sábado, 20 de junho de 2009

Existência inconstante

Estou em crise. Quando vai passar? Pergunto-me todos os dias. Espero que passe o quanto antes. Mas também, só espero que passe só realmente quando tenha que passar, não simplesmente porque quero que passe. Pois é natural (pelo menos acho que deveria ser...) que, ao enfrentarmos qualquer momento difícil, lições sejam tiradas, acertos sejam feitos. Crises existenciais correspondem a momentos cujo ato de experimentá-los nos faz criaturas mais preparadas para o dia-a-dia, em que as dificuldades, inerentes à vida, se revelam com freqüência. Esses momentos nos fazem refletir o tempo todo, sobre nós mesmos e sobre os outros - funcionam como uma espécie de exercício de autoconhecimento ou mesmo de sensibilização de nossas capacidades de apreensão de realidades não visíveis antes aos nossos olhos. Não que isso não possa estar incluso dentro de uma situação de normalidade psicológica de alguma pessoa, mas sua potencialização ou sua constante presença em nosso comportamento é sinal de que estamos diferentes. Ora, quem nunca se perguntou “quem sou eu” antes? Pergunto-me isso todos os dias: é quase uma atitude ritualizada em meu cotidiano, aí parece estar a questão. É verdade que todos vivenciam crises existenciais; no entanto, apenas alguns não se dão conta disso. Elas vêm e vão quando menos se espera, por isso dificilmente notamos. No meu caso, sinto que ela tem se manifestado com certa freqüência, desde o ano passado (2008) até hoje. É longa? Bastante longa! O que me preocupa é até quando isso irá continuar: essa incerteza de tudo, do que de fato gosto, do que sou, etc., etc. São dúvidas constantes que vêm, quase sempre, sem respostas. E, às vezes, quando as tento buscar, mais dúvidas aparecem. É um caso sério. E suas causas? Confesso que não sei como tudo isso se originou, ou quando exatamente. Muito embora eu tenha sempre sido uma pessoa abundantemente duvidosa de si mesma, isso nunca se revelou de forma tão peculiar como agora: são dúvidas mais profundas, que reviram minhas bases, e me deixam sem rumo, sem constância. Sem dúvida, o pano de fundo de suas origens é essa minha timidez crônica, que ora se manifesta arrasadoramente, e ora vai embora como se nunca tivesse existido. É um vai-e-vem nauseante. Sinto que talvez aí esteja não só as origens dessa minha inconstância, mas também talvez o seu remédio, a sua cura: eu preciso expelir essa minha essência cancerosa, que cresce em meu âmago e que consome minhas energias. Ora, o que fez Edmond Dantès, no clássico de Dumas, quando saiu de sua prisão: ele expôs para fora tudo que guardara durante anos em sua prisão, no momento certo, por meios de ações elegantes e pensadas. Talvez eu já tenha guardado muito, durante muito tempo. Não sei se ainda é a hora certa de expor tudo para fora, porque ainda não sei o que é esse tudo, se é que isso seja necessário ou definível em termos lógicos. Fazer o que Dantès fez é preciso, antes de tudo, ter sua coragem, sua bravura: é preciso ter atitude. Atitude não só em relação a outrem, mas em relação a nós mesmos, a saber impor-nos limites: “essa é a hora, chega de nhenhenhém, vou agir!”. As dúvidas, as inconstâncias, só aparecem em corações vazios e sem alento para se tomar um rumo. Essa falta de alento é produzida, às vezes, por nós mesmos, por uma tendência exagerada a medir tudo o que se faz e se pensa – é algo meio antitético: a desmedida de todas as coisas, inclusive da própria medida. A busca pela certeza do mundo só tem me levado à essência inconstante de suas incertezas.

Ir ao encontro do que sou é fatigável. E só me leva a descobrir mais dúvidas sobre mim mesmo, ou será certezas? Talvez seja um misto disso, afinal é difícil encontrarmos uma lógica em uma mente e coração tão não-monolítico. Porém, chega de me fazer perguntas! A questão é que estou vivenciando uma crise existencial: isso é um fato. Querer que simplesmente vá embora é muito fácil e natural, só que não é um simples “ir embora” que resolverá meus problemas mais profundos. E sim a sua experiência e lições tiradas ao final. Por isso mesmo, algo que me deixa mais aflito é a esperança que nunca se concretiza de que essas lições virão. Talvez mesmo já as esteja vivenciando, só não tenha me dado conta disso. Mas, também o fato de estar consciente de que estou em plena crise não significa que automaticamente posso resolvê-la quando quiser e da forma que quiser - isso não passa de uma possibilidade, que pode ou não ser resolvida. Sinto que as crises existenciais são situações que possuem certa autonomia em si, de que nossas tentativas ou desejos de que vá embora nem sempre funcionam. Por isso, não basta simplesmente saber que estou em crise, é necessário, antes de qualquer atitude, conhecê-la. Traçar as suas origens talvez seja um método para se chegar à verdadeira resposta às minhas inquietações, que constituem a crise. É claro que isso, por si só, não resolve meus problemas, mas é um primeiro passo rumo a esse caminho. Buscar e entender minhas inquietações é um ótimo exercício de autoconhecimento e de contornar meus problemas. Sem isso, por estes últimos serem muito profundos, a sua não-resolução os transformariam num tormento crônico. Ademais, não se trata necessariamente de buscar respostas, porque, às vezes, elas são clarividentes. Quase sempre buscamos algo com alguma explicação prévia, com a resposta que nos deixa mais satisfeitos. O problema parece estar nessa necessidade de ter certeza de tudo. Não que buscar certezas constitua em si um problema, e sim como tem sido realizado esse ato de buscá-las: se é excessivo ou não, ou se segue alguma orientação. Afinal, as respostas aparecem para perguntas que possuem respostas, não para o seu contrário. Crises existenciais são frutos de corações e mentes perturbadas por necessidades em si inconstantes. Necessidades que, muitas vezes, não são necessárias, mas que se manifestam por um tendência em se ter explicação para tudo o tempo todo. É esse ato que, muitas vezes, nos conduzem a respostas forçadas e falsas. Trata-se de um tipo de raciocínio bitolado ao qual somos entregues desde que nos entendemos por gente, o de que o óbvio ou as coisas, as situações, não podem se explicar por si próprias: isto é, a complexificação do que naturalmente não é ou não deveria ser complexo - um verdadeiro absurdo. Minhas inquietações são fruto do fato de eu não conhecer a mim mesmo, ou em pensar que me conheço por meio de respostas tiradas de juízos de valor para comigo mesmo - aí talvez esteja o sentido de minha inconstância. Talvez eu seja inconstante porque minhas concepções do que eu seja são em si inconstantes em relação a minha verdadeira essência. Pois bem, voltemos a estaca zero: e qual é a minha verdadeira essência? O óbvio se explica.

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