Acho que a característica fundamental pela qual sou identificado é o isolamento. Adoro me isolar das pessoas, estar só e em volta da natureza ou com outros animais que não o homem. E não preciso estar fisicamente distante das pessoas; até mesmo entre elas, em muitas vezes, permaneço só e distante. Nunca entendi ao certo esse meu estilo. E tenho a consciência de que 99% das pessoas à minha volta classificam-no de, no mínimo, estranho. Mas, felizmente, já estou vacinado contra os estranhamentos. Li, certa vez, um texto maravilhoso que jogou muita luz sobre esse meu estilo. É um pequeno e saboroso escrito de Michel de Montaigne, publicado em seus Ensaios, intitulado Sobre a solidão.
Michel de Montaigne fez muito do que faço habitualmente. Para escrever seus Ensaios, retirou-se para suas terras na localidade de Montaigne e sozinho, fora da turbulência de centros urbanos e dos barulhos da Corte francesa, foi contemplar suas experiências. Sobre a solidão é, sem dúvida, a expressão de atitudes que deram origem aos Ensaios como um todo; exprime, digamos, o método de concepção da obra. Mas mostra também muito do estilo existencial de Montaigne em si, o de um verdadeiro filósofo em busca da vida contemplativa, de conhecer a si mesmo e aos outros por uma observação consciente de gostos e escolhas, ainda que não se furte a experimentar as boas coisas que a vida naturalmente oferece. Também afinal de contas, contemplar, em última análise, é apenas precisamente participar do mundo; de outra forma e por outros meios, mas participar.
A opinião dita em Sobre a solidão é a de que devemos sempre ter um cantinho para nos isolarmos; é preciso afastarmo-nos espiritualmente do mundo. Não significa que devamos nos tornar eremitas, mas apenas ter sobre o horizonte de nossos olhos o distanciamento como forma de participação, como forma de verdadeiramente estar no mundo.
“Não é que o sábio não possa viver feliz em qualquer lugar, e nem mesmo sozinho na multidão de um palácio; mas, se puder escolher, dela fugirá, até da vista, diz Bias. Suportará aquilo, se for preciso, mas, se puder, escolherá isto.”
Não basta o afastamento, físico ou espiritual; isso não traz a verdadeira paz de espírito que um sábio busca ao se isolar de seu mal; mudar de paisagem não resolve a questão. “Assim como num navio as cargas estorvam menos quando estão bem calçadas”, não basta movermo-nos de nosso lugar se a carga ainda continua pesando e, de tão “solta”, pelo balanço, pode destruir o seu armazém. É preciso, para nos entregarmos à solidão, remover de nós os “atributos do povo” que nos prendem aos grilhões do orgulho, da luxúria, da imprudência. É um ato de purificar o coração.
Além de uma dispensa da companhia de outros, a solidão é uma libertação. Estar só é um meio de conquistarmos nós mesmos, de agir conforme nossas necessidades e gostos de forma independente e verdadeiramente prazerosa, porque, acima de tudo, a felicidade e o prazer são possíveis em nós mesmos. Quanto a isso, Montaigne mostra toda sua sensatez singelamente sábia:
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“Ora, já que decidimos viver sós e dispensar companhia, façamos com que nosso contentamento dependa de nós: libertemo-nos de todos os laços que nos prendem aos outros, conquistemos de nós mesmos o poder de viver sós, em conhecimento de causa, e assim vivermos a nosso gosto.”
Quando um homem tem a si mesmo, diz Montaigne, jamais se perderá por completo, ainda que seus bens e riquezas, mulher e filhos também se forem. Isso se e somente se tiver um bom entendimento do que ele é, um entendimento existencial propriamente dito:
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“É preciso ter mulheres, filhos, bens e sobretudo saúde, se possível, mas não se apegar a eles de maneira que nossa felicidade disso dependa. É preciso reservar um canto todo nosso, todo livre, e lá estabelecer nossa verdadeira liberdade e nosso principal retiro e solidão. Aí devemos praticar nossa conversa habitual, de nós para nós mesmos, e tão privada que nenhum convívio ou comunicação com as coisas externas encontre espaço: discorrer e rir, como se sem mulher, sem filhos e sem bens, sem séquito, sem criados, a fim de que, quando chegar o momento de sua perda, não nos seja novidade dispensá-los. Temos uma alma capaz de recolher-se em si mesma; ela pode se fazer companhia, tem com que atacar e com que se defender, com que receber e com que dar: não temamos nessa solidão embotar-nos em uma penosa ociosidade.”
As palavras de Montaigne acima são enfáticas e não solicitam acréscimos. Elas mostram simplesmente que a solidão não é esse mal, essa coisa abominável que o senso comum imagina. Demonstram um argumento muito vívido de que a felicidade é possível de outros modos. Subjugar o alcance dela à existência de objetos ou duma companhia é tornar nós mesmos seres insuportáveis em si. A dificuldade reside, portanto, na capacidade de amarmos a nós mesmos. Por que o silêncio é temido? Porque simplesmente as pessoas não se suportam. É preciso sabermos aproveitar qualquer momento, independentemente de estarmos ou não sós; sensibilidade é preciso.
A solidão é muito mal vista, esse é o fato. Isso sem dúvida deriva bastante de nossa cultura ocidental latina, em que o normal é um sujeito sorridente, que fala alto, tem casa, esposa e filhos, e está sempre na balada, nas festas, nas “curtições”. Tudo o mais é bizarro, estranho, diferente.
Nós somos “eus” ambulantes; nada mais que isso. Gostos, pensamentos, ações: tudo isso é de cada um, cada um tem algo disso que lhe é próprio, só seu. Só a si mesmo faz sentido a satisfação. A percepção de individualidade é muito real e natural, na medida em que, em termos naturais ou biológicos, a nossa satisfação vem antes, deve vir antes, por uma necessidade óbvia de autopreservação. E tudo isso não invalida o desejo ou necessidade pela vida social. A vida social é um complemento, é um adendo às necessidades do nosso “eu” que inevitavelmente vem antes. Relacionar-se com outros indivíduos é até mesmo não só um esforço nosso em relação ao mundo num sentido altruísta, mas é algo que o mundo nos impõe como necessidade nossa, tendo em vista que a coletividade se preserva mais quando unida. Pois átomos separados só tendem ao choque mútuo, à destruição mútua.
Vejo no ensaio de Montaigne algo além de seu conteúdo. A mim, todas as suas palavras sobre a solidão fazem muito sentido, porque sinto, por minha experiência própria, o valor e o alcance que elas carregam. Longe de uma atitude antimoralista, anticristã ou anti-social, encaro a solidão apenas como a suposição de algo que nos aproxima muito dos animais de um modo geral; afinal, em última análise, somos apenas isso. Não que eu queira atrelar aos outros animais e a nós características do que o senso comum entende erroneamente por “gene egoísta”; a empatia e a sociabilidade são características visíveis no mundo animal, diz o autor de A era da empatia, Frans de Waal. E essas, obviamente, são também características nossas. Mas uma coisa não interfere na outra. A solidão não é a expressão de ausência de empatia ou de sociabilidade; é muito diferente disso: é apenas a expressão de uma escolha consciente e sensível de que as coisas no mundo podem ser, e constantemente são, aproveitadas de outros modos, se soubermos reconhecer que a felicidade é algo que se pode alcançar sem muito esforço.
Incrível!
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