domingo, 13 de maio de 2012
Desconhecido
Eu estou assustado. Assustado por algo que não
sei o que é exatamente e como funciona. Trata-se do medo pelo desconhecido.
Isto está me bloqueando, está me colocando freios e incertezas, dúvidas,
questionamentos que não terminam. Enfim, é uma crise de tomada de decisão, de
escolha. O que chamou minha atenção lá atrás, confesso, foi a socioeducação.
Achava que aí estava um caminho interessante para se perseguir e continuar
minha vida acadêmica, afinal minha vocação sempre esteve inclinada para a
educação, o ensino, o magistério, o relacionamento interpessoal. A
socioeducação, eu achava, conseguia reunir tudo isso, conseguia com que eu
continuasse, na prática, atuando como educador e, ao mesmo tempo, como
psicólogo, como profissional também preocupado em compreender problemas de
ordem subjetiva e individual. Sem falar, é claro, no salário, do gordinho
salário que eu teria no final do mês. E aí eu escolhi então a socioeducação. Eu
tinha alguma esperança de que pudesse usar isso para um possível Mestrado, para
uma pós-graduação. Mas, agora, eu não sei mais. Porque o que me preocupa tem
mais a ver com os problemas de ordem estrutural com os quais eu terei de lidar
necessariamente. Algo que, por sua vez, certamente irá se chocar com a minha
tentativa de olhar para a coisa com outros olhos, de tentar desenvolver
indiretamente uma pesquisa, um estudo, informal no próprio ambiente de
trabalho. Eu pensava, em outras palavras, extrair dessa experiência
profissional algo que pudesse servir de base para um estudo. Mas os problemas
lá parecem, aos meus olhos de calouro, tão grandes, que isto está me
imobilizando. Não sei quais exatamente as condições das unidades de
socioeducação, se há limpeza, se há uma arquitetura favorável à segurança dos
profissionais e dos próprios internos, se há um quantitativo suficiente de
funcionários trabalhando em cada unidade, se eu conseguirei atuar com destreza
em situações que requeiram um controle físico dos adolescentes. Já ouvi dizer
também que a pressão ali dentro é muito grande por parte dos órgãos da Justiça,
como a Defensoria Pública e o Ministério Público, sobre os próprios agentes
socioeducadores, que têm uma fama tácita de serem repressores no trato com os
jovens. Às vezes eu também penso que meu jeito silencioso, educado e
aparentemente pacífico de ser tenderá a ser um objeto de chacota por todos ali
dentro. Afinal, ali dentro é preciso, além de muita malícia, imposição física e
verbal. A verdade, acho, é que lá dentro os agentes socioeducadores necessitam
de couraças, armaduras virtuais para obterem respeito, para serem reconhecidos
com alguma autoridade. É claro que é muito desejável, tendo em vista o clima
intelectual de nossos tempos, uma postura mais reflexiva, essencialmente
construtivista. Mas eu não sei, e confesso que cada vez mais me torno cético,
se o construtivismo é aplicável para o universo da socioeducação do DEGASE.
Porque eu não sei quais são os instrumentos físicos de trabalho de que se
dispõem os profissionais de lá. Eu não sei das garantias estruturais de lá. Eu
não sei se os recursos são suficientes para as demandas da teoria, do
construtivismo. Não adianta terem-se os mais belos e admiráveis pensamentos, se
os recursos para a execução são poucos, são escassos. Dar liberdades de pensar e
de ajudar a construir uma instituição realmente séria e idealmente produtiva
àqueles jovens lá internados é, muitas vezes, um verdadeiro contrassenso, pois
as pressões para um sistema de segurança e controle eficaz –que não permita,
por exemplo, que qualquer jovem fuja– é muito grande. Lembro agora de uma
história contada por um professor com quem tive aula lá no DEGASE. Tratava-se
de um agente que, por descuido, não trancou adequadamente a algema colocada num
adolescente interno que ia ser transportado de van. Parece que esse agente
tinha um relacionamento razoavelmente bom com o jovem. Conversavam todos os
dias, já se conheciam. Mas num instante, no instante em que o agente não teve o
devido rigor, o adolescente aproveitou e pensou em si, fugindo da van. Aquilo
acarretou todo um problema ao agente, pois teve que responder judicialmente por
aquele caso de descuido. Aí, justamente aí, quando o problema surge, quando o
patíbulo já foi montado, os carrascos aparecem aos milhares e com inúmeras
acusações e apontamentos de erros. Eu diria simplesmente coitado daquele
agente. Contando essa história, o professor apenas quis salientar um fato
importante, comum dentro das unidades de socioeducação e que todos os agentes
deveriam conferir máxima atenção: ali dentro, o adolescente internado só pensa
24 horas por dia em sair, em encontrar qualquer brecha, qualquer falha no
sistema. A primeira oportunidade aparente e a fuga é certa. O resultado é que
as responsabilidades e a acuidade no exercício das funções são mais que
imprescindíveis para o sucesso do sistema, mas também uma condição para a
permanência no serviço público. No fundo, o que o sistema sempre quis e em
grande medida reproduz por força dos seus recursos estruturais é o controle
total, a vigilância infalível. E o construtivismo, onde ele vai parar? Eu diria
que talvez, uma vez mais, a malícia é necessária, e o que os pedagogos, os
profissionais do magistério, os educadores chamam comumente de “estratégia”
talvez seja algo a se pensar. Não consigo ver, ao menos por ora, outra coisa a
partir da qual se possa estabelecer um equilíbrio entre teoria e prática sem
ser isso.
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