Eu não consigo entender direito porque algumas pessoas demonstram, em certas ocasiões, uma curiosidade tremenda em me ver ou ouvir falar. Tenho plena consciência de que sou estranho: isso é um fato acertado para mim. Só que essa curiosidade às vezes me deixa constrangido e confuso comigo mesmo. É provável que essas pessoas vêem algo em mim que eu mesmo talvez não veja, mas o que será isso? Creio que seja um pouco difícil falarmos de beleza, já que não sou tão belo assim a ponto de ser o centro das atenções. Talvez tenha alguma coisa a ver com uma certa exteriorização de minhas concepções, através de meu comportamento, de minhas palavras ditas, de minhas ações propriamente. Enfim deixe-me contar uma experiência que vivenciei há dias atrás, talvez fique um pouco claro do que estou tratando.
Certa vez, na faculdade, tive a tarefa de apresentar um texto para a turma, numa disciplina que curso pela manhã. Essa tarefa não foi muito difícil para mim. Pelo contrário, foi algo sem nenhum problema, afinal cada vez mais estou sabendo controlar meu nervosismo, que vem em função sobretudo de minha timidez -que, por sinal, está quase por completo controlada. A turma também é composta por poucos alunos, e mesmo a professora é bastante light, até simpática. A “coisa” não esteve na apresentação em si do texto, no que se refere à exposição de seu conteúdo e na sua prática que consiste em falar para outras pessoas, e sim como os indivíduos ali reagiram ao me verem apresentá-lo. Foi algo bastante peculiar. Antes de eu começar a falar, isto é, quando a professora ainda fazia uma introdução, todos estavam de cabeça baixa, meio entorpecidos. Só bastou que eu dissesse uma só palavra para que todos ali levantassem sua cabeça e apontassem seus olhos curiosos em minha direção. É uma experiência, de fato, intrigante, porque sinto que essas mesmas pessoas -as quais não conheço, pois nenhuma é de História- em outras ocasiões forçam um desvio de olhar quando vêem que me aproximo. É uma espécie de curiosidade oportunista, que se revela justamente quando eles têm ou sentem um momento mais “propício” a “descobrir mais sobre mim”, o sujeito estranho. Na verdade, parece ser isso a chave dessa estranheza que vêem em mim: não me conhecem e, por isso, nutrem alguma curiosidade em fazê-lo. Mas a questão também está aí: por que essa curiosidade? Não creio que seja apenas uma questão de interação com o “novo”. Porque esse mesmo “novo” pressupõe uma “diferença” em relação àquilo a que estamos familiarizados, que por sua vez provoca em nossa consciência uma predisposição em buscar conhecê-la. Parece ser essa “diferença” a “coisa”. Por que sou diferente? Em que consiste essa “diferença”?
Acho que isso tem muito a ver, embora talvez não só, com minha forma de se portar. Eu sou um sujeito muito formal. Formal na forma como me comunico. Formal na forma como me visto ou penteio meu cabelo. Sou muito “certinho”. Isso conta bastante num lugar onde parte das pessoas se vestem feito hippies ou pseudo-surfistas. Além do mais, eu sou um indivíduo completamente zen: falo bastante devagar e corretamente, usando às vezes até palavras bonitinhas. A calma é a minha principal característica, e é justamente isso que tem controlado muito minha timidez e nervosismo. Valorizo muito a placidez, pois ela me fornece mais segurança às minhas decisões pensadas e/ou praticadas. Torna-me um sujeito mais lúcido, não impulsivo. Essa minha forma “certinha” de agir atrai e ao mesmo tempo afasta as pessoas. Atrai justamente em função da “diferença” que falei acima, e afasta porque, em algumas ocasiões, as pessoas interpretam erroneamente isso como uma atitude esnobe ou arrogante de minha parte. Mas isso apenas são características naturais minhas, não algo forçado ou exibicionista. Porque se há algo que detesto é exibicionismo -isso revela fraqueza, imaturidade e falta de confiança em si mesmo, já que busca-se apelar à retórica. De fato, as pessoas se assustam quando vêem um indivíduo de feições como as minhas falar tão bonitinho ou certinho, ou com uma relativa naturalidade e desenvoltura. Isso, mesmo porque sempre me privo de falar em muitos momentos, isto é, falo pouco. Por isso devem se intrigar com o seguinte: esse indivíduo sempre quieto, na sua, que quase não dá nenhum palpite, quando diz alguma coisa fala de uma forma tão erudita e com tanta certeza em suas palavras... Na linguagem do senso comum, a verdade é que eu "como quieto", no sentido mais positivo do termo. Eu apenas busco ter discrição e elegância naquilo que faço, nada mais, nada menos.
Pois é, a questão é que sinto que as pessoas sentem uma estranheza significativa em relação a minha forma de se portar. E, em certo sentido, é natural que aconteça. O caso da apresentação do texto foi apenas uma dentre as várias situações em que esse "estranhamento" me foi direcionado. O fato de todos lá na sala terem levantado a sua cabeça e olhado imediatamente para mim mostra que eles queriam saber "algo mais" sobre mim, ou que houve algo em meu comportamento que lhes chamou a atenção. O fato de meu comportamento, às vezes, chamar a atenção tem a ver com uma pressuposição das pessoas a meu respeito que é conferida pela minha aparência em si -o que inclui não só feições físicas mas também formas de agir prévias, que identificam visualmente um sujeito. À primeira vista, não vejo problemas quanto a isso. Mas isso também não significa que não haja. O problema está, por exemplo, nas possíveis interpretações a respeito de minha pessoa que derivam dessa "surpresa": como já disse, ser visto como esnobe torna-se quase um lugar-comum a partir disso. E aí criam-se distâncias iniciais que, dependendo das circunstâncias, podem tornar-se maiores com o tempo, podendo ser bastante prejudiciais à minha socialização em determinados "espaços". Mas essa é uma questão que foge muito a meu controle, no sentido de que não depende em si de mim a sua existência. Depende antes do julgamento alheio e da distância que esses "outros" "pretendem" inconscientemente ou não sustentar. Por dois motivos um tanto óbvios, não me preocupo com isso: (1) minhas ações resultam de minha própria natureza e (2) nada disso prejudica outras pessoas. Seria um verdadeiro contra-senso querer controlar minha natureza, não só porque é muito mais forte que eu, mas também porque não é esse meu desejo. Mas eu ainda confesso que gosto um pouco disso tudo, é meio hilário até: as pessoas arregalam os olhos, numa expressão de inconformismo e curiosidade gritante. O melhor de tudo são aqueles que relevam uma certa timidez, querendo controlar os seus olhos que tentam a todo custo olhar para mim -ficam apenas me espiando de "rabo de olho". (rsrs)
É verdade que essas situações me deixam um pouco constrangido, às vezes. Mas nada que uma boa reflexão psicológica ou existencialista não resolva. Afinal, o que seria de mim sem essas questões existenciais?!...
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