Às vezes, como seria bom termos uma máquina do tempo para voltar atrás e tornar tudo diferente. Há escolhas que tomamos muito em função do momento, sem pensar, sem saber ao certo o que estamos fazendo. Só depois é que temos essa consciência. Depois, quando olhamos para trás com olhos sábios. É isto que talvez nos faça sofrer por nossas escolhas: pois muitas dessas escolhas são estritamente inteligentes, não sábias. Ser sábio é olhar com olhos pensantes, com olhos que não negligenciam, com olhos dispostos a amar o mundo. Poucos têm a sabedoria. Poucos conseguem pô-la em prática. Muitos sabem reconhecê-la, mesmo que tardiamente seja. Este é meu caso, meu triste caso. Algumas escolhas minhas foram muito rudes, brutas, retas, rápidas, não sábias. A constatação só veio depois, isto é, agora do depois, quando talvez já seja tarde demais para voltar atrás, querer um caminho mais sábio, mais feliz para eu mesmo. Não há nada mais lamentável do que lamentar sobre os nossos erros, toscos e inteligentes erros. Como tive a coragem de fazer isso ou aquilo?! Parece que quis escolher o meu próprio infortúnio. Coisa mais ingênua, insensata, querer escolher errado só por causa do momento. Os momentos devem ser vividos em toda sua plenitude, o tempo certo é o agora do presente, que permite, porque o agora do depois é futuro lamentável, de momentos que não foram vividos. Lamento agora pelas minhas escolhas, elas não foram nenhum um pouco sábias. A máquina do tempo, como a quero agora... Talvez a nossa máquina do tempo esteja aí, bem próximo ou dentro de nós mesmos, só precisamos ligar o seu dispositivo, e ela irá funcionar. Ela é a saída para a condição na qual nos colocamos. A sua constatação é a própria sabedoria que pulsa em nós, lá no fundo. Ela pode ser fabricada a cada instante em nós mesmos, em nossas escolhas, escolhas do agora do presente. Pôr a máquina do tempo para funcionar é condição para o fim dos nossos lamentos, pois ela não só transforma o agora do depois em agora do presente, mas também fabrica nossa própria felicidade, nosso júbilo. Só precisamos de força, de energia, para que a máquina funcione. E ela está diante de nossos olhos: o efeito perverso do lamento, que o transforma em aprendizado, lição, revelando a beleza escondida, mas não perdida.
A vida é bela: esta é uma frase saborosa. Deu nome até a um belo filme. Nele mostra-se que a beleza está mais próxima do que imaginamos, do que constatamos, às vezes. A feiúra das coisas à volta tende muito a escondê-la, mas o belo ou a beleza está nas simples coisas que nossas escolhas ou nossos olhos inteligentes não vêem ou não querem ver. É preciso ser sábio para se ver a beleza da vida. Precisamos ser sábios no olhar, em nossas decisões, em nossas escolhas. Só assim poderemos aposentar a máquina do tempo, já de engrenagens gastas. Ser feliz é simplesmente ser, e não querer ser. O querer ser é seletivo, matemático, reto, inteligente, despreza o que não se pode desprezar, em nome de algo que se busca num futuro incerto. É um desprezo do momento que busca algo no futuro, e que o agora do depois mostra o quanto é um lamento... Se as más escolhas infelizmente já tomaram forma, usemos a máquina do tempo que há em nós –é um exercício de pura sabedoria!
Os ensaios aqui tentam expor meus incômodos mais confusos. Vêm de reflexões sobre algumas coisas necessárias. É um experimento sobre coisas que ficam e que vão.
Os que andastes pelo mundo, e entrastes em casas de prazer de príncipes, veríeis naqueles quadros e naquelas ruas dos jardins dois gêneros de estátuas muito diferentes, umas de mármore, outras de murta. A estátua de mármore custa muito a fazer, pela dureza e resistência da matéria; mas, depois de feita uma vez, não é necessário que lhe ponham mais a mão: sempre conserva e sustenta a mesma figura; a estátua de murta é mais fácil de formar, pela facilidade com que se dobram os ramos, mas é necessário andar sempre reformando e trabalhando nela, para que se conserve. Se deixa o jardineiro de assistir, em quatro dias sai um ramo que lhe atravessa os olhos, sai outro que lhe descompõe as orelhas, saem dois que de cinco dedos lhe fazem sete, e o que pouco antes era homem, já é uma confusão verde de murtas. Eis aqui a diferença que há entre umas nações e outras na doutrina da fé. Há umas nações naturalmente duras, tenazes e constantes, as quais dificultosamente recebem a fé e deixam os erros de seus antepassados; resistem com as armas, duvidam com o entendimento, repugnam com a vontade, cerram-se, teimam, argumentam, replicam, dão grande trabalho até se renderem; mas, uma vez rendidas, uma vez que receberam a fé, ficam nelas firmes e constantes, como estátuas de mármore: não é necessário trabalhar mais com elas. Há outras nações, pelo contrário - e estas são as do Brasil - que recebem tudo o que lhes ensinam com grande docilidade e facilidade, sem argumentar, sem replicar, sem duvidar, sem resistir; mas são estátuas de murta que, em levantando a mão e a tesoura o jardineiro, logo perdem a nova figura, e tornam à bruteza antiga e natural, e a ser mato como dantes eram. É necessário que assista sempre a estas estátuas o mestre delas: uma vez, que lhes corte o que vicejam os olhos, para que creiam o que não vêem; outra vez, que lhes cerceie o que vicejam as orelhas, para que não dêem ouvidos às fábulas de seus antepassados; outra vez, que lhes decepe o que vicejam os pés, para que se abstenham das ações e costumes bárbaros da gentilidade. E só desta maneira, trabalhando sempre contra a natureza do tronco e humor das raízes, se pode conservar nestas plantas rudes a forma não natural, e compostura dos ramos.
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