terça-feira, 23 de junho de 2009

Um olhar sedutor

Há tempos estou intrigado com o olhar de uma pessoa. É um olhar diferente de todos os que já vi antes. Ele me faz sentir coisas que normalmente não sinto quando olho para outras pessoas, tal é seu poder desconcertante. A pessoa que o porta também é diferente de outras, nota-se só de vê-la uma vez apenas: parece ser encantadora. Não sei se realmente é, porque nunca tive coragem de lhe falar algo. Sinto muita dificuldade em tentar descrevê-lo, porque é um olhar por demais sui generis, muito embora suas repercussões imediatas em meu comportamento sejam totalmente apreensíveis. Talvez a partir disso possa tentar defini-lo, ainda que as dificuldades se manifestem. Definir um olhar: está aí uma coisa que nunca havia pensado antes. Isso mostra o quanto esse olhar, precisamente ele, tem me deixado encafifado, ele me perturba profundamente.

O primeiro efeito que sinto quando olho para aqueles olhos é o de imobilidade: meu corpo e meus sentidos tendem à inércia. Fico estático, verdadeiramente hipnotizado por aqueles olhos. Não sinto meu corpo, ele torna-se imóvel, sem vida. É algo que me é muito estranho, é como se, por um instante, só existisse eu e aqueles olhos, e nós fizéssemos algum sentido olhando um para o outro. Eu me perco no mundo. Tudo à minha volta vira um nada sem sentido. Meus olhos parecem ganhar vida própria: eles caminham de acordo com o movimento do seu objeto. Meus olhos são atraídos por verdadeiros imãs, que me levam aos céus num curto instante. É como se aquele olhar penetrasse intensamente em minhas pupilas e lhe retirasse tudo que há de vida, de energia, aprisionando-as em sua profundidade inconstante. E quando o seu objeto perde-se à vista, meus olhos retomam o seu curso, como se à consciência voltassem. Meu corpo retoma sua vida: sinto meus braços e pernas, trêmulos pelo desconcerto, meus pensamentos voltam a fluir, mas com lentidão. A imobilidade é momentânea, mas potente! Naquele espaço de tempo, curto espaço tempo, eu deixo de ser e pertencer a mim mesmo, eu me transformo em um objeto sem vida, cujo rumo segue o sentido daqueles olhos. Eles são um mar, em que me perco fácil devido a sua vasta imensidão.

Há algumas vezes que meus olhos parecem fazer oposto: quando vêem aquele olhar, escondem-se sob as suas pálpebras, envergonhados, repreendidos. Quando vejo aquele olhar, não consigo olhá-lo durante muito tempo: ele me repreende. É um tipo de olhar que, muito embora encante por sua mágica, me inferioriza de tal modo que perco as forças, a coragem, de enfrentá-lo. Ele me redime, faz com que me perca em mim mesmo. Por isso, é diferente de outros olhares. Em circunstâncias “normais”, o fato de não conseguirmos sustentar um olhar em direção a alguém quase sempre corresponde a uma questão de manifestação de nosso ego, nós nos superiorizamos. Por isso, simplesmente ignoramos o olhar alheio, por conta própria. No caso daquele olhar, o fato de não conseguir olhá-lo durante algum tempo é um processo involuntário meu, não tenho controle algum. Ele me força, ironicamente, a deixar de olhá-lo depois de um curto e infinito instante. Pois, o instante em que me hipnotizo por aquele olhar, quando fico imóvel e sem vida, é curto, mas é eterno, infinito, enquanto existe. É uma eternidade repleta de paz e inconstância, bela em si mesma.

O momento pós-olhar é muito diferente, é uma sensação que não pode ser descrita em sua plenitude, é mágica. É uma espécie de êxtase que dura algum tempo. Meu coração, antes imóvel em meu corpo, volta à vida como se estivesse a mil por hora, num curto espaço de tempo. O sangue flui com rapidez pelo meu corpo. Sobe e desce meu corpo com uma tremenda velocidade, de modo que sinto sua energia, seu calor aquecer minha pele. Todas as vezes que experimentei isso, sinto uma ardência em meu rosto – é o sangue correndo em meu corpo, num misto de embaraço com êxtase. É pura adrenalina! Sinto-me como se estivesse vindo de uma maratona, correndo há tempos. Também minha respiração se afeta, e quase não há meios para sair e entrar tanto ar em meus pulmões. Durante certo tempo, também não consigo raciocinar. Minha mente não funciona direito, como se estivesse em curto-circuito. Só depois, aos poucos, retoma sua capacidade de percepção. As palavras, que naturalmente já saem com certo pesar de minha boca, deixam de existir: desaprendo a falar. Por um instante, como deixo de raciocinar, eu emudeço: não ouço, nem consigo falar. Ora, ora, é um negócio por demais estranho! É completamente desconcertante, pois saio de um estado e vou a outro num piscar de olhos, é muito rápido. E é uma situação em que perco o controle sobre mim, é tudo muito involuntário.

O que tudo isso significa? O que é esse olhar? Essas são duas perguntas de difícil resposta. Talvez o fato já se explique. Mas, talvez não. Ora, não sei! Só sei que esse olhar foge de tudo aquilo que já vi antes. É encantadoramente encantador. Certamente é da mesma espécie que aquele de Capitu, a eterna personagem de Machado de Assis, que hipnotizava Bentinho com os seus “olhos de ressaca” – a “ressaca” do mar que vem e nos puxa para a profundeza do seu mundo, que nos faz se perder. Ele desperta em mim sensações estranhíssimas, que nunca senti antes, ou que se manifestam raramente, em situações muito específicas. Talvez ele possa se encaixar dentro daquilo que chamamos de “sedutor”. Porque, antes de tudo, o que aquele olhar me faz é seduzir. Ele me torna escravo de suas vontades, eu perco minhas vontades próprias. Tudo meu torna-se involuntário, sem atitudes e vida próprias. Eu passo a existir em função dele e por ele. Ele também é um olhar bastante elegante, porque é complexo e inconstante em sua simplicidade de ser. É um simples olhar, mas que possui sua mágica própria que me deixa sem sentido em mim mesmo. Confesso que o que mais privilegio em qualquer pessoa é o seu olhar. Por meio do olhar, descobrimos significados que só poderiam ser descobertos com uma convivência cotidiana, talvez nem até assim. “Um olhar vale mais que mil palavras”: essa é uma frase muito verdadeira. Na realidade, essa minha fixação pelo olhar, sobretudo enquanto forma de comunicação, tem a ver com o fato de saber me expressar pouco através de palavras ditas. Os simbolismos por trás de gestos e olhares são, para mim, muito mais expressivos, carregam muito mais significados, são muito mais verdadeiros e constantes que palavras. As palavras mentem, a expressão de um olhar jamais... Ele é o fio que conduz ao nosso interior, é o reflexo imediato do que sentimos por dentro. A falsidade ou inconstância pode estar em nossa interpretação dos olhares, não em sua manifestação em si. A mentira ou os juízos de valor podem também estar no olhar enquanto prática, enquanto visualização e representação de uma realidade. No entanto, não é esse o olhar de que falo: o que evoco tem a ver com a materialização física de nossos sentimentos por meio de feições; é o conjunto de movimentos sincrônicos de nossos olhos, pálpebras, sobrancelhas, cabeça, etc. É como uma orquestra que toca de acordo com o sentido de movimento ou de tom definido e regido pelo maestro. Só sei que aquele olhar de que trato aqui parece ter um maestro diferente de todos os outros, porque a orquestra é tocada de um modo que, ironicamente, desconcerta qualquer concerto. Confesso que só não sei direito o que representa esse desconcerto que esse olhar me provoca. É certo que parece haver uma espécie de “compatibilidade” de sinais: como se o olhar dessa pessoa estivesse em plena harmonia, fizesse sentido, ao encontrar meus olhos, ainda que esse encontro cause algum “estranhamento” repreensivo de minha parte, sendo incapaz de se sustentar durante um tempo longo. Há uma troca de sinais entre os meus e aqueles olhos; não sei se essa troca de sinais – que, por si só, denota algum tipo de mensagem – é recíproca, tanto no que se refere a minha parte, quanto daquela pessoa. Para mim, seria falso dizer que não sinto algum gosto em manter essa troca de olhares, em olhar para aqueles olhos que me levam ao êxtase, muito embora só tenha forças para fazer isso durante um pequeno instante. Seria também falso dizer que não me sinto atraído não só por aqueles olhos, mas também pela criatura que os carrega: sinto-me seduzido, essa é a realidade. Uma sedução que está tirando meus atributos de normalidade, se é que eu os tive alguma vez... Esse olhar tem me levado, cada vez mais, ao mundo crítico da inconstância, da dúvida, das incertezas desesperadoras. Esse olhar tem sido a realização do mais belo sonho que já tive; ao mesmo tempo, tem sido a minha ruína, o meu pecado, a minha volúpia, o meu infortúnio. Até quando continuará?!

Talvez o que eu esteja precisando é viver isso. Será que eu estou vivendo ou encarando tudo o tempo todo como um grande sonho? Talvez realmente seja um sonho, mas até um sonho pode, e até deve, ser vivido mesmo que seja em sua realidade de sonho. Quando temos sonhos, há vida neles, há experiências, há acontecimentos – nós vivemos realidades neles. O sonho daqueles olhos me abala tão profundamente que eu não estou vivendo, ao menos, nele. Preciso acordar, mesmo que seja nesse sonho, antes que se transforme em pesadelo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário