sábado, 18 de julho de 2009

Rumo ao alto do céu

- Eu preciso sair daqui. Quero ir mais alto, mais além do que sempre estive.

- Por que isso, agora?

- Você não entende. Você nunca me entendeu.

- Você me culpa de nunca tê-lo entendido?! É porque eu te entendo que digo que não precisa ir.

- Não, você não me entende. Você não me entende e quer que eu seja contra meus próprios sonhos, meus desejos.

- Ícaro, é por te entender e te ansiar mais do que tudo que apenas estou tentando abrir teus olhos, que parecem fechar-se, mesmo querendo abrir-se. Se, então, desejas, vai.

- E irei. Irei contemplar a sorte que poucos tiveram. Força e coragem pulsam em meu corpo.

E assim foi Ícaro. A montanha era alta, alta demais para pessoas frágeis. Só durões teriam a coragem de encará-la. Os desafios eram muitos. Não havia qualquer trilha pré-definida, só um caminho natural cheio de pedras soltas e folhas secas. Os ventos sopravam forte quanto mais alto se subia. O ar tornava-se cada vez mais seco, pobre e frio; entrava com dificuldade rumo aos pulmões. A energia gasta era muita, tudo era muito difícil, intimidador, real demais. Ícaro só sabia subir, mais e mais alto. Tinha um objetivo em mente. Era chegar até seu cume e sentir o céu, vivê-lo e viver nele, mesmo que por um instante. Mas Ícaro ignorava conselhos, ignorava os seus próprios limites, aos seus olhos tudo parecia fácil e palpável somente pela vontade do desejo. Aos olhos em meio ao chão firme lá debaixo tudo parecia poético demais para não querer sentir a poesia ou cobrir das palavras do poeta. Mas o cume, que lá debaixo parecia estar cheio de campos floridos e verdejantes à luz do elevar-se do sol, parecia agora vazio, ameaçador, real demais para poesia.

Ícaro falava a si:

- Preciso chegar até lá. Ora, já caminhei muito, não posso desistir agora, por mais difícil que tenha sido até aqui. Preciso continuar, não posso voltar antes de chegar ao céu. Mas o que é isso? Tudo está muito diferente do que achei que fosse achar. O céu precisa ser diferente do que é aqui agora. Está perto, vou chegar até lá.

Não mais sentia o prazeroso ar dos campos lá embaixo entrar em suas narinas. Não mais podia sentir sob seus pés a macia grama dos prados, apenas sentia pedras duras e pontudas que só lhe davam calos e dores. Seu corpo pedia repouso, tamanho era seu esforço. Estava só com seus pensamentos, não havia seu amor para consolá-lo. A sede e a fome haviam cansado de vir, seu corpo já havia se acostumado. Pedras, pedras, pedras... o cume e o céu se aproximam.

- Oh, estou muito cansado. Preciso continuar, está próximo, muito próximo. Oh, ali está, preciso subir, só mais isso... Oh, Deus! Cheguei, cheguei ao céu! Não acredito, preciso gritar: eu cheguei, cheguei onde ninguém chegou antes, cheguei ao céu!

Ele chegou, cansado, mas chegou. Ícaro sentiu que o mais importante de seus desejos havia se realizado. Afinal, ninguém havia tido antes a proeza de encarar a mais alta de todas as montanhas com sucesso. O céu era o limite onde poucos conseguiam chegar, e Ícaro chegou... E por isso ficou muito feliz. Mas Ícaro precisava encarar a mais real realidade de seu sonho: aquele não era o mundo que esperava encontrar; era outro, muito diferente e pouco acolhedor.

- Então, esse é o céu?! O céu que sonhei até hoje e pelo qual acreditei, onde está? Mas o esforço que fiz foi grande demais, sofri demais, e para isso... – lamentou Ícaro – Onde estão as flores, onde estão os seres dos campos verdejantes? Todos não existem. A poesia só existia em meus sonhos e desejos... O mundo lá embaixo é muito mais poético e mais afável que aqui. E agora: ainda terei que refazer o caminho de volta?! Oh, o céu estava lá embaixo e não quis apreciar, nem ao menos vê-lo...

***

Buscar o céu. Todos têm esse direito. Quase todos têm essa obstinação. Por que buscá-lo? Será que não vem até nós, só? Talvez não venha, porque está lá, muito distante de nós. Mas para isso há os arco-íris. Eles são atalhos que nos conduzem até lá. Só basta pedirmos permissão aos duendes que guardam sua entrada, mas eles também são crianças como nós, e sempre estão sorrindo. Mas, além dos simpáticos duendes, por que ir até lá? Puxa, ainda assim é muito distante! Ah, fiquemos aqui! Aqui, na terra, no nosso chão, é mais firme, é mais acolhedor. Talvez um céu, maravilhoso céu azul, já esteja sob nós, só precisamos deitar sobre ele, e acariciar sua adorável e macia tez.

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