Não sei bem ao certo quando teve início a minha aversão a aniversários. Porque não lembro muito bem dos meus aniversários quando criança. Trata-se de uma época da qual me recordo pouco quanto a isso. É certo que desde quando iniciei a adolescência essa aversão já se manifestava, e passou cada vez mais tornar-se comum. Não sei bem ao certo o que era isso. Apenas tenho a impressão de que tratava-se de um produto da minha timidez crônica que, durante a adolescência, manifestava-se de modo arrebatador. Hoje, onde minha timidez já encontra-se bastante atenuada, ainda tenho certa aversão a aniversários. Quando me refiro a aniversários estou supondo não apenas as práticas de sua comemoração (cantar parabéns, apagar velinhas, cortar o primeiro pedaço do bolo, etc.), mas também a “coisa” em si –completar mais um ano de vida. Confesso que quando era adolescente minha grande “preocupação” residia muito mais nas práticas de se comemorar: tudo aquilo, os preparativos, as pessoas, me forçava (enquanto aniversariante) a uma socialização momentânea que era incompatível com meus lampejos de timidez. Hoje, ainda sinto um pouco de aversão a isso tudo, mas ela parece, agora, encontrar seu “núcleo” muito mais no fato em si de se ficar mais velho. É como se fosse um “mal” para o qual sempre busquei fechar meus olhos, e para o qual preferi acreditar que nunca fosse tomar vida, ou que estivesse muito, muito distante de mim e, por isso mesmo, só fosse chegar tempos depois. Mas a “coisa” chegou. E nem tinha prestado muito a atenção que estava chegando: aí está a explicação do “susto” que estou vivenciando.
As duas décadas que se passaram foram-me bastante complicadas: fechei-me muito em mim mesmo. Os dois últimos anos parecem ter sido um período de transição muito conturbado: a crise existencial veio, e com ela dúvidas e mais dúvidas. Estas dúvidas me puseram num universo de pura crítica, questionamento. Questionei a mim e ao mundo a minha volta o tempo todo. Seria talvez um erro dizer que não encontrei respostas, porque uma hora mesmo as pequenas certezas vieram até mim. É claro que muitas dúvidas ainda permanecem, e é natural que isso aconteça, afinal mergulhei num imenso oceano de aporias e só a pouco senti que estou emergindo. De fato, foi um universo bastante conturbado, do qual ainda tento me desvencilhar. Mudei muito nesses dois últimos anos, talvez para melhor. Também seria pura injustiça se não tivesse aprendido nada e continuasse como antes –aí está o lado positivo das crises existenciais: são dificuldades que denunciam os males implícitos em nossos pensamentos e comportamentos, algo que dificilmente conseguimos enxergar, tamanha é a força de sua naturalização em nosso “sistema”. As crises existenciais são como respostas imunológicas, cujo objetivo é o de curar males, ao denunciá-los.
Nos dias de hoje, envelhecer é um negócio por demais indesejável. A nossa cultura tem reduzido a senilidade a um sentido de desgraça cumulativa. Mesmo o reconhecimento de que ficar mais velho é um processo natural não parece amenizar essa situação, atribuindo-lhe um sentido de mal necessário. A origem desse problema advém de uma dicotomia preconceituosa que opõe passado e presente, ou antigo e novo. O lado negativo dessa dicotomia pende, é claro, para o que já se passou, ou o que possui alguma relação estrita com o passado. É uma espécie de cultura do “presentismo” ou do “imediatismo” que dignifica muito mais o presente, o agora, em detrimento lógico do ontem. Essa tentativa de mover o passado para debaixo do tapete se materializa, por exemplo, em atitudes cotidianas, já até bastante habituais: acaso alguém nunca se deparou com o suposto constrangimento de alguém “mais velho” em revelar a sua idade? Perguntar a idade de alguém é até mesmo, em várias circunstâncias, visto como algo inapropriado ou exterior às regras de etiqueta. Aí está talvez o indicativo de que esse preconceito em relação ao passado já constitua uma espécie de noção psicológica socialmente instituída, tanto entre jovens quanto entre mais velhos.
Tenho que confessar o fato de que o meu “susto” tem um pouco a ver com isso tudo. Completar 21 anos de idade significa entrar em minha terceira década de existência. É uma espécie de passagem, meio simbólica até, das minhas duas décadas anteriores, e tudo isso é tempo demais! Assusta um pouco saber que os 30, 40, 50 anos estão mais próximos de mim: até os 30, só há um espaço de 10 anos! O susto é ainda maior quando paro para pensar em como será daqui para frente: trabalho, estudos, vida... A “coisa” parece ser mais intimidadora do que durante minha “saudosa” época do vestibular, quando a imagem do futuro que se formava em minha mente era temivelmente incerta. Os meus 21 anos parecem vir num momento em que a minha crise está em voga. Num momento em que sinto um constrangimento profundo em não saber bem ao certo o que sou e o que devo fazer. Talvez os meus 21 anos sejam a demarcação simbólica de um novo momento em minha vida, em que uma nova década de existência toma vida, mediante a constatação de problemas já localizados no “passado”, tendo início uma nova história ou fase de minha história. Creio que esta nova fase terá como favorável o fato de que a crise trouxe à luz questionamentos, aporias, dúvidas, que me puseram num plano mais lúcido de minha consciência, mais “apreensível” da realidade que me cerca. A sensibilidade ao que está à nossa volta é condição fundamental para sabermos como proceder, como agir. Sensibilidade pressupõe um processo educativo, um aprendizado forçado ou não; é saber reconhecer aquilo que conhecemos ou não; designa uma interação.
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Sei agora que envelhecer é uma dádiva dos céus. E se os céus são os nossos limites, desejo como nunca esta dádiva. Tudo tem o seu tempo, precioso tempo. Cada tempo tem a sua miragem específica, a qual não devemos fugir, e sim encará-la, com prudência, mas encará-la. Ver até onde vai o seu realismo, se é ou não o oásis que tanto desejamos em meio ao deserto. As miragens nos iludem, ainda mais quando estamos perdidos na imensidão de desertos, onde só há a inquietante busca por algo, por uma saída. Iludir-se é um mal. Um mal belo quanto à esperança que nos provoca; um mal perigoso quanto à realidade em que nos coloca. Mas as ilusões são, antes de tudo, um mal necessário –nos faz aprender, assim como ocorre aos beduínos do deserto, sobre as miragens. Só conhecendo-as, só identificando-as, algo que apenas a experiência da ilusão pode conferir, permite-nos distinguir e chegar aos belos e refrescantes oásis desses desertos. Com prudência, partamos às miragens!
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