Quem somos? O que fazemos? Onde estamos? São perguntas que aparecem sempre quando nos fragilizamos pela constância de inquietações interiorizadas, em estado de latência, prontas para se revelarem. Só que, quando se revelam nos damos conta de quão frágeis são os nossos fundamentos, aquilo em que apoiamo-nos. Em verdade, entramos, de fato, em contato com a realidade que somos, que fazemos, e em que estamos.
Os dias frios e nublados sempre me foram estimulantes porque me despertam essas inquietações. Eles conseguem atingir e sensibilizar meus sentidos, que, em situações normais, já são bastante sensíveis, mas não ao ponto de me permitir um auto-olhar profundo e inquietante. Esses dias possuem algo de especial. Fornecem uma certa aura bucólica aos ambientes. Tudo fica muito bonito, muito apaixonante, tornamo-nos reflexivos. Esses dias são especiais porque nos fazem pensar sobre aquilo que não pensamos sob o sol ofuscante de dias “normais”, porque tornam nossas pupilas dilatadas não só pela ausência de luminosidade, mas também pelo estímulo a enxergarmos de forma mais íntegra aquilo que constantemente ignoramos.
Quando deparamos com nossas inquietações, o sentimento de fragilidade é algo quase que automático, porque tudo ou parte do tudo parece ser ou estar disposto de forma incoerente, como se não fizesse muito sentido lógico. E constatamos que esse caráter ilógico até então parecia-nos o bom, aquilo que nos mantinha fortes, aquilo que constituía nossa fortaleza. Mas, se é ilógico, não possui sentido ou coerência para continuar a ser reproduzido. Como não se sentir fragilizado diante disso? A fragilidade é importante porque nos faz procurar caminhos alternativos, soluções para aquilo que nos inquieta. Ela também é uma ferramenta de auto-repreensão, porque aponta sobretudo para onde erramos, para aquilo que concebíamos como o correto, mas que tratava-se de apenas uma expressão errônea de inquietações mal-compreendidas.
Esses dias bucólicos despertam em nosso subconsciente o que há de mais artístico. Nossas formas e capacidades de expressão tornam-se mais sensíveis, mais dispostas a manifestar o belo. Vemo-nos, antes de tudo, como artistas circenses, prontos e entusiasmados pelo delírio contagiante da platéia a produzir arte com as mãos, com nossas feições, com o sorriso em nosso rosto. Fragilidade e estímulo, duas coisas diferentes, tornam-se produto uma da outra: é da fragilidade que vem a força mais potente para tomarmos decisões; é do estímulo que vem a força auto-repreensiva da manifestação de nossas inquietações, fazendo-nos ver que a realidade não é tão artística quanto deveria ser, ou é em nossos sonhos mais belos.
Quem somos? O que fazemos? Onde estamos? Todas essas são perguntas normalmente respondidas artisticamente. E para isso servem os dias frios e nublados: para inquietarem-nos com nossas inquietações interiorizadas. Deixamos de ver a realidade, muitas vezes, não só pelo brilho ofuscante de dias ensolarados, mas também pela beleza que isso nos traz, pelo belo que brilha aos nossos olhos. O belo é sempre belo quando queremos que seja, porque quando questionamos nossa arte ou nossas aptidões de artista nos deparamos com o perfil feio do belo: aquilo que nos torna seres ilógicos, incoerentes em nossas ações e com nós mesmos. Ao nos questionarmos, constatamos que a realidade é bela justamente quando não iludimos nossos olhos com simples conveniências artísticas, em função de um suposto prazer. A realidade pode ser dura e “realista” demais para corações fragilizados, mas é sempre o caminho mais seguro se quisermos nos aproximar daquilo que constantemente evocamos como felicidade. O ato de olhar para a realidade nos fornece bases muito mais sólidas para curar a fragilidade, do que o encanto suscitado pela indução ao belo. Talvez os dias frios e nublados sejam belos, belos demais para serem apreciados apenas por sua beleza. Pensemos nisso!
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