quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Sobre minha estranheza

Há algo que me revolta profundamente: quando me tratam como uma pessoa tola, ingênua., por razões um tanto também ingênuas, por sinal. Na realidade, minha revolta não está no fato em si de poderem, algumas pessoas quando me vêem, considerar-me um tolo. Está sim no fato que conduz essas pessoas a chegarem a tal conclusão. Muito disso vem do fato de eu possuir feições com tais características, de gente boazinha, indefesa, passiva... O julgamento vem quase instantaneamente ao se olhar para mim, ainda mais quando busco sorrir de forma desinteressada como os cães. Confesso que tudo isso faz muito sentido, não só porque minhas feições em si denotam todos esses atributos, mas também (e principalmente) porque a maioria dos indivíduos que me julgam como tal são pessoas detestáveis que manifestam suas próprias feições de maneira bastante retórica e oportunista, diferentemente da minha, já que não vejo necessidade disso. É uma espécie de “estranhamento” em relação a minha pessoa, muito bem justificado, por sinal, por eu não ter interesse em sustentar uma tipologia eloqüente de seriedade superficial.

A questão é que eu sou um indivíduo bastante pacífico, pacato e na minha. Falo de vagar, tranquilamente, porém de forma pensada, não impulsiva, e com segurança em meus argumentos. Muitos outros falam apenas para impressionar, para sustentar o seu status egocêntrico, de modo bastante vulgar e indigesto. Ora, por acaso não é aí que está a verdadeira ingenuidade e insensatez que tanto supostamente questionam em mim? Em certo sentido não, porque é disso que vive e gosta o “sistema” bitolado do qual fazemos parte; é dessa forma que suas estruturas são reproduzidas. Aí é que está também a real explicação para o “estranhamento” em relação a minha pessoa: é porque, simples e obviamente, fujo do sentido de “normalidade” que caracteriza tal “sistema”. E o “estranhamento” torna-se uma resposta natural e comumente partilhada por seus seguidores. Ou seja, tudo isso é explicável mediante as circunstâncias pelas quais toma vida, mas não justificável em termos racionais e “maduros”.

A ética sempre conduziu minhas decisões. A responsabilidade sempre esteve em minha consciência. A razão sempre afastou a impulsividade apaixonada de minhas ações pensadas e praticadas. O sorriso esteve e ainda está, nos momentos “certos”, em meu rosto. Tudo isso parece ser puramente ingênuo, absurdo ou utópico demais para quem está constantemente interagindo com o “sistema”, já que ele está corrompido pela prática excessiva do político e do individual. E, se considerarmos a questão por um viés oportunista – no sentido mais light do termo – são de fato idéias genuinamente “woodstockianas”. Mas o que importa, antes de tudo, é ter a consciência de que o que se está fazendo produz e nos reflete algo de positivo, mesmo que irrisoriamente seja. O que me acomete é uma espécie de “apetite” suscitado pela satisfação de nossas próprias idéias, pensadas e cultivadas de modo consciente, lúcido. Porque, antes de tudo, satisfazer todas as condições que o “sistema” nos impõe implica, necessariamente, na abdução de nossas próprias vontades, na adequação passiva a estruturas externas – coisa chata!

Sorrir e não ter constantemente a retoricizante seriedade apática estampada em meu rosto desagrada ou “estranhifica” muitas pessoas que me vêem. Indiretamente, não vejo problemas quanto a isso. O problema está quando este “estranhamento” me é direcionado por uma “intimidade” compelida pelas circunstâncias, num sentido claramente depreciativo. Como se ingenuidade ou tolice se evidenciassem por intermédio de um simples sorriso ou de feições físicas, e sendo, portanto, passíveis de desprezo. A ingenuidade está muito mais entranhada no íntimo dos indivíduos do que especificada em características superficiais externas. O próprio fato de não se pensar sobre nossas escolhas ou nossas percepções das coisas, o que atinge a maioria dos indivíduos egocêntricos, é a notável pressuposição de que são dotados de uma impulsividade inocente e excêntrica, dificilmente compatível com “maturidade”.

Sou “estranho” ao “sistema”, sem dúvida. Mas por livre e espontânea escolha, porque não me prendo a necessidades excessivas de me adequar a tal tipologia de comportamento. Não vejo necessidade disso, tampouco me sinto atraído a tal prática – não é compatível com meu próprio “sistema”. Sou “estranho”, porque sei usar as células de meu cérebro a meu próprio favor, mais do que muitas pessoas que prestigiam a superficialidade da aparência. Sou “estranho”, porque sei ser o que de fato quero ser ou sou.

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