mediante tudo o que havia sido exposto, Catilinária decidiu pôr um ponto final naquilo tudo. Após confrontar as versões daqueles sujeitos, não havia mais o que duvidar, só poderia ter sido Improbo e seus companheiros que planejaram aquilo contra o professor Ampulheta. Aporia jamais poderia ter feito aquilo, porque não tinha e nunca teve coragem para isso, como também não havia motivos aparentes para ele tomar uma atitude dessas, ainda mais contra um dos professores que mais o elogiava – pensava Catilinária. É claro que Enfezado era um indivíduo, sem dúvida, condenável, mas não havia fortes indícios de tivesse alguma relação, tendo mesmo Aporia confirmado a versão que ele havia apresentado. O histórico de conduta de Aporia o inocentava automaticamente, enquanto que o de Improbo e de seus companheiros tornava-os réus permanentes.
Enquanto Catilinária, junto de tia Hipérbole, anunciava o veredicto aos três acusados, Aporia e Enfezado, que haviam sido liberados, iam de volta às suas respectivas salas. Enfezado ria como nunca – o seu plano, enfim, concretizou-se. Aporia tentava conter-se pelo contágio das gargalhadas de seu novo “amigo”, mas o alívio que sentia agora era tamanho que não lhe concedia a seriedade. Os dois, lado a lado, caminhavam às suas salas. Enfezado, retornando de seu escárnio, parou e disse a Aporia:
- Cara, nunca mais vou esquecer desse dia! Hahaha... Eu até achei que você tivesse contado a verdade, quando a tia Hipérbole me tirou da sala. Aporia, valeu mesmo! De agora em diante, ninguém vai mexer mais contigo, falou?! – Aporia não conseguiu responder a essas palavras de Enfezado; Aporia estava aliviado, mas, ao mesmo tempo, tentava refletir sobre o mal-entendido que causou.
Catilinária, então, sob o auxílio de sua capanga, tia Hipérbole, pronunciou o veredicto aos três suspeitos que ainda permaneciam ali sob custódia: diante dos fatos apresentados e do histórico de delitos já recorrentes, Improbo, Gargalo e Cloaca foram culpados de terem colocado tachinhas sobre a cadeira do professor Ampulheta; como punição, seriam expulsos de vez daquele colégio. Os três tentaram reivindicar uma vez mais a real justiça a Catilinária, mas ela negou-se em dar-lhes ouvido, já tinha perdido muito tempo com aquilo. Catilinária olhou-os bem firme e disse:
- Vejam bem, rapazes, eu estou farta de ter que continuar agüentando a lamúria de vários professores e alunos por causa da “pirralhice” de vocês. Vocês já fizeram demais, já abusaram muito da paciência de todos nós e nunca, até então, haviam recebido uma punição adequada. Mas, finalmente, a hora certa chegou, e eu estou satisfeitíssima de ter que expulsá-los de vez deste colégio. É um favor que faço não só aos meus colegas, mas a mim mesma que já tenho aturado inúmeras reclamações sobre vocês. Só vou dizer-lhes algo mais: farei de tudo para vocês irem para uma escola bem longe dessa aqui, em outro bairro; e se eu souber que algo aconteceu a Aporia, levarei o caso de vocês à polícia, entenderam?! – essas palavras de Catilinária foram as últimas, que selaram de vez aquela conversa. Tia Hipérbole dirigiu-se à sala para contar o veredicto ao professor Ampulheta e pegar os pertences de Improbo, Gargalo e Cloaca que permaneciam na sala.
***
Caminhando à casa, assim ia Aporia. Aquele dia revelou-lhe algo que jamais soube que possuía. Era por demais sui generis. Tinha a certeza de que cometera um erro, um gravíssimo erro. Mas sentia que não reduzia-se a isso, “apenas”. Aquela experiência foi única, revelou uma força estranha que lhe corria por dentro. Aporia sentia que, de agora em diante, não seria mais o mesmo, indivíduo fraco, incapaz, incorruptível ao extremo, que revelava uma dificuldade tremenda em expor suas idéias, loucas idéias. Aquele comportamento yuppie de sempre o deixara farto, completo, por isso precisava de algo novo, insensato, hippie. O sabor da rebeldia era algo fantástico, muito diferente. Um novo Aporia vinha à luz. Até então, havia se fechado muito em seu mundo de timidez, justiça, honestidade, de bons comportamentos – estava saturado disso tudo. Precisava viver uma experiência nova, um universo novo, precisava simplesmente viver – experimentar as duas faces da mesma moeda. Talvez aquele tenha sido o gesto mais nobre e sensato que já havia tomado em relação a si próprio: agiu pensando em si mesmo e em tudo o que aqueles três sempre lhe aprontaram. Era injusto com os outros, sem dúvida, mas pleno de inteligência e de uma coragem antes inexistente; era uma injusta justiça que revelava capacidade de Aporia como jogador. Soube jogar o jogo de Enfezado, e com ele alcançou uma vitória – a vitória de um conflituoso jogo iniciado há muito em sua sala com Improbo, Gargalo e Cloaca, livrando-se do mal-estar crônico que sempre lhe causaram. Aporia sempre fora prisioneiro de sua própria timidez. Ao envolver-se com aquela situação, tornou-se também prisioneiro dela junto com Enfezado. Havia, então, um dilema: contava ou não a verdade, manteria ou não a “cooperação” que havia sido firmada, lá cedo na sala, junto com Enfezado. Se bem que houve um dilema ainda maior que Aporia teve de enfrentar: agir ou não de acordo com os princípios de sinceridade e justiça que sempre nortearam sua conduta.
Mas Aporia foi, fez e viu que gostou. Apreciou o gosto da rebeldia, do momento em que viveu o que era natural de sua essência, a inconstância que lhe corria pelas veias...
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