quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Os bolinhos dos homens

Confesso que sou um indivíduo egocêntrico. Se bem que todos nós somos; a única diferença pode estar no seu grau manifesto. O egocentrismo, acho, é algo meio instintivo, é produto de uma necessidade de autopreservação. Ele difere de uma necessidade biologicamente determinada, já que seu intento não é, literalmente, “biológico”. O egocentrismo é uma qualidade instintiva derivada de nossa socialização, é instrumento de nossa autopreservação em meio ao “social”. Preservar-se no “social” pressupõe reproduzir ou legitimar uma exterioridade de atributos, é sustentar um “visual”. É claro que o egocentrismo nem sempre está manifesto na aparência imediata das pessoas; não só em função da aparência em si dos sujeitos, mas por sua sutileza em alguns casos. Muitas vezes pode ocorrer o inverso: indivíduos serem identificados como demasiadamente egocêntricos, somente a partir de sua aparência, sem na realidade o serem. No meu caso, sinto que, em geral, as pessoas não conseguem reconhecer isso em mim. Porque tenho aparência de gente “boazinha”, simplesmente. E também meu egocentrismo é de um tipo implícito, que só se revela em ocasiões muito especiais e sutis. Não há um lugar mais apropriado para se enxergar pessoas visivelmente egocêntricas do que a Academia. Curiosamente, difiro muito do “padrão acadêmico”, que está cheio de pessoas vaidosas –um tipo de vaidade bastante detestável, por sinal. Quando se vê, em tal ambiente, uma pessoa como eu, de aparência “boazinha”, o estranhamento é automático, instantâneo. É claro que o estranhamento em si não constitui um problema. Só o é quando se vê nisso algo de negativo ou quando serve de álibi para um desprezo. Ele é apenas, por si mesmo, o indicativo de que o meu comportamento é “diferente”, “ex-ótico”, não se ajusta ao padrão de “normalidade” caro à Academia. Isso tem a ver, acho, com um estereótipo de seriedade que é cultivado: no qual as expressões faciais apáticas contam bastante quanto a reconhecimento ou notoriedade. É como se as faculdades cognitivas e o “coeficiente de seriedade” dos indivíduos pudessem ser definidos inteiramente mediante as suas feições aparentes. Não preciso dizer o quanto ingênuo é isso.

Prescindir do padrão tem seu custo. E ele pode estar na preterição coletiva, de um coletivo inteligente, oportunista, não-sábio. Ser excluído é quase certo, e de muitas formas pode-se fazê-lo. Mas muitas vezes há uma profusão de ganhos pessoais, interiores, que encobre quaisquer despesas ou custos externos. É nisso que justifico ou baseio minha “ousadia” de não seguir o padrão. São estes “superávits” o combustível, o incessante combustível. Ainda mais quando vejo que não são todos os que partilham desse padrão. Há, felizmente, indivíduos que fogem, indivíduos sábios e conscientes da beleza que há no mundo e do fato de que se viver as simples coisas ao nosso redor é o caminho para o júbilo. Me encanta mais ainda quando se vê que tais indivíduos são tão grandes, e maiores até, quanto aqueles que seguem o padrão à risca. A grandeza não é algo que se conquista, como o título mais acima na hierarquia. Ela está em nossas escolhas de encarar o mundo, vem de dentro, vem de uma forma como queremos olhar a exterioridade. É sabedoria. Só se suscita quando nossos olhos se dispõem a amar, ou não, o mundo. A grandeza não é inteligente, não é reta, rápida, astuta, não vem de um aprendizado superficial externo, não vem de fora, não vem de títulos. Vem de nós mesmos, de nossas escolhas, do “eu” reflexivo, inquieto e observador.

Acho que Goethe tem muito a nos ensinar quanto ao que seja o egocentrismo, em seu O sofrimento do jovem Werther (carta 7):

Todos os escolásticos concordam em que as crianças ignoram os motivos que excitam a sua vontade; porém que os adultos se arrastam sobre este globo sempre vacilando como as crianças; que, como elas, não sabem donde procedem; que não têm mais unidade em suas ações; e que são governados da mesma sorte com biscoitos, bolinhos e disciplinas; é o que ninguém há de acreditar de boa vontade, e contudo o argumento me parece palpável. Confesso-te [destinatário da carta de Werther] sem custo, porque sei qual seria a tua objeção a este respeito, que estes são os mais ditosos; pois que, à maneira de crianças, não vivem senão para o presente, passeiam, despem e vestem as suas bonecas, rodeiam com o maior respeito a gaveta em que a mãezinha tem os bolinhos, e apenas conseguem o que desejam logo o devoram ansiosamente e gritam: quero mais! Estas criaturas assim são indubitavelmente venturosas! Felicidade ainda para aqueles que, dando uma decoração pomposa às suas ocupações fúteis e títulos aparatosos às suas paixões; representam-nas ao gênero humano com o aspecto de operações gigantescas, praticadas para sua prosperidade e glória! Ditosos os que podem pensar assim! Porém aquele que modesto no seu coração conhece a vaidade de todas estas coisas; que observa o prazer com que o aldeão feliz transforma o seu pequeno jardim em um paraíso; e com que diligência o desgraçado, curvado com o peso da sua miséria, segue o seu caminho quase faltando-lhe o alento; que vê, eu repito, que todos são igualmente interessados a contemplar, mesmo um só minuto a mais, a luz do grande astro: este sim pode gozar tranquilamente; cria um mundo por si mesmo e também é feliz porque é homem. Ainda que seja de muito limitados talentos, sempre nutre no coração o doce sentimento da liberdade, porque poderá deixar este caos quando quiser.

Não serão crianças os demasiado egocêntricos? Afinal não ignoram os motivos que excitam a sua vontade? Ignorar? Querer ver só aquilo que nossos olhos já vêem quando fitam, mesmo de relance, o objeto à nossa frente, estampado, “visível”, é ignorar tudo o mais. É olhar com olhos que selecionam, escolhem, desprezam, vêem só o que se quer ver, porque são os biscoitos, bolinhos e disciplinas que nos governam. O ser criança está aí. É viver um imediato que institui decisões, escolhas, que nos faz apenas gritar quero mais! É deixar de ser um homem, não só porque se torna criança, mas também porque as paixões deixam de ser humanas, fixam-se distantes por sua grandiosa representação. Tornam-se operações gigantescas, sobre-humanas, visíveis a todos, inclusive à posteridade, operações estranhas ao gênero humano. O humano está em ser e ver como um homem, na liberdade de sentir o belo paraíso que nasce do pequeno jardim. O humano está nos corações modestos, modestos o suficiente para perceber a vaidade de todas estas coisas, astuta e cega vaidade. Os demasiado egocêntricos são crianças. Inteligentes, mas crianças. O doce sentimento da liberdade é que lhes falta, porque os bolinhos, singelos e saborosos bolinhos, são a perdição que os levam aos céus do prazer e da glória, tornando-os escravos de seus desejos. Insaciáveis desejos por mais bolinhos... O egocentrismo institui “distância”. Ele mitifica a realidade, a não-imaginária realidade do eu. É em meio ao social que, sobretudo, toma vida. Porque o social constitui uma colisão contínua de eus, que pedem “distância” para não serem iguais. Os efeitos do distanciamento conferem autoridade a uns e a outros não. Ele institui uma forma de ver as coisas excêntrica, o eu não permanece mais no interior, ele torna-se externo, em atributos superficiais exteriores. O olhar sobre o mundo também torna-se externo, ligado às vicissitudes do exterior imediato e aparente –tal olhar oculta as singelezas do objeto visto, o contorno é tomado como forma, substância ou natureza. A modéstia das coisas, e os belos efeitos seus sobre nosso comportamento, não revela-se senão como algo oculto, inaparente. Alguns homens parecem muito mais preocupados com os seus bolinhos, e por isso mesmo cegos, que a realidade converte-se apenas num mundo de desejos ironicamente insípidos e cheios de dissabores. Afinal os bolinhos uma hora acabam e outros comedores aparecem, fazendo-os gritar ainda mais alto, a espernear, chorar, querer, e tudo o mais torna-se distante e sem graça. Nestas circunstâncias, qual o motivo de ainda “ser” algo?

Os bolinhos podem ser saborosos. Mas não são tudo. As afáveis mãos que podem tê-los feito também é algo a se considerar. Precisamos ter outros olhos, pois os gulosos não conseguem ver aquilo que um simples e apetitoso bolinho, em sua realidade aparente, pode revelar. Mais do que saciar a fome de nossos olhos, é preciso saciar a consciência de que podemos ser felizes, de que podemos ser mais sábios quanto a nossas escolhas.

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